No palco, o ator relembrou o período em que, aos 15 anos, deixou o interior de Minas Gerais para trabalhar no Mercado Municipal de São Paulo.
06 de maio de 2026 às 14:55 - Atualizado às 15:02
Ator Lima Duarte. Foto: Reprodução/Instagram/@limaduarte
O ator Lima Duarte, de 96 anos, tornou-se o centro de uma controvérsia sobre racismo após discurso de agradecimento no Prêmio APCA, na última segunda-feira, 4 de maio. Ao resgatar memórias da adolescência, o artista lembrou um episódio em que teria se recusado a frequentar um ambiente devido à cor da pele das mulheres que ali trabalhavam.
No palco, Duarte relembrou o período em que, aos 15 anos, deixou o interior de Minas Gerais para trabalhar no Mercado Municipal de São Paulo. Ao tentar ilustrar a dureza daquela época, contou sobre um convite feito por um amigo para visitar uma zona de prostituição no bairro do Bom Retiro.
“Um moleque chegou para mim e falou: ‘Vamos na zona?’. Eu falei: ‘Vamos na [Rua] Itaboca’. Ele falou: ‘Só tem preta’. Eu não fui. Moleque de rua, dormi embaixo do caminhão, não fui porque só tinha preta. Que vida, hein? Que coisa eu fui percebendo ao longo dessa vida. Então, fomos na [Rua] Aimorés”, relembrou o ator.
Na mesma noite, as artistas Shirley Cruz, Grace Passô e Carmen Luz, também homenageadas, utilizaram seus discursos para contestar as palavras do veterano. Carmen Luz enfatizou que as mulheres não estão no mundo para serem recusadas. “As mulheres pretas não estão no mundo para serem recusadas. Levantai-vos”, conta.
A repercussão nas redes sociais acompanhou o desconforto de parte do público presente, com críticas apontando que a “anedota” carrega o peso da desumanização dos corpos negros, mesmo sob a justificativa de ser uma memória de juventude. Diante da escalada das críticas, o ator publicou um pronunciamento oficial no dia seguinte.
Na nota, ele busca contextualizar a fala, afirmando que o objetivo era retratar um “Brasil muito duro” e que a intenção era oferecer um “olhar de quem respeita e entende uma luta que é de todos”.
A declaração gerou respostas de outras personalidades durante a premiação. Carmen Luz voltou a criticar o teor da fala e reforçou a defesa das mulheres negras: “não estão no mundo para serem recusadas”.
Em outro momento, disse: “Mulheres pretas, levantai-vos, levantai-vos, celebramos as nossas presenças”. A artista foi aplaudida ao final da fala.
Além dela, Shirley Cruz e Grace Passô destacaram a importância do reconhecimento e da valorização dessas mulheres na cultura brasileira.
“Sou uma mulher de pensamento próspero, de atitudes prósperas. Sou a prosperidade das minhas ancestrais. Prosperidade é um direito nosso. Vejam só, de rejeitados a premiados”, exclamou Shirley Cruz.
Já Grace declarou: “Essa artista, que lembrou que nós mulheres negras não nascemos para ser negadas”.
Com a repercussão negativa, Lima Duarte decidiu se manifestar por meio de nota enviada ao jornal Folha de S.Paulo. No texto, afirmou que se tratava de uma memória de sua “infância”, de “um Brasil muito duro, de um menino sem formação, vivendo na rua”.
“Aquela fala nasceu como retrato de um tempo e também como forma de protesto, do olhar de quem respeita e entende uma luta que é de todos”, disse trecho da nota.
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