Motor a combustão interna. Foto: Brasil Escola
A evolução dos motores de combustão interna atingiu seu ápice de eficiência com a chegada da eletrificação. No mercado automