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Recife expõe desigualdade racial e sanitária: negros e pobres vivem em áreas de risco; diz estudo

Cerca de 190 mil pessoas vivem em áreas de risco geológico no Recife, muitas delas empurradas para esses locais devido à crise habitacional.

Portal de Prefeitura

08 de dezembro de 2025 às 15:56   - Atualizado às 16:06

Comunidade Caranguejo Tabaiares em Recife

Comunidade Caranguejo Tabaiares em Recife Foto: Reprodução Rede Social.

Um estudo inédito do Instituto Pólis, baseado nos dados do Censo 2022, mostra que a população mais pobre e negra do Recife sofre de forma desproporcional com riscos climáticos e falta de infraestrutura. O levantamento evidencia como o racismo ambiental e a segregação socioterritorial ampliam vulnerabilidades em áreas de risco geológico e sanitário na capital pernambucana.

Áreas de risco e crise habitacional

Segundo o estudo, cerca de 190 mil pessoas vivem em áreas de risco geológico no Recife, muitas delas empurradas para esses locais devido à crise habitacional. A precariedade da infraestrutura nessas regiões potencializa os impactos de chuvas e enchentes, que atingem de maneira desigual a população da cidade.

O relatório mostra que a renda média dos responsáveis por domicílios nessas áreas é de apenas 1,8 salário mínimo, menos da metade da média em regiões sem risco. Além disso, a população negra está concentrada nessas áreas: enquanto representam 60,4% da população total do Recife, nos bairros mais vulneráveis essa proporção sobe para 73,8%.

Infraestrutura precária e saneamento básico

O estudo evidencia um abismo na infraestrutura urbana. O acesso à rede de esgoto é um dos exemplos mais claros: enquanto bairros ricos,  predominantemente brancos,  têm cobertura de quase 90%, nas favelas apenas 39% dos domicílios têm acesso à rede. A média municipal é de 60,3%.

Outros serviços essenciais também são desiguais. A coleta de lixo, que atinge 94,6% da cidade, cai para 90,7% nas favelas. Já a presença de calçadas adequadas é de 72,9% no município, mas apenas 44,2% nas áreas mais pobres. Esses números demonstram que a população negra e empobrecida enfrenta uma infraestrutura insuficiente para garantir condições mínimas de saúde e mobilidade.

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Impacto na saúde pública

A desigualdade se reflete diretamente na saúde da população. Pessoas negras apresentam taxas de internação por doenças de veiculação hídrica 4,5 vezes maiores do que pessoas brancas, chegando a 53,4 por 100 mil habitantes, contra 11,8 por 100 mil. Em relação a arboviroses, como a dengue, a diferença é de quatro vezes: 14,9 internações a cada 100 mil habitantes para negros, e 3,8 para brancos.

Um dado alarmante é que 93,3% das hospitalizações por arboviroses em 2024 envolveram crianças e jovens de até 29 anos, faixa que representa apenas 39% da população, mostrando como os mais jovens são desproporcionalmente afetados.

Desigualdade de gênero

Mulheres chefes de família também sofrem impactos mais severos. A taxa de analfabetismo entre mulheres nesse grupo é de 13,5% nas favelas, bem acima da média municipal de 7,8%. A falta de serviços básicos e oportunidades agrava a vulnerabilidade feminina em situações de risco.

“O direito à moradia precisa estar no centro do debate climático. Sem moradia digna, a população mais vulnerabilizada segue sendo empurrada para áreas de risco”, alerta Raquel Ludermir, urbanista e doutora em desenvolvimento urbano. O estudo do Instituto Pólis deixa claro que a crise habitacional e a desigualdade racial no Recife não são apenas sociais, mas também ambientais e sanitárias, exigindo políticas públicas integradas e urgentes.

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