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A evolução dos motores flex a diesel e etanol e os rumos da implementação no mercado comercial

Avanço técnico viabiliza uso simultâneo de combustíveis por meio do sistema dual-fuel, mas complexidade mecânica impõe desafios para o segmento de pesados e leves.

Beto Dantas

21 de maio de 2026 às 13:18   - Atualizado às 13:18

Primeiro motor movido a etanol e diesel da história feito pela Bosh.

Primeiro motor movido a etanol e diesel da história feito pela Bosh. Foto: Divulgação

A busca por soluções viáveis para a descarbonização da matriz de transportes continua impulsionando o desenvolvimento de novos arranjos de propulsão. Entre as iniciativas que ganharam força nos laboratórios de engenharia automotiva, a tecnologia capaz de integrar a utilização de óleo diesel e etanol em um mesmo propulsor desponta como uma das alternativas mais promissoras. Diferente dos sistemas tradicionais aplicados em veículos leves do tipo ciclo Otto, que alternam entre combustíveis de maneira homogênea, a engenharia focada em motores pesados de ignição por compressão caminha para a consolidação de sistemas bicombustíveis atuando de forma simultânea.

Funcionamento mecânico e o desafio da injeção independente

De acordo com o engenheiro Erwin Franieck, responsável por liderar pesquisas na área de matrizes energéticas, a viabilidade técnica de introduzir o combustível vegetal no ciclo de funcionamento do óleo diesel esbarra nas propriedades físico-químicas divergentes de cada elemento. O etanol apresenta baixa inflamabilidade, elevado calor de vaporização e um número de cetano substancialmente inferior ao do combustível fóssil, fatores que impedem sua combustão espontânea apenas por compressão elevada. A solução adotada para superar essa barreira foi o desenvolvimento do sistema conhecido como dual-fuel.

Nessa arquitetura mecânica detalhada pelo especialista, os dois fluidos não são misturados em um único reservatório. O motor exige, obrigatoriamente, linhas de combustível completamente separadas, tanques individuais e sistemas de injeção eletrônica independentes. Durante o funcionamento, uma quantidade reduzida de óleo diesel é injetada diretamente na câmara de combustão, servindo como uma espécie de "vela líquida", expressão cunhada por Franieck para definir o piloto que inicia o processo de queima. Em paralelo, o etanol é introduzido no coletor de admissão ou por meio de um bico injetor secundário. Ao entrar em contato com a frente de chama gerada pelo diesel, o combustível vegetal entra em combustão completa, permitindo taxas de substituição que variam entre 35% e 70% a depender do regime de rotação e carga exigidos pelo operador.

Segmentos de aplicação e o foco nos comerciais leves

A destinação comercial primária dessa tecnologia envolve nichos onde o consumo de combustível fóssil é severo e a eletrificação total ainda enfrenta barreiras severas de autonomia, infraestrutura e custos. Caminhões leves, frotas de distribuição urbana e vans comerciais configuram-se como os principais objetivos práticos desse processo de implementação no curto e médio prazo. Esses veículos operam em trechos urbanos previsíveis, o que facilita o estabelecimento de postos de reabastecimento dedicados e mitiga a complexidade logística inicial de depender de dois insumos distintos simultaneamente.

Em patamares de potência superiores, a tecnologia também avança a passos largos em grandes projetos industriais, como o setor de mineração e o agronegócio de cana-de-açúcar. Testes práticos de campo estruturados por grandes fabricantes globais de motores buscam validar o uso dessa tecnologia em caminhões fora de estrada de grande porte e maquinários agrícolas de alta potência. A justificativa econômica nesses cenários apoia-se na autossuficiência de usinas que produzem o próprio etanol, criando um ciclo fechado de abastecimento com forte apelo de sustentabilidade e redução drástica no custo operacional por hora trabalhada.

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Viabilidade econômica frente à complexidade estrutural

O grande questionamento que recai sobre o avanço definitivo dessa tecnologia para o varejo automotivo tradicional reside na complexidade estrutural exigida pelo sistema. Adicionar um segundo circuito completo de alimentação de combustível agrega custos expressivos de manufatura e desenvolvimento. O veículo passa a necessitar de um bico injetor extra por cilindro, tubulações resistentes à corrosão característica do etanol, sensores dedicados de leitura de gases e uma unidade de controle eletrônico de altíssima velocidade para gerenciar o mapa de queima dinâmica em tempo real.

Apesar do incremento no preço final do produto ou nos kits de conversão do tipo retrofit, o cenário aponta para uma viabilidade positiva em frotas comerciais que rodam altas quilometragens diárias. O retorno financeiro do investimento é balizado pela diferença de preço entre o litro do óleo diesel e do etanol, além de blindar as empresas de logística contra as flutuações e tensões de mercado associadas ao petróleo. Com a regulamentação governamental apertando os limites de emissão para os próximos anos, o arranjo dual-fuel ganha força como um caminho de transição ágil, utilizando a infraestrutura de distribuição de biocombustíveis já consolidada no país sem exigir a troca imediata de frotas inteiras por matrizes elétricas.

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