Deputada pelo PSOL, Erika Hilton. Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados
A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) apresentou uma emenda ao Projeto de Lei nº 896/2023 que reacendeu o debate sobre os limites entre a liberdade religiosa, a liberdade de expressão e o combate à misoginia no Brasil. A proposta foi protocolada na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados e estabelece que manifestações fundamentadas em convicções religiosas, filosóficas, científicas, acadêmicas ou políticas não afastam eventual responsabilização quando configurarem discriminação, preconceito ou discurso de ódio contra mulheres.
A iniciativa, apresentada em conjunto com a deputada Jack Rocha (PT-ES), ainda faz parte da tramitação do projeto e precisará passar pelas etapas de análise no Congresso Nacional antes de uma eventual aprovação.
A emenda propõe incluir no texto do projeto uma regra expressa de que a liberdade de expressão e a liberdade religiosa não poderão ser utilizadas, por si só, como fundamento para excluir responsabilidade quando determinada manifestação for considerada discriminatória.
Pela redação sugerida, a avaliação deverá considerar fatores como o conteúdo da fala, o contexto em que foi realizada, a finalidade da manifestação e os efeitos provocados. Caso esses elementos caracterizem prática de misoginia ou discurso de ódio contra mulheres, poderá haver responsabilização conforme os dispositivos previstos na futura legislação.
Segundo as autoras, a proposta busca impedir que direitos constitucionais sejam utilizados para justificar práticas consideradas discriminatórias.
Na justificativa da emenda, Erika Hilton e Jack Rocha afirmam que a Constituição Federal assegura direitos como a liberdade religiosa e a liberdade de manifestação do pensamento, mas ressaltam que essas garantias convivem com outros princípios constitucionais, entre eles a igualdade e a dignidade da pessoa humana.
As parlamentares sustentam que nenhum direito fundamental possui caráter absoluto e argumentam que manifestações discriminatórias não devem ser protegidas apenas por estarem fundamentadas em convicções religiosas ou filosóficas.
O texto também menciona entendimentos já adotados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em julgamentos relacionados aos limites da liberdade de expressão diante de práticas discriminatórias.
A apresentação da emenda repercutiu entre parlamentares, juristas e representantes de diferentes segmentos religiosos. O principal ponto do debate envolve a possibilidade de interpretações sobre quais manifestações poderiam ser enquadradas como discurso misógino e quais estariam protegidas pelo exercício da liberdade religiosa.
Lideranças religiosas têm defendido que igrejas e ministros religiosos devem continuar exercendo livremente o direito de ensinar suas doutrinas e interpretações das Escrituras, desde que respeitados os limites estabelecidos pela legislação.
Já defensores da proposta afirmam que o objetivo não é restringir a prática religiosa, mas impedir que discursos discriminatórios sejam justificados com base em convicções de natureza religiosa ou ideológica.
A emenda apresentada por Erika Hilton passa agora a integrar a análise do Projeto de Lei nº 896/2023 na Câmara dos Deputados. O texto ainda poderá receber alterações durante sua tramitação nas comissões e, caso aprovado pelos deputados e senadores, seguirá para sanção ou veto presidencial.
Até que todo esse processo legislativo seja concluído, nenhuma mudança entra em vigor.
O debate, no entanto, já mobiliza diferentes setores da sociedade e promete ganhar novos capítulos durante a análise da proposta no Congresso, especialmente diante das discussões envolvendo liberdade religiosa, proteção aos direitos das mulheres e os limites da liberdade de expressão no ordenamento jurídico brasileiro.
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