O jovem de 24 anos registrou boletim de ocorrência após publicação em foto de formatura; Polícia Civil iniciou investigação.
07 de setembro de 2026 às 11:24 - Atualizado às 11:49
João Lucas Brito, de 24 anos. Foto: Reprodução/Redes sociais
A Polícia Civil de Pernambuco (PCPE) investiga uma denúncia apresentada pelo estudante de medicina e doutorando João Lucas Brito, de 24 anos, após comentários considerados racistas, elitistas e xenofóbicos serem publicados em uma foto dele no Instagram.
O boletim de ocorrência foi registrado na sexta-feira, 4 de setembro, por meio da Delegacia pela Internet. Segundo a corporação, o caso foi inicialmente classificado como injúria praticada em ambiente virtual, e as diligências para esclarecer os fatos já foram iniciadas.
João Lucas informou que pretende encaminhar o caso também ao Ministério Público de Pernambuco. O estudante preservou publicamente a identidade do autor das mensagens, mas afirmou ter reunido os dados necessários para a investigação.
O episódio aconteceu após João Lucas compartilhar imagens do ensaio de conclusão do curso de medicina. Em uma das fotos, o universitário aparece usando um jaleco com o próprio nome bordado, óculos de lentes espelhadas e segurando o livro “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais MC’s.
A publicação recebeu o seguinte comentário:
“Saudades de quando favelado não entrava em medicina... Bons tempos”.
Segundo o relato do estudante, a mensagem foi escrita por um médico de Brasília que não o conhecia nem acompanhava seu perfil. Durante uma discussão com pessoas que defenderam João Lucas, o autor teria se identificado como médico e divulgado o número de registro profissional.
Outras mensagens também teriam questionado a credibilidade das instituições de ensino superior do Nordeste. Por esse motivo, João Lucas afirmou entender que o episódio reúne elementos de racismo, elitismo e xenofobia.
Os comentários foram posteriormente excluídos da rede social. O universitário, no entanto, guardou capturas de tela que deverão ser utilizadas na investigação. A reportagem consultada não apresentou um posicionamento do médico acusado.
João Lucas nasceu e cresceu na Comunidade do Cardoso, localizada no bairro da Madalena, na Zona Oeste do Recife. Segundo ele, os objetos escolhidos para as fotografias representam referências culturais presentes em sua trajetória.
O estudante contou que cresceu ouvindo as músicas dos Racionais MC’s na comunidade. Por isso, decidiu incluir no ensaio o livro baseado no álbum lançado pelo grupo de rap em 1997.
Ao responder publicamente ao comentário, João Lucas afirmou que não considera a palavra “favelado” uma ofensa. Para o universitário, o termo faz parte de sua origem e identidade.
Ele também questionou:
“Por que um médico favelado incomoda tanto?”.
Bolsista integral do Programa Universidade para Todos (ProUni), João Lucas cursa o 11º período de medicina em uma instituição particular. Ele deverá ser o primeiro médico da família.
Aos 23 anos, o recifense foi aprovado em um doutorado de Saúde Integral no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip). A formação ocorre por meio de um programa MD-PhD regulamentado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
O modelo permite que ele desenvolva a pesquisa de doutorado ao mesmo tempo em que conclui a graduação. O estudo aborda as disparidades étnico-raciais entre os nascidos vivos no Brasil.
O cronograma acadêmico prevê um intercâmbio no Canadá em 2027 para o desenvolvimento da tese. A pesquisa deve ser concluída em 2028.
Ao divulgar o caso, João Lucas ressaltou que suas conquistas não deveriam ser usadas para justificar o direito de ocupar uma vaga na universidade. Para ele, qualquer pessoa merece respeito independentemente do currículo, da origem social ou do lugar onde nasceu.
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