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Artigo: Deus existe? William Lane Craig responde! – Por Jason Medeiros

Você já se perguntou se Deus existe? Veja o argumento de um dos mais importantes filósofos contemporâneos.

02 de agosto de 2022 às 15:56

Retomando a nossa série Deus existe? hoje apresentarei o argumento em favor da existência de Deus, tal como desenvolvido pelo filósofo cristão William Lane Craig (1949-) em seu trabalho O Argumento Consmológico Kalam (1979). Também serão apresentadas algumas objeções ao argumento, bem como respostas às objeções em geral. QUE É UM ARGUMENTO COSMOLÓGICO? O filósofo prussiano Immanuel Kant (1724-1804) é o autor da expressão “prova cosmológica”, que assim a define na sua Crítica da Razão Pura (1781):

Formula-se assim: se algo existe deve existir também um ser absolutamente necessário. Ora, pelo menos, existo eu próprio; logo, existe um ser absolutamente necessário. A premissa menor contém uma experiência e a maior infere de uma experiência em geral a existência do necessário. A prova parte, pois, da experiência; não é, por conseguinte, conduzida totalmente a priori ou ontologicamente; e, porque o objeto de toda a experiência possível se chama mundo, denomina-se prova cosmológica.

Ou seja, os argumentos ou “provas” cosmológicas são aquelas que visam provar a existência de Deus, partindo da experiência do mundo (cosmos) e não do homem (moral; antropológica; etc.) ou da ideia de Deus (ontológica). O professor Battista Mondin (1926-2015) em Quem é Deus? Elementos de Teologia Filosófica (1990) ressalta que os argumentos não são mecanismos lógicos que fazem Deus vir à existência, mas são tentativas de comprovar racionalmente aquilo que já foi alcançado pela experiência religiosa. SIGNIFICADO DO TERMO KALAM Kalam, por sua vez, é uma abreviação do termo árabe ʿIlm al-Kalām, que significa literalmente “ciência do discurso”, também querendo significar “teologia escolástica islâmica”, e estudo da doutrina islâmica ('aqa'id), tendo surgido da necessidade de se defender os princípios da fé islâmica contra os céticos. Um estudioso do kalam é conhecido como mutakallim e é distinto de filósofo, jurista, cientista, artista, etc. UM POUCO DA HISTÓRIA O argumento cosmológico kalam nasce com a tentativa dos filósofos cristãos, como João Filopono (490-570), de refutar a doutrina aristotélica da eternidade do universo desenvolvida em alguns dos seus tratados (Do Céu; Física), tendo sido retrabalhada na Idade Média tanto por judeus, como Saadia Gaon (892-943) e cristãos, como São Boaventura (1221-1274), mas, principalmente, por teólogos islâmicos, como, por exemplo, Al-Kindi (801-873) e Al-Ghazali (1058-1111). Vejamos o argumento como exposto por Al-Ghazali na sua obra A Incoerência dos Filósofos:

  1. Todo ente que tem um começo tem uma causa;
  2. O mundo é um ente que teve começo;
  3. Logo, ele possui uma causa para ter começado a existir.

O filósofo islâmico defendeu que é impossível que o universo seja eterno, pois isso representaria uma quantidade infinita de eventos no passado e que teriam o seu fim no momento presente, porém, se ele fosse infinito de fato, o presente jamais chegaria, o que não é o caso pois estamos aqui e agora. Al-Ghazali também irá sustentar que se tudo o que começa a existir se dá em determinado momento do tempo, então antes da existência todos os momentos são necessariamente iguais, logo, deve haver algo que causa a existência naquele exato momento, nem antes, nem depois. Diz ainda que se o univero fosse eterno, essa condição levaria a infinitos de tamanhos diversos, por exemplo, cada planeta ao completar o percurso da sua órbita o faz em tempos distintos uns dos outros, o que é absurdo tendo em visto a eternidade do universo, ou ainda, poderíamos indagar se o número de órbitas completadas por um determinado planeta seria par ou impar, porém, é abusrdo que o infinito seja uma coisa ou outra. Logo, Al-Ghazali conclui que o mundo teve um início e que foi causado por Deus, o Eterno, pois só ele possuia as propriedades necessárias para criar algo assim. Portanto, o que distingue o kalam de outros argumentos cosmológicos como os de Sto. Tomás de Aquino (1225-1274), G. W. Leibniz (1646-1716) e Samuel Clarke (1675-1729), é a impossibilidade de um infinito atual. A VERSÃO DE CRAIG Na sua obra Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano (1765) o filósofo alemão Leibniz afirma que “quase todos os meios empregados para provar a existência de Deus são bons e têm sua utilidade, contanto que sejam aperfeiçoados”. Em O Argumento Cosmológico Kalam (1979), o filósofo cristão William Lane Craig, concordando com Leibniz, e ciente dos avanços científicos realizados no século XX, reapresenta o argumento de modo idêntico ao proposto por Al-Ghazali:

