A movimentação passou a ser acompanhada por representantes do mercado financeiro, da indústria e por especialistas em comércio exterior, que demonstram preocupação com os possíveis desdobramentos da medida
Lula, presidente do Brasil e Trump, presidente dos EUA Foto: Agência Brasil/Reprodução redes sociais
A confirmação de uma nova rodada de tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros reacendeu as discussões em Brasília sobre a condução das relações comerciais entre os dois países. A medida, que prevê uma alíquota adicional de 25% sobre parte das exportações nacionais, levou o governo federal a reforçar o discurso em defesa da soberania nacional, mas também a adotar uma estratégia de cautela para evitar um agravamento das tensões diplomáticas e econômicas.
Nos dias que antecederam a oficialização das novas tarifas, integrantes da equipe econômica sinalizaram que o Brasil poderia recorrer à Lei da Reciprocidade Econômica como resposta à decisão norte-americana. Na terça-feira, 14 de julho, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que avaliava como provável a retomada desse instrumento caso a medida fosse confirmada.
Após a oficialização do tarifaço, porém, o discurso do governo passou por uma mudança de tom. Na quarta-feira (15), Durigan declarou que “o país vai se proteger, vai se fazer respeitar”, indicando que o Brasil defenderia seus interesses diante da nova política comercial dos Estados Unidos.
Dois dias depois, na sexta-feira (17), o ministro afastou a possibilidade de uma resposta imediata baseada em retaliações comerciais. "Não cabe falar em retaliação. Retaliação é uma palavra que está fora do nosso escopo e está fora do nosso trabalho", afirmou.
Segundo informações da CNN Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) determinou a realização de estudos técnicos para medir os impactos da nova tarifa e orientou que qualquer decisão envolvendo a Lei da Reciprocidade seja tomada com prudência.
A estratégia busca evitar uma escalada da disputa comercial e impedir reflexos negativos sobre os preços de produtos no mercado interno.
Ao comentar a postura adotada pelo governo, Durigan reforçou a necessidade de agir com equilíbrio. “Vamos com cautela”, disse à CNN Brasil.
A movimentação do Planalto passou a ser acompanhada de perto por representantes do mercado financeiro, da indústria e por especialistas em comércio exterior, que demonstram preocupação com os possíveis desdobramentos da medida para a economia brasileira.
Para José Niemeyer, economista e professor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos possui um peso muito maior para a economia brasileira do que para a norte-americana.
Dados divulgados pelo governo brasileiro mostram que, nos últimos 15 anos, os Estados Unidos acumularam um superávit comercial de US$ 424,5 bilhões na troca de bens e serviços entre os dois países.
Na avaliação do economista, a atual condução das negociações pode prejudicar o relacionamento diplomático bilateral. “O Brasil precisa ter uma conversa próxima com a Casa Branca, independentemente das administrações”, defende.
O ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, também demonstra ceticismo quanto à possibilidade de reverter a decisão norte-americana apenas por meio de negociações. Segundo ele, “O comportamento dos dois lados não irá mudar. O Brasil não tem agido com criatividade nas negociações e prefere negociar no sentido de pedido e oferta. Os Estados Unidos não esperam esse tipo de dinâmica”, explica.
Azevêdo alerta ainda que uma eventual resposta baseada em retaliações comerciais poderia resultar em medidas ainda mais severas por parte do governo dos Estados Unidos, ampliando os prejuízos para empresas brasileiras.
Levantamento divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a nova tarifa, prevista para entrar em vigor na quarta-feira (22), deverá atingir aproximadamente US$ 11 bilhões em exportações brasileiras.
Em nota, a entidade manifestou "extrema preocupação" com a decisão norte-americana e alertou para os impactos sobre diversos setores da economia.
A Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci) também defendeu uma atuação mais intensa do governo federal nas negociações diplomáticas. Em nota, a entidade afirmou que:
Diante da relevância econômica e social dessa pauta, seria necessária uma atuação mais efetiva do governo brasileiro, dissociada dos componentes políticos e focada na negociação diplomática", ressaltando a necessidade de preservar a indústria nacional, os empregos e o fluxo comercial entre os dois países.
Caso as novas tarifas sejam implementadas conforme anunciado, o Brasil passará a ocupar a segunda posição entre os países mais tarifados pelos Estados Unidos, atrás apenas da China, com taxas efetivas médias superiores a 18%, segundo dados do Global Trade Alert (GTA).
De acordo com Felipe Cima, analista de renda variável da Manchester Investimentos, a medida poderá reduzir o fluxo comercial bilateral em cerca de US$ 1 bilhão e provocar um impacto estimado de aproximadamente 0,03% no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.
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