Segundo a investigação, documentos de movimentações financeiras registravam números de pessoas que morreram há mais de 20 anos.
14 de agosto de 2026 às 11:34 - Atualizado às 11:40
Fachada da sede da PixBet em Campina Grande, Agreste da Paraíba. Foto: Geraldo JerônimoTV Paraíba
A Polícia Federal identificou o uso de 549 CPFs de pessoas mortas em documentos relacionados a operações financeiras ligadas à Pixbet, empresa alvo da Operação Arena, deflagrada na quinta-feira, 13 de agosto. A investigação apura um suposto esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas envolvendo apostas esportivas e jogos de azar.
Segundo informações apresentadas pela PF à Justiça Federal, os números de CPF de pessoas já falecidas apareciam em documentos relacionados à movimentação financeira que teria como destino um paraíso fiscal. Alguns dos titulares dos documentos teriam morrido há mais de 20 anos.
A investigação aponta que os registros foram utilizados em operações de câmbio e teriam atribuído a terceiros uma falsa identidade para a realização de transações financeiras. Para os investigadores, a prática teria relação com a suspeita de evasão de divisas.
De acordo com a representação encaminhada pela Polícia Federal à Justiça, o sistema que autoriza a compra de moeda estrangeira identificou inconsistências e emitiu um alerta ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Mesmo após a identificação das irregularidades, os números de CPF teriam continuado sendo utilizados nas transações. Segundo a PF, os nomes associados aos documentos chegaram a ser modificados depois do alerta, mas os CPFs permaneceram registrados nas operações.
A investigação ainda não esclareceu como os registros das pessoas mortas foram obtidos ou utilizados. No entanto, os investigadores apontam indícios de que a empresa não teria sido apenas vítima de uma eventual fraude documental, mas poderia ter participado ativamente das operações investigadas.
A Polícia Federal também afirma que o uso dos CPFs teria servido para atribuir a terceiros já falecidos uma identidade falsa em operações de câmbio não autorizadas. A prática, segundo a investigação, teria como finalidade viabilizar a saída irregular de recursos do país.
A defesa da Pixbet informou que não teve acesso à decisão judicial que autorizou a operação e afirmou ter sido pega de surpresa com a ação. Segundo os representantes da empresa, uma manifestação será apresentada depois que a defesa tiver acesso ao conteúdo da decisão.
A Operação Arena foi realizada pela Polícia Federal, pelo Ministério Público da Paraíba (MPPB) e pela Receita Federal. A ação investiga um grupo empresarial suspeito de utilizar estruturas societárias e financeiras no Brasil e no exterior para ocultar a origem e o destino de recursos obtidos com apostas esportivas e jogos de azar.
Entre os alvos da operação está o advogado Nelson Wilians, que foi alvo de buscas em sua residência em São Paulo. Segundo a investigação, ele teria relação profissional com o grupo ligado à Pixbet.
A defesa de Wilians afirmou, por meio de nota, que a relação entre o escritório do advogado e a Pixbet é exclusivamente profissional e decorrente da prestação de serviços jurídicos.
O proprietário da Pixbet, Ernildo Júnior, também foi abordado por agentes da Polícia Federal em Campina Grande, na Paraíba. Um carro e um celular foram apreendidos durante o cumprimento das medidas determinadas pela Justiça.
Ainda segundo a investigação, os recursos provenientes das apostas seriam enviados para o exterior por meio de empresas de compensação financeira. Parte dos valores teria como destino uma empresa registrada em Curaçao, apontada pela PF como uma empresa de fachada, sem funcionários ou atividade econômica compatível com as movimentações identificadas.
Depois, os valores retornariam ao Brasil acompanhados de documentos que indicariam a prestação de serviços no exterior. Para os investigadores, a utilização dessas estruturas poderia dar aparência legal aos recursos e dificultar a identificação da origem e do destino do dinheiro.
Além da investigação criminal, o Ministério da Fazenda determinou a suspensão imediata das operações da Pixbet, com cancelamento das apostas em andamento e devolução dos valores apostados aos usuários.
Os investigados podem responder por crimes como evasão de divisas e lavagem de dinheiro, além de outros delitos relacionados ao sistema financeiro nacional. As investigações continuam para esclarecer a participação de cada envolvido e a origem dos recursos movimentados.
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