  1. Tudo o que começa a existir tem uma causa;
  2. O universo começou a existir;
  3. Portanto, o universo tem uma causa.

Para Craig a nossa experiência confirma a primeira premissa constantemente, nunca vemos nada surgindo do nada. A segunda premissa tem sido confirmada pelas descobertas cientíticas, e a aceitação da eternidade do universo leva a absurdos. E a terceira premissa é a consequência lógica das duas primerias. Logo, deduz-se das premissas que a causa do universo seja Deus, em função das propriedades que uma causa como essa tem de ter. A novidade trazida por Craig ao argumento cosmológico kalam, se comparado à versão de Al-Ghazali, é o rigor da filosofia analítica somado às decobertas da ciência física contemporânea. ALGUMAS OBJEÇÕES Segundo os professores Hugh Campbell e Michael Wilkinson em Uma Introdução à Filosofia da Religião (2010) o argumento de Craig pode ser atacado de variadas formas, vejamos algumas delas: a) A primeira premissa não é autoevidente, nem verdadeira, pois mesmo que todas as coisas que conhecemos e que começam a existir tenham uma causa, isso não implica que todas tenham uma causa efetivamente, esse é o velho problema da indução apontado por Karl Popper (1902-1994) em A Lógica da Pesquisa Científica (1934). E a física contemporânea tem sugerido que existem eventos sem causa no nível das micropatículas; b) A segunda premissa é uma hipótese baseada na teoria do Big Bang, e não é fato que seja conhecida. Outro ponto é que um universo infinito não é autocontráditório, pois autocontradição é uma noção lógica, como, por exemplo, um “círculo-quadrado”, e esse não é o caso do universo infinito, pois ele não é logicamente impossível, logo não há uma necessidade lógica de uma causa primeira; c) A terceira premissa está passível às objeções desenvolvidas por David Hume (1711-1776) contra a causação, apresentadas nas suas Investigações Sobre o Entendimento Humano (1748), por exemplo, mesmo considerando que o universo tenha uma causa, não é legítimo identificá-la como sendo Deus. Mesmo que tenha havido uma causa, isso não implica que ela ainda exista atualmente. E a causa que está sendo inferida não é biológica, nem física, mas uma muito distinta de tudo que somos capazes de experimetar RESPOSTAS ÀS IMPUGNAÇÕES EM GERAL Às objeções levantadas contra a primeira premissa, Craig responderá que os fenômenos subatômicos só são supostamente desporvidos de explicação na interpretação da física quântica de Copenhague. Outros, aqueles que seguem a interpretação de Bohm, explicam os mesmos fenômenos dentro de um quadro determinista. Porém, mesmo se confirmando que certos fenômenos quânticos são indeterminados (ou seja, sem razão suficiente para que uma partícula atue da forma que atua em certas circustâncias), isso não implica que possam vir a ser do nada. Os físicos, em geral, constusmam responder que, na melhor das hipóteses, as partículas subatômicas começam a existir como flutuações das energias contidas no vácuo subatômico. Craig também ressalta a radicalidade metafísica do seu argumento, de que nada pode começar a existir do nada absoluto, pois, como já alertava o filósofo pré-socrático Parmênides no seu poema Da Natureza: “não poderás conhecer o não-ser, não é possível, nem indicá-lo”. Já com relação a segunda premissa, Craig apresenta argumentos filosóficos dedutivos e argumentos científicos indutivos. Inicialmente o teólogo irá defender que é impossível um número infinito de coisas reais, efetivas, porque isso levaria a uma série de absurdos, e se o passado não tem um início, então é infinito, logo, haveria um número infinito de eventos reais no passado. Um dos exemplos que Craig utiliza para ilustrar a absurdidade de infinidade de coisas reais é o famoso Paradoxo do Hotel Hilbert. Esse paradoxo nos coloca a seguinte