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Artigo: Combate à violência doméstica e saúde emocional masculina - por Fernanda Cavalcanti

"Historicamente, muitos homens foram educados para reprimir emoções, evitar demonstrações de vulnerabilidade e assumir sozinhos o peso das responsabilidades familiares e sociais", escreveu a colunista.

Ricardo Lélis

10 de junho de 2026 às 19:31   - Atualizado às 19:31

Violência contra mulher

Violência contra mulher Foto: Paulo H. Carvalho/ Agência Brasil

A violência doméstica continua sendo uma das mais graves violações de direitos humanos da atualidade. Todos os dias, mulheres sofrem agressões físicas, psicológicas, morais, patrimoniais e sexuais dentro de seus próprios lares, justamente no lugar onde deveriam encontrar proteção e segurança. 

Entretanto, uma pergunta frequentemente surge diante desses casos: por que tantas mulheres permanecem em relacionamentos abusivos? A resposta está longe de ser simples. 

Muitas vítimas convivem com o medo constante, não apenas da violência em si, mas também das consequências que podem surgir ao romper a relação.

A dependência financeira, a responsabilidade pelos filhos, a falta de apoio familiar, a insegurança sobre o futuro e a dificuldade de inserção no mercado de trabalho fazem com que inúmeras mulheres se sintam aprisionadas em uma realidade da qual não conseguem escapar facilmente. 

Não se trata de fraqueza ou conformismo. Muitas vezes, trata-se de sobrevivência. A decisão de deixar um relacionamento abusivo exige coragem, mas também condições concretas para reconstruir a própria vida.

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Por isso, políticas públicas de acolhimento, capacitação profissional e assistência social são tão importantes no combate à violência doméstica.

Ao mesmo tempo, existe outro aspecto que merece atenção e que costuma receber menos espaço no debate público: a saúde mental masculina.

Historicamente, muitos homens foram educados para reprimir emoções, evitar demonstrações de vulnerabilidade e assumir sozinhos o peso das responsabilidades familiares e sociais.

Expressões como “homem não chora” ou “homem tem que ser forte” ajudaram a construir uma cultura que, em muitos casos, dificulta a busca por ajuda psicológica e emocional.

É importante deixar claro que nenhuma dificuldade emocional justifica a violência. A responsabilidade pelos atos de agressão pertence exclusivamente ao agressor. No entanto, compreender os fatores que podem contribuir para comportamentos destrutivos é fundamental para a construção de estratégias eficazes de prevenção. 

Nas últimas décadas, a sociedade testemunhou transformações profundas nas relações entre homens e mulheres.

A ampliação dos direitos femininos, a presença crescente das mulheres nos espaços de liderança, na educação e no mercado de trabalho representam conquistas legítimas e necessárias. São avanços que corrigem desigualdades históricas e fortalecem a democracia. 

Contudo, toda mudança social também produz desafios de adaptação. Muitos homens foram criados dentro de uma lógica em que seu valor estava fortemente associado ao papel de provedor.

Quando os modelos tradicionais se transformam, alguns enfrentam dificuldades para redefinir sua identidade, seu propósito e seu lugar dentro da família e da sociedade. Ignorar essa realidade não contribui para a construção de relações mais saudáveis.

Promover a igualdade não significa diminuir a importância dos homens, assim como valorizar os homens não significa reduzir os direitos das mulheres.

O verdadeiro caminho está no reconhecimento da dignidade de ambos. Uma sociedade equilibrada não é construída pela substituição de uma forma de opressão por outra, mas pelo respeito mútuo, pela cooperação e pela valorização das contribuições de cada indivíduo.

A prevenção da violência doméstica exige mais do que punição. Exige educação emocional desde a infância, fortalecimento dos vínculos familiares, acesso à saúde mental, combate ao abuso de substâncias e desenvolvimento de habilidades para lidar com conflitos, frustrações e perdas.

Quanto mais cedo o sofrimento emocional for identificado e tratado, maiores serão as chances de evitar que ele se transforme em comportamentos agressivos e destrutivos.

O enfrentamento da violência doméstica deve continuar tendo como prioridade absoluta a proteção das vítimas e a responsabilização dos agressores. Mas também precisa incluir ações preventivas que alcancem homens e mulheres antes que a violência se instale.

Nesse contexto, valores como respeito, empatia, responsabilidade e diálogo permanecem essenciais. A Bíblia, por exemplo, traz uma reflexão conhecida em Provérbios 14:1: “A mulher sábia edifica a sua casa”.

Essa passagem destaca a importância da sabedoria na construção dos lares. Entretanto, a edificação de uma família saudável não pode recair sobre uma única pessoa.

Ela depende do compromisso de todos os seus membros com o amor, o cuidado, o equilíbrio emocional e a convivência pacífica.

A violência doméstica não nasce em um único momento. Ela costuma ser o resultado de problemas que se acumulam ao longo do tempo.

Por isso, proteger as mulheres, fortalecer sua autonomia e, simultaneamente, ampliar o cuidado com a saúde mental masculina não são objetivos opostos. São partes complementares de uma mesma missão: construir 
famílias mais saudáveis e uma sociedade mais humana para todos.

Fernanda Cavalcanti 

Advogada pósgraduada em Direito Civil e Processo Civil, com sólida e versátil atuação nas áreas Cível,Direitos de Família, Trabalhista e Previdenciária, destacando-se tanto no contencioso quanto na consultoria jurídica nos estados da Paraíba, Pernambuco e São Paulo.

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