Durante o período em que permaneceu com o órgão suíno, o paciente não precisou de diálise, o que permitiu aguardar a disponibilidade de um rim humano.
Paciente fica 271 dias com rim de porco. Foto: Divulgação/Massachusetts General Hospital.
Um paciente com doença renal em estágio terminal permaneceu 271 dias com um rim de porco transplantado antes de receber um órgão humano. O resultado, obtido nos Estados Unidos, representa um avanço nas pesquisas sobre xenotransplante, procedimento no qual células, tecidos ou órgãos são transplantados entre espécies diferentes.
O caso foi acompanhado no Hospital Geral de Massachusetts, em Boston, por pesquisadores do Centro de Ciências de Transplantes e da Divisão de Nefrologia. O trabalho foi liderado pelo médico brasileiro Leonardo Riella, especialista em transplante renal, e pelo cirurgião Tatsuo Kawai.
Durante o período em que permaneceu com o órgão suíno, o paciente não precisou de diálise, o que permitiu aguardar a disponibilidade de um rim humano.
Tim Andrews tinha 66 anos quando passou pelo transplante de rim de porco, em janeiro de 2025. Ele apresentava insuficiência renal em estágio terminal e necessitava de um novo órgão, mas não havia um rim humano disponível em tempo hábil.
O procedimento foi realizado após autorização dentro de um pedido de acesso expandido à Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos.
A equipe acompanhou a função renal e a resposta imunológica do organismo desde a cirurgia. Segundo os pesquisadores, o órgão começou a funcionar imediatamente.
No início do acompanhamento, foi identificado um episódio de rejeição mediada por células T. A intercorrência foi tratada e não impediu a continuidade do funcionamento do rim. Também não foi registrada transmissão de patógenos suínos para o receptor durante o período observado.
Para Leonardo Riella, o caso ajuda a avaliar a possibilidade de utilizar o xenotransplante como uma espécie de ponte para o transplante convencional, permitindo que determinados pacientes permaneçam sem diálise enquanto esperam por um órgão compatível.
Após cerca de seis meses, entretanto, surgiram complicações. Houve redução da resposta imunológica associada a uma infecção, além de lesão microvascular e processo inflamatório que contribuíram posteriormente para a falência do órgão.
Ao fim do período de funcionamento do rim suíno, Andrews recebeu um rim de um doador humano falecido.
O resultado não significa que órgãos de porcos já possam substituir rotineiramente os transplantes humanos. A técnica permanece em investigação e depende de estudos que avaliem sua segurança e durabilidade.
A escassez de órgãos disponíveis para transplante é uma das principais razões para o desenvolvimento das pesquisas com xenotransplantes. A utilização de órgãos de animais geneticamente modificados poderá, no futuro, ampliar as alternativas para pacientes que enfrentam longos períodos nas filas de espera.
O caso acompanhado em Boston também supera resultados anteriores obtidos pela própria equipe. Em um procedimento realizado em 2024, um paciente permaneceu 52 dias com um rim suíno, mas morreu posteriormente em decorrência de causas cardíacas não relacionadas ao transplante.
A experiência mais recente fornece novas informações aos pesquisadores sobre o comportamento do órgão transplantado e a resposta do organismo humano ao longo de vários meses.
Apesar dos avanços, o transplante de rim de porco ainda enfrenta obstáculos antes de uma possível aplicação mais ampla. Entre eles estão a rejeição do órgão, o risco de infecções zoonóticas e alterações na resposta do sistema imunológico.
O acompanhamento por períodos prolongados será importante para determinar se a técnica poderá se tornar uma alternativa segura para pacientes que necessitam de transplante renal.
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