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Mãe faz denuncia de irregularidades em creche conveniada da Prefeitura do Recife e Seduc nega

A unidade em questão fica localizada no bairro de Jardim São Paulo e integra o Programa Infância na Creche, desenvolvido pela Prefeitura do Recife para ampliar o atendimento de crianças de 0 a 5 anos na Educação Infantil

Romildo Lacerda

09 de julho de 2026 às 16:14   - Atualizado às 16:15

Camila Soares faz denuncia de creche do Recife

Camila Soares faz denuncia de creche do Recife Foto: Reprodução/Marco Zero Conteúdo

A empreendedora Camila Soares tornou públicas, por meio de suas redes sociais, denúncias sobre supostas irregularidades no Centro de Progressão Nossa Senhora das Graças – Matriz, localizado no bairro de Jardim São Paulo, na Zona Oeste do Recife. A unidade integra o Programa Infância na Creche, desenvolvido em parceria com a Prefeitura do Recife para ampliar o atendimento de crianças de 0 a 5 anos na Educação Infantil.

Segundo a mãe de um menino de três anos matriculado na instituição desde 2025, as dificuldades começaram a surgir ao longo deste ano, quando ela passou a ser chamada com frequência pela equipe da escola. De acordo com Camila, o filho retornava para casa com marcas de mordidas e, a partir dessas ocorrências, a direção passou a atribuir à criança um comportamento considerado agressivo.

"Elas não gostam que ninguém conteste ou tenha opinião contrária. Começaram a falar que meu filho estava com comportamento agressivo, só que, em casa, ele convive com o irmão mais velho, de nove anos, e com as primas. Em nenhum momento ele age dessa forma, batendo e mordendo", afirmou.

A empreendedora relata que buscou esclarecimentos junto à equipe pedagógica, mas diz que nunca recebeu registros ou provas das situações descritas pelas professoras. Em uma das reuniões, segundo ela, foi orientada a procurar um neuropediatra e ouviu a recomendação de que o filho utilizasse Risperidona, medicamento de uso controlado.

"Nós fizemos uma reunião, na presença da psicopedagoga, em que me foi sugerido procurar um neuropediatra porque meu filho era hiperativo e que teria de tomar Risperidona (medicamento antipsicótico de tarja preta). Eu concordei até o momento em que ela recomendou procurar um neuropediatra, mas, quando quis medicar meu filho sem a gente nem ter um laudo, achei um absurdo. Como pode isso?", questionou.

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Posteriormente, a criança foi submetida a avaliação psicológica. O laudo, emitido em 16 de junho, aponta que o menino não apresenta comorbidades. O documento informa que as dificuldades observadas estão relacionadas principalmente ao ambiente escolar e destaca que, apesar da possibilidade de um diagnóstico futuro de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), não existe confirmação da condição. O parecer também recomenda cautela na interpretação de comportamentos como hiperatividade e impulsividade em crianças da faixa etária pré-escolar.

Após apresentar o relatório à direção da unidade, Camila afirma que procurou saber quais medidas seriam adotadas para garantir a permanência do filho na escola.

"Já que ele não tinha nada e eu precisava trabalhar. Não tinha como buscá-lo todos os dias mais cedo porque diziam que ele não estava se comportando. Eu acredito que a escola também tem de ter formas pedagógicas para lidar com algumas situações", disse.

Segundo a empreendedora, durante uma conversa, a gestora teria atribuído o comportamento da criança à falta de limites impostos pela família e sugerido que ela solicitasse a transferência do aluno.

"Em outro momento, começou a gritar comigo, dizendo para eu pegar a transferência dele, mas eu precisava ter outro local para matriculá-lo", relatou.

Depois do episódio, Camila decidiu compartilhar sua experiência nas redes sociais. Um primeiro vídeo, publicado em 26 de junho, foi retirado do ar por decisão judicial por citar nominalmente a psicopedagoga da instituição. Dias depois, um novo relato foi publicado e passou a circular amplamente.

A repercussão, segundo ela, levou outras famílias e funcionários, atuais e antigos, a entrarem em contato para relatar situações semelhantes. Entre os materiais recebidos, estariam fotografias e vídeos mostrando supostas falhas na rotina da creche.

