João Campos no carnaval do Recife e moradores da comunidade de Cachoeira Foto: Reprodução/Montagem
O debate sobre investimentos públicos raramente é simples, mas algumas decisões escancaram contradições difíceis de justificar. Em Recife, a destinação de cerca de R$ 19 milhões para o Carnaval, ao mesmo tempo em que famílias desapropriadas recebem indenizações de aproximadamente R$ 14 mil, levanta um questionamento inevitável: quais são, de fato, as prioridades da gestão municipal?
Não se trata de atacar o Carnaval ou negar sua importância cultural, histórica e econômica. A festa é um dos maiores símbolos do Recife, movimenta o turismo, projeta a cidade nacionalmente e faz parte da identidade do povo. O problema surge quando esse investimento ocorre no mesmo contexto em que pessoas estão perdendo suas casas por obras públicas e recebendo valores que não garantem sequer o mínimo para reconstruir a própria vida.
Famílias inteiras estão sendo desapropriadas para a construção de uma ponte. São pessoas que moravam há anos — muitas vezes décadas — no mesmo local. Casas que representam não apenas um bem material, mas história, pertencimento e segurança. Indenizá-las com valores tão baixos significa empurrá-las para a informalidade, para áreas de risco ou para a dependência de favores e aluguel social insuficiente.
A discrepância se torna ainda mais evidente quando se observa que, no mesmo período, a prefeitura decidiu mais que dobrar os gastos com o Carnaval. São milhões destinados a uma festa que dura três ou quatro dias, enquanto o impacto da desapropriação será permanente na vida dessas famílias.
Costuma-se argumentar que o Carnaval gera empregos e renda. É verdade, mas essa afirmação precisa ser contextualizada. Grande parte dos recursos investidos acaba concentrada em artistas, grandes produtores e estruturas privadas, com cachês que chegam a centenas de milhares ou até milhões de reais. Já os empregos gerados na ponta, ambulantes, vendedores informais, trabalhadores temporários são precários, sem garantia de continuidade e restritos a poucos dias.
Ou seja, o retorno social desse investimento é limitado e concentrado, enquanto o custo humano da desapropriação mal indenizada é profundo e duradouro.
Outro ponto central dessa discussão é a desigualdade de forças. O Estado é forte, possui estrutura jurídica, técnica e política. Do outro lado estão pessoas simples, muitas vezes sem acesso à informação, sem conhecimento da legislação e sem condições de questionar judicialmente valores injustos. Elas acabam aceitando não porque concordam, mas porque não veem alternativa.
Esse cenário não é exclusivo do Recife. Ele se repete em diversas cidades brasileiras, onde obras públicas avançam sobre comunidades vulneráveis e o poder público falha em garantir o direito constitucional à moradia digna. O que chama atenção, neste caso específico, é a escolha clara por priorizar o supérfluo em detrimento do essencial.
Não se trata de escolher entre Carnaval ou responsabilidade social. A questão é equilíbrio e prioridade. É perfeitamente possível investir em cultura, turismo e eventos populares sem negligenciar direitos básicos. O problema surge quando o orçamento revela que há dinheiro para festas milionárias, mas não para assegurar dignidade a quem perde tudo.
No fim das contas, a discussão vai além de números. Ela toca em valores. Uma cidade que investe milhões em entretenimento enquanto indeniza seus cidadãos mais vulneráveis com quantias irrisórias precisa, urgentemente, repensar para quem governa e quais vidas considera prioridade.
Porque festas passam.
Mas a perda da casa, da segurança e da dignidade deixa marcas que duram uma vida inteira.
Artigo recebido de Leitor do Portal de Prefeitura
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