Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foto: Ricardo Stuckert/PR
A situação das contas públicas brasileiras entrou em uma zona de maior preocupação em 2026. A dívida pública brasileira chegou a R$ 10,8 trilhões em junho, equivalente a 81,9% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo dados do Banco Central. O indicador representa o maior nível desde abril de 2021 e reforça a pressão sobre o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na reta final do terceiro mandato.
Além do tamanho da dívida, o que chama atenção é a combinação entre resultado fiscal negativo, juros elevados e dificuldade de produzir superávits capazes de interromper a trajetória de crescimento do endividamento.
O déficit nominal acumulado em 12 meses até junho chegou a 9,99% do PIB, um resultado próximo de 10% e que inclui, além do resultado primário, os juros pagos sobre a dívida pública. Para o conjunto dos quatro anos do terceiro mandato, projeções citadas pela Instituição Fiscal Independente apontam para um déficit nominal médio de aproximadamente 8,6% do PIB, o que colocaria o período entre os mais negativos das últimas décadas.
O avanço do endividamento não acontece isoladamente. A dinâmica das despesas públicas e o custo dos juros formam uma combinação que dificulta a estabilização da dívida.
No primeiro semestre de 2026, segundo avaliação apresentada por especialistas ouvidos pela imprensa, as despesas públicas tiveram crescimento real expressivo em relação ao mesmo período anterior. Ao mesmo tempo, a taxa básica de juros permanece em patamar elevado, aumentando o custo de financiamento e refinanciamento dos títulos públicos.
Esse mecanismo é importante para entender por que uma dívida elevada pode se tornar ainda mais difícil de controlar. Quanto maior o estoque da dívida, maior tende a ser a sensibilidade das contas públicas às taxas de juros. Se os juros permanecem elevados durante um período prolongado, a conta financeira cresce e exige um resultado primário maior apenas para impedir que a dívida continue aumentando.
É justamente essa combinação que coloca o ajuste fiscal no centro do debate econômico.
O cenário de médio prazo também é motivo de preocupação.
A Instituição Fiscal Independente (IFI) projeta que a dívida bruta encerre 2026 em aproximadamente 82,5% do PIB. Mantidas as condições consideradas no cenário da instituição, o indicador poderia chegar a 100% do PIB em 2032 e alcançar cerca de 115% em 2036.
A projeção não significa que esses números necessariamente serão alcançados. Trata-se de um cenário condicionado à evolução de variáveis como crescimento econômico, juros, resultado primário e comportamento das despesas e receitas públicas.
Ainda assim, o alerta é relevante porque mostra que o problema não está restrito ao fechamento das contas de 2026. A preocupação está na trajetória.
O diretor-presidente da IFI, Marcus Pestana, apontou três fatores para explicar a deterioração: crescimento econômico moderado, juros elevados e ausência de poupança pública. Segundo ele, 2026 também marca o 13º ano consecutivo de déficit primário.
O governo federal enfrenta uma equação difícil. De um lado, há a necessidade de manter programas sociais, investimentos e políticas públicas. De outro, o aumento das despesas precisa ser compatível com a capacidade de arrecadação e com uma trajetória sustentável para a dívida.
A crítica ao governo Lula, portanto, não se resume ao tamanho nominal dos R$ 10,8 trilhões. O ponto central é a dificuldade de apresentar uma trajetória convincente de estabilização das contas públicas.
Um governo pode conviver com uma dívida elevada quando consegue demonstrar capacidade de controlá-la. O problema surge quando o mercado, investidores e agentes econômicos passam a questionar se haverá resultado fiscal suficiente para impedir que o endividamento continue crescendo.
Essa percepção também influencia os juros. Quando aumenta a percepção de risco fiscal, o custo exigido pelos investidores para financiar o governo tende a subir. E juros mais altos, por sua vez, aumentam a despesa financeira da própria dívida.
Cria-se, assim, um ciclo difícil de romper.
Segundo projeção do economista-chefe da Tullett Prebon Brasil, Fernando Montero, o terceiro mandato de Lula poderá terminar com um déficit nominal acumulado de 8,6% do PIB, considerando os quatro anos de governo. O cálculo coloca o período acima de governos anteriores e o aproxima de um dos piores desempenhos fiscais das últimas décadas.
O número precisa ser interpretado com cuidado. O déficit nominal inclui os juros da dívida, e seu resultado pode sofrer influência significativa das condições monetárias. Além disso, eventos extraordinários, como a antecipação de pagamentos de precatórios, também afetam o resultado de determinados períodos.
Mesmo com essas ressalvas, o quadro revela uma dificuldade estrutural: o Brasil continua sem conseguir gerar resultados primários suficientemente fortes para estabilizar a dívida.
O problema fiscal também terá impacto sobre o próximo presidente, que assumirá o país em 2027. Independentemente de quem vencer a eleição, a nova administração encontrará uma dívida elevada, juros relevantes e a necessidade de encontrar espaço no orçamento.
O debate, portanto, tende a ultrapassar a disputa entre governo e oposição. A questão será definir quais despesas podem crescer, quais precisam ser revistas e como aumentar a eficiência do gasto público sem comprometer políticas essenciais.
A dívida de R$ 10,8 trilhões é o retrato mais visível dessa situação. Mas o número mais importante talvez esteja na trajetória: se o país continuar acumulando déficits e pagando juros elevados sem produzir uma poupança pública consistente, o endividamento continuará avançando.
O desafio deixado para os próximos anos será justamente interromper esse movimento.
Em um cenário eleitoral marcado por promessas de novos gastos e benefícios, os números das contas públicas impõem uma realidade menos confortável: não basta discutir quanto o governo pretende gastar; será necessário explicar como o país pretende pagar a conta.
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