Flávio Dino, ministro do STF e Daniel Brandão, presidente do TCE-MA Foto: Divulgação/TCE-MA/STF
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta segunda-feira, 17 de agosto, o afastamento, por 180 dias, do presidente do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA), conselheiro Daniel Itapary Brandão.
A decisão atende a um pedido da Polícia Federal e considera a posição ocupada pelo conselheiro, sobrinho do governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB).
Segundo a decisão, a permanência de Daniel Brandão no cargo poderia representar risco às investigações relacionadas a um homicídio ocorrido em São Luís, em 2022, que passou a ser associado a suspeitas de desvios de recursos públicos e pagamento de propinas.
Além de afastar o conselheiro da presidência do TCE-MA, Dino determinou uma série de medidas cautelares. Daniel Brandão está proibido de acessar sistemas e instalações do tribunal, participar de eventos públicos ou privados relacionados ao cargo e utilizar recursos disponibilizados pela Corte de Contas.
Entre os itens cujo uso foi proibido estão veículos, funcionários, passagens aéreas e aparelhos celulares fornecidos pelo TCE-MA.
O ministro também determinou que Daniel não mantenha contato com Carlos Brandão e com outros investigados pela Polícia Federal. A medida busca evitar possível interferência na apuração.
Na decisão, Flávio Dino afirmou que as investigações precisam avançar para esclarecer se Daniel Brandão teve participação no homicídio e nas suspeitas envolvendo recursos públicos.
As investigações trazem sérios elementos de prova de que, desde o momento do crime até os dias atuais, o grupo investigado tem lançado mão de todas as ações ao seu alcance para blindar a identificação de Daniel Brandão em tal investigação", afirmou o ministro do STF.
"Há, inclusive, fortes indícios de que o referido investigado tem se valido da relevante função pública de Conselheiro do TCE-MA para ocultar sua identidade nas investigações do crime de homicídio ocorrido no edifício Tech Office em 2022", completou.
Dino também declarou que o TCE-MA não deveria ser comandado por alguém que "figura no epicentro de investigações sobre um homicídio, além do mau uso de recursos públicos, cobrança de propinas e pagamentos fraudulentos".
"[Pagamentos esses] em favor de uma rede que envolve diretamente empresas de sua família — das quais é ou foi sócio — órgãos estaduais, gestores e destacadas autoridades políticas", concluiu Dino.
O caso teve origem no assassinato do empresário João Bosco Sobrinho, ocorrido em São Luís, em agosto de 2022. Em 2024, a Justiça do Maranhão condenou Gilbson Cutrim Soares Júnior, apontado como executor do crime.
Inicialmente, a Polícia Civil maranhense tratou o assassinato como consequência de um desentendimento pessoal. Com o avanço das apurações, porém, surgiu a suspeita de que o homicídio estaria relacionado a uma disputa envolvendo a divisão de propinas.
Imagens registradas no local indicam que Daniel Brandão participou de parte da reunião na qual teria ocorrido o conflito. O encontro terminou com Gilbson Júnior atirando contra João Bosco.
Segundo as investigações posteriores da PF, a presença de Daniel no local não teria sido registrada na apuração inicial da Polícia Civil.
Em maio de 2025, o caso deixou a esfera estadual e passou a ser investigado no Superior Tribunal de Justiça (STJ), devido ao foro especial de Daniel Brandão. No mês seguinte, a Polícia Federal solicitou a transferência de Gilbson Júnior para uma unidade prisional fora do Maranhão, alegando preocupação com a segurança do condenado.
O STJ autorizou a transferência para a Penitenciária Federal de Brasília. Posteriormente, Gilbson Júnior passou a colaborar com as investigações.
A partir dos depoimentos, o pai dele, Gilbson César Soares Cutrim, teria sido procurado por Raimundo Cutrim, ex-secretário de Segurança Pública do Maranhão e integrante do grupo político do governador Carlos Brandão.
Uma gravação ambiental analisada pela PF registrou, segundo os investigadores, uma conversa entre Gilbson César e Raimundo Cutrim. Na ocasião, o ex-secretário teria pedido que o pai convencesse o filho a modificar seus depoimentos para retirar referências à família Brandão.
Raimundo Cutrim teria oferecido "vantagens, dinheiro e casas" para "tirar o nome do Daniel [presidente do TCE-MA] e do pessoal da família Brandão" dos relatos. Em depoimento, Gilbson César afirmou ter recebido R$ 160 mil em dinheiro para impedir que o filho continuasse a colaborar com as autoridades.
Em outubro de 2025, a investigação foi transferida do STJ para o STF. A mudança ocorreu depois que a defesa de Gilbson Júnior apresentou informações sobre uma possível tentativa de interferência no processo que tramitava no STJ.
A suspeita envolvia o senador Weverton Rocha (PDT-MA), que possui foro no Supremo. Conforme a Polícia Federal, o parlamentar teria realizado contatos com o ministro Humberto Martins, relator do caso no STJ, inclusive em 2 de junho de 2025, data em que Gilbson Júnior foi transferido de unidade prisional.
Weverton Rocha negou qualquer irregularidade nos contatos com o ministro e afirmou que a investigação contra ele seria motivada por perseguição política.
As apurações continuam sob responsabilidade das autoridades, e a decisão de Flávio Dino determina o afastamento cautelar de Daniel Brandão pelo período de 180 dias, enquanto os elementos relacionados ao homicídio e às suspeitas de desvios públicos são aprofundados.
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