"Comecei a receber fotos e relatos de que meu filho chorava, mas a orientação era deixá-lo chorar porque ele estava com manha. Também recebi foto dele dormindo em um tatame, e eu nem sabia que isso acontecia lá. O que eu ouvia era que as roupas voltavam muito sujas e que as crianças chegavam em casa com muita fome, mas nunca levei isso para o lado de maus-tratos, achava que era uma cisma minha", afirmou.

Ela acrescenta que o volume de relatos reforçou sua preocupação. "Se fosse o relato de uma mãe apenas, tudo bem, mas são várias pessoas", declarou.

Camila informou ainda que registrou denúncia no Conselho Tutelar, que encaminhou o caso ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE).

"Não estou conseguindo comer nem dormir direito. Essa situação tem mexido com o meu psicológico, porque ficam o tempo todo tentando me descredibilizar, dizendo que estou mentindo, sendo que existem fotos do meu filho", desabafou.

Além da denúncia feita por Camila, outras duas mães, que preferiram não se identificar porque seus filhos continuam matriculados na unidade, relataram dificuldades semelhantes. Ambas afirmam que as crianças possuem diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e alegam falta de suporte adequado.

"A escola faz apenas reclamações sobre o comportamento dela, sem apresentar nenhuma alternativa", disse uma das responsáveis.

Segundo ela, a filha também chegava em casa diariamente com fome, embora a instituição informasse que a alimentação havia sido realizada normalmente.

As mães também questionam a constante troca de Auxiliares de Desenvolvimento Infantil (ADIs), o que, segundo elas, compromete o acompanhamento das crianças. Elas afirmam que a unidade só passou a contar com um profissional do Atendimento Educacional Especializado (AEE) após uma reclamação registrada na Ouvidoria da Prefeitura do Recife.

Outro ponto levantado diz respeito à ausência de informações sobre as atividades desenvolvidas com os alunos.

"Não mandam atividades para casa, como acontece em outras creches. Não sabemos qual é o plano pedagógico. Faço diversas cobranças, mas eles nem respondem mais", relataram.

Resposta da Secretaria de Educação e da defesa da creche-escola

Em nota, a Secretaria de Educação do Recife (Seduc) informou que não recebeu manifestação formal antes da divulgação do caso nas redes sociais. A pasta afirmou, porém, que as denúncias apresentadas foram apuradas e que não foram confirmadas.

Ainda de acordo com a secretaria, a unidade permanece sendo acompanhada por equipes técnicas, que realizam monitoramento contínuo para garantir a qualidade do atendimento prestado às crianças.

A Seduc também lembrou que, em 2024, foi instaurado um procedimento administrativo para investigar denúncias relacionadas à estrutura, alimentação, higiene, segurança e educação inclusiva da creche. Conforme a pasta, o Ministério Público de Pernambuco posteriormente requereu o arquivamento do procedimento.

Na decisão, assinada em 16 de junho pelo promotor de Justiça Salomão Abdo Aziz Ismail Filho, consta que, após diligências realizadas, a secretaria comprovou a regularização das falhas estruturais e pedagógicas inicialmente apontadas.

A defesa da gestora da unidade, Jaciara Vieira Gomes de Melo, representada pelo advogado Anatólio Pinheiro, também contestou todas as acusações e informou que medidas judiciais já foram adotadas.

"São acusações sérias e graves, inclusive com imputações de crimes tanto em relação à Jaciara quanto a outras profissionais da creche. Já ingressamos com ações nas esferas criminal e cível contra a pessoa que está divulgando essas mensagens. Houve decisão judicial determinando a retirada das postagens, e alguns processos já estão em andamento", afirmou o advogado.

Ele acrescentou que a gestora e os demais profissionais permanecem à disposição da Justiça, do Ministério Público e do Conselho Tutelar para prestar esclarecimentos. A defesa também negou a veracidade das imagens que mostram crianças dormindo em tatames e rejeitou as acusações relacionadas a supostas contratações irregulares de profissionais da instituição.
 

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