situação, pensemos num hotel com infinitos quartos, onde todos eles estão ocupados. Porém, chega um novo hóspede. Como a administração do hotel poderia alocá-lo? Simples, ela poderia remanejar todos os hóespedes para o quarto seguinte de modo que o primeiro ficasse vago e acomodasse o novo hóspede, só que isso é absurdo, pois todos os quartos estavam ocupados. O objetivo de Craig com esse e outros exemplos é confirmar o absurdo de infinitos reais e não potenciais. Mas, como já dissemos, ele não se limita aos argumentos filósoficos e parte para os argumentos científicos. O primeiro argumento científico é o da expansão do universo. Os astrônomos descobriram que o universo está se expandido, logo, deve haver um ponto inicial onde tudo começou a se expandir, esse ponto é conhecido como singularidade. A interpretação mais comum é de que esse evento, também conhecido como Big Bang, deu início ao espaço, tempo, matéria e energia, ou seja, o universo como o entendemos. O segundo argumento científico são as propriedades termodinâmicas do universo. Os cientistas tem atestado que o universo está ficando sem energia utilizável. Como o universo é tido como um sistema fechado, ele sempre perderá energia, tendendo a um estado de equilíbrio, isso de acordo com a Segunda Lei da Termodinâmica. As velas se apagam, os carros ficam sem gasolina, os relôgios param, isso é conhecido como entropia. Ainda segundo os cientistas existe atualmente uma quantidade finita de energia utilizável no universo, e ele não está em equilíbrio, tentendo a se tornar, num futuro distante, um lugar frio, sem vida e estático. Ciente disso, o filósofo afirma que se o universo fosse infinitamente antigo ele já teria ficado sem energia utilizável, alcançando o estado de equilíbrio, um argumento que é acompanhado por muitos especialistas no assunto. De acordo com muitos cientistas como, por exemplo, o físico Stephen Hawking (1942-2018) na sua obra Uma Breve História do Tempo (1988), o começo do universo marca também o início do tempo e, nesse caso, não há qualquer momento antes do tempo que pudesse ter causado  o universo, além de quê uma causa infinito representaria uma exceção a impossibilidade de infinitos reais. A isso Craig responde que a primeira causa está “fora” do tempo, que ela é infinita no sentido qualitativo e não quantititativo ou matemático, e que é uma causa de tipo simultâneo, ou seja, devemos “afirmar que a causa da origem do universo é causalmente anterior ao Big Bang, embora não lhe seja temporalmente anterior”. Após todo o esforço argumentativo para demonstrar que tudo o que começa a existir tem uma causa; que o universo começou a existir; logo, o universo tem uma causa, Craig julga ter tido sucesso e infere, à luz dessas evidências, que a causa do universo tem, dentre outras, as seguintes propriedades:

  • Inespacial e atemporal, pois transcende espaço-tempo;
  • Imutável e imaterial, uma vez que a ausência de tempo acarreta ausência de mudança, e ausência de mudança implica imaterialidade;
  • Não pode ter sido causado, pois não tem começo;
  • Incrivelmente poderoso, pois criou o universo sem qualquer causa material.

Ou seja, essa causa é, assim como dizia Sto. Tomás de Aquino, o que todos têm em mente quando dizem Deus. “Logo, é necessário admitir uma causa eficiente primeira, à qual todos dão o nome de Deus” – Sto. Tomás de Aquino, Suma Teológica (1485). Jason Medeiros Formado em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco; Bacharelando em Filosofia pela UFPE; Aspirante a Oficial da Reserva do Exército Brasileiro pelo CPOR/R; Jornalista com coluna no Portal de Prefeitura; Entusiasta da Política e Editor-chefe do perfil @ocontribuinteoriginal no Instagram. Leia também: >>>Artigo: Razão, revolução e resolução

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