Imagem que eternizou a cena foi pintada 66 anos depois e não deve ser interpretada como um registro literal do episódio.
07 de setembro de 2026 às 09:40 - Atualizado às 09:45
"Independência ou Morte" do artista brasileiro Pedro Américo. Foto: Reprodução
A Independência do Brasil, celebrada em 7 de setembro, não aconteceu apenas no momento em que Dom Pedro rompeu politicamente com Portugal às margens do Riacho do Ipiranga. A separação foi resultado de mudanças iniciadas anos antes e ainda provocou conflitos armados em diferentes províncias até 1823.
O episódio de 1822 tornou-se o principal símbolo do nascimento do país independente. A cena conhecida pelos brasileiros, porém, foi construída posteriormente e ganhou força por meio de pinturas, livros escolares, monumentos e cerimônias públicas.
A representação mais famosa é a pintura “Independência ou Morte!”, produzida por Pedro Américo em 1888, 66 anos depois do acontecimento. A obra mostra Dom Pedro montado em um cavalo e cercado por soldados em trajes de gala.
O quadro foi concebido para exaltar a criação da nação e não funciona como uma fotografia do episódio. Historiadores apontam que a viagem até São Paulo ocorreu por caminhos precários e que o príncipe provavelmente utilizava uma mula, animal mais adequado ao percurso.
A frase “Independência ou Morte!” também ficou tradicionalmente associada ao ato realizado em 7 de setembro, embora a cena tenha sido transformada ao longo do tempo em uma narrativa heroica.
Um dos principais antecedentes ocorreu em 1807, quando a ameaça de invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão Bonaparte levou a família real e a administração portuguesa a deixarem a Europa.
A Corte chegou ao Brasil em 1808. A instalação do governo no Rio de Janeiro transferiu para a antiga colônia instituições administrativas e provocou mudanças políticas, econômicas e culturais.
Em 1815, o Brasil deixou formalmente a condição de colônia e passou a fazer parte do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. A medida elevou sua posição dentro do Império Português.
Depois do fim das guerras napoleônicas e da Revolução Liberal do Porto, iniciada em 1820, as Cortes portuguesas passaram a exigir o retorno do rei e a redução da autonomia brasileira. Dom João VI voltou a Portugal em 1821 e deixou seu filho Dom Pedro como príncipe regente.
Pressionado a retornar a Portugal, Dom Pedro anunciou em 9 de janeiro de 1822 que permaneceria no Brasil. O episódio ficou conhecido como Dia do Fico e fortaleceu o grupo que defendia maior autonomia política.
José Bonifácio de Andrada e Silva tornou-se um dos principais articuladores do rompimento. Maria Leopoldina também exerceu papel decisivo enquanto Dom Pedro viajava para São Paulo.
Em 2 de setembro, Leopoldina presidiu uma reunião do Conselho de Estado que recomendou a separação de Portugal. Ela e José Bonifácio enviaram mensagens ao príncipe relatando o agravamento da crise com as Cortes portuguesas.
Os documentos chegaram a Dom Pedro durante o retorno de Santos para São Paulo. Em 7 de setembro, nas proximidades do Ipiranga, ele anunciou a ruptura. O príncipe foi aclamado imperador em 12 de outubro e coroado Dom Pedro I em 1º de dezembro de 1822.
A decisão tomada no Sudeste não foi aceita imediatamente em todo o território. Tropas portuguesas resistiram à separação, e conflitos ocorreram em províncias como Bahia, Piauí, Maranhão e Pará.
Na Bahia, os combates envolveram diferentes grupos sociais e continuaram até 2 de julho de 1823, quando as tropas portuguesas deixaram Salvador. A data é celebrada pelos baianos como marco da consolidação da Independência.
Portugal reconheceu oficialmente a emancipação brasileira somente em 1825, após negociações diplomáticas e o pagamento de uma indenização.
A ruptura criou um Estado politicamente separado, mas manteve a monarquia, Dom Pedro no poder e grande parte da estrutura social existente. A escravidão continuou legal no país e só foi abolida em 1888.
Por isso, historiadores tratam a Independência como um processo político, militar e social, construído por diferentes personagens e regiões — e não apenas como um ato individual ocorrido em 7 de setembro.
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