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Os Pinóquios da política: quando as promessas de campanha crescem mais que a realidade

"Em cada eleição, candidatos apresentam discursos otimistas, promessas grandiosas e soluções aparentemente simples para problemas complexos", escreveu o colunista.

Ricardo Lélis

24 de julho de 2026 às 20:47   - Atualizado às 20:47

Pinóquio na política.

Pinóquio na política. (Reprodução/ IA)

À medida que um novo ciclo eleitoral se aproxima, uma figura clássica da literatura infantil parece ganhar vida no debate público: Pinóquio.

O personagem criado pelo escritor italiano Carlo Collodi ficou conhecido mundialmente por um detalhe marcante: toda vez que mentia, seu nariz crescia. A história, originalmente voltada ao público infantil, tornou-se uma metáfora universal para a mentira, a ilusão e a falta de compromisso com a verdade.

Transportar essa imagem para a política é quase inevitável. Em cada eleição, candidatos apresentam discursos otimistas, promessas grandiosas e soluções aparentemente simples para problemas complexos.

Muitas dessas propostas despertam esperança na população. Outras, no entanto, parecem existir apenas durante o período eleitoral, desaparecendo logo após a apuração das urnas.

É nesse cenário que surgem os “Pinóquios da política”: não personagens de madeira, mas a representação simbólica de uma prática recorrente em democracias ao redor do mundo, na qual promessas são utilizadas como ferramenta para conquistar votos, mesmo quando há pouca ou nenhuma possibilidade de serem cumpridas dentro da realidade administrativa, financeira ou legal.

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Governar vai muito além de fazer discursos. Um mandato de quatro anos possui limitações orçamentárias, depende da arrecadação de impostos, da aprovação de projetos pelos parlamentos, do funcionamento da máquina pública e, muitas vezes, da colaboração entre diferentes esferas de governo.

Ainda assim, não é raro ouvir candidatos prometendo resolver problemas históricos em poucos meses ou anunciar obras e programas cuja execução demandaria décadas.

O eleitor, naturalmente, deseja mudanças rápidas. Afinal, quem enfrenta dificuldades na saúde, na educação, na segurança ou na mobilidade urbana espera respostas imediatas. É justamente essa expectativa que, muitas vezes, abre espaço para o discurso populista.

O populismo político frequentemente se alimenta de soluções fáceis para desafios extremamente complexos. Em vez de apresentar planejamento, metas, fontes de financiamento e cronogramas factíveis, alguns candidatos preferem apostar em frases de efeito, promessas emocionais e compromissos difíceis de serem concretizados.

Entre as promessas mais comuns estão a construção de centenas de escolas, hospitais e creches, a geração de milhares de empregos, a redução imediata da criminalidade, a eliminação de filas na saúde e até a diminuição de impostos sem explicar como será compensada a perda de arrecadação.

Embora algumas dessas metas possam fazer parte de projetos legítimos de governo, muitas vezes elas são apresentadas sem qualquer estudo técnico que demonstre sua viabilidade.

Outro fator que contribui para esse fenômeno é o curto período das campanhas eleitorais. Em poucas semanas, candidatos precisam convencer milhões de pessoas de que representam a melhor opção. Nesse contexto, propostas mais impactantes costumam ganhar mais espaço do que planos detalhados de gestão.

As redes sociais também ampliaram esse comportamento. Vídeos curtos, frases de impacto e promessas de fácil compreensão circulam rapidamente entre os eleitores.

Já as explicações sobre orçamento público, responsabilidade fiscal, limites da legislação e competências dos cargos costumam receber muito menos atenção.

Isso não significa que toda promessa de campanha seja falsa. Muitos gestores conseguem executar parte significativa dos compromissos assumidos durante a disputa eleitoral.

Entretanto, a história política brasileira mostra que inúmeras promessas acabam ficando pelo caminho, seja por falta de planejamento, dificuldades financeiras, mudanças de cenário econômico ou simplesmente porque nunca foram realmente viáveis.

Por isso, especialistas em ciência política e administração pública defendem que o eleitor vá além do discurso. Avaliar o histórico do candidato, analisar a coerência entre propostas e orçamento, verificar experiências anteriores e compreender as atribuições do cargo são atitudes fundamentais para reduzir o impacto das promessas irreais.

Mais do que acreditar em discursos, o exercício da cidadania exige acompanhamento permanente dos mandatos. A democracia não termina no dia da eleição.

Ela continua durante os quatro anos seguintes, quando promessas podem ser cobradas, metas podem ser avaliadas e resultados podem ser comparados com aquilo que foi apresentado durante a campanha.

No fim das contas, talvez o maior ensinamento de Pinóquio continue atual. A história nunca foi apenas sobre um nariz que crescia, mas sobre responsabilidade, honestidade e confiança. Na política, esses valores permanecem essenciais para fortalecer a relação entre representantes e representados.

Enquanto houver campanhas eleitorais, sempre existirão promessas capazes de despertar sonhos. Cabe ao eleitor distinguir aquelas que nascem de um planejamento consistente daquelas que apenas fazem crescer, simbolicamente, o nariz dos “Pinóquios da política”.

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