A proposta busca reduzir a instabilidade provocada pelo modelo atual, que enfrenta questionamentos judiciais e dificuldades de planejamento orçamentário.
Piso dos professores. Foto: Agência Brasil
O Ministério da Educação (MEC) iniciou um processo de diálogo com professores, estados e municípios para discutir uma nova forma de calcular o piso salarial nacional dos professores.
A proposta busca garantir reajuste real todos os anos e reduzir a instabilidade provocada pelo modelo atual, que enfrenta questionamentos judiciais e dificuldades de planejamento orçamentário nas redes públicas de ensino.
A discussão envolve interesses distintos e resistências de diferentes lados. Gestores estaduais e municipais apontam dificuldades para cumprir reajustes elevados em determinados anos, enquanto representantes dos professores temem perder ganhos reais conquistados ao longo do tempo. Esse cenário tem adiado o envio de um projeto de lei ao Congresso Nacional, já que o governo federal afirma que só avançará quando houver um acordo amplo entre as partes.
Atualmente, o piso salarial dos professores segue uma fórmula prevista em lei e vinculada ao crescimento do valor mínimo anual investido por aluno nos anos iniciais do ensino fundamental urbano, indicador usado pelo Fundeb. Esse modelo provoca variações consideradas bruscas por gestores públicos, o que dificulta a previsão de gastos e o equilíbrio das contas estaduais e municipais.
O próprio ministro da Educação, Camilo Santana, reconhece que a regra atual gera instabilidade. Segundo ele, o modelo acaba prejudicando tanto os professores quanto as administrações públicas, já que cria anos de reajustes elevados seguidos por aumentos menores, sem previsibilidade. O ministro defende que a mudança só ocorrerá com consenso entre sindicatos da categoria, governos estaduais e prefeituras, que lidam diretamente com o impacto financeiro dos reajustes.
A projeção para 2026 mostra um dos principais pontos de tensão do debate. Caso a fórmula atual seja mantida, o reajuste do piso pode ficar em torno de 2,9%. Esse percentual tende a ficar abaixo da inflação estimada, que gira em torno de 3,5%, dependendo do desempenho econômico no fim do ano. Camilo Santana já afirmou publicamente que considera essencial evitar perdas inflacionárias para os professores, o que reforça a necessidade de um novo modelo de cálculo.
Em 2025, o piso nacional do magistério teve reajuste de 6,27%, acima da inflação acumulada de 2024, que fechou em 4,77%. Com esse aumento, o salário mínimo da categoria chegou a R$ 4.867,77. Na ocasião, o governo destacou que houve ganho real para os docentes, mas também admitiu que o mecanismo atual nem sempre garante esse resultado.
Criada em 2008, a Lei do Piso do Magistério fixou um valor mínimo obrigatório para o pagamento de professores da educação básica em todo o país. Desde então, os rendimentos da categoria apresentaram crescimento. Dados do Inep indicam que o salário médio dos professores da rede pública subiu de R$ 4,8 mil em 2012 para R$ 5,3 mil em 2024. No mesmo período, profissionais com nível superior em outras áreas passaram de R$ 7,4 mil para R$ 6,2 mil. Mesmo com avanços, professores ainda recebem, em média, cerca de 86% do rendimento de trabalhadores com a mesma escolaridade.
O Plano Nacional de Educação, que vigorou entre 2014 e 2024, previa a equiparação salarial entre docentes e outros profissionais de nível superior até 2020. A meta não foi alcançada, o que mantém a discussão sobre valorização da carreira docente no centro do debate educacional. Para o MEC, um piso mais previsível pode ajudar a tornar a profissão mais atrativa e reduzir desigualdades entre redes de ensino.
Entre as propostas em discussão, uma delas prevê que o reajuste anual considere a inflação somada à média de crescimento do Fundeb nos últimos cinco anos. Outra alternativa sugere a aplicação do INPC acrescido de 30% do próprio índice. As duas opções garantem aumento real, mas geram preocupação entre estados, que concentram as maiores redes de ensino e enfrentam impacto fiscal mais elevado.
Prefeitos argumentam que, em períodos de queda de arrecadação, até mesmo a reposição da inflação se torna difícil. Por isso, representantes dos municípios defendem contrapartidas do MEC, como apoio financeiro adicional fora do Fundeb e mecanismos de proteção em momentos de crise econômica. Do lado dos professores, parte da categoria resiste a mudanças por avaliar que a fórmula atual já garantiu reajustes mais expressivos ao longo dos anos.
Um estudo do Inep reforça a complexidade do tema ao apontar que menos da metade das redes estaduais e municipais conseguem pagar o piso nacional em mais de 90% dos contratos. O dado evidencia dificuldades estruturais para o cumprimento da lei e amplia o debate sobre a sustentabilidade do modelo atual de reajuste salarial do magistério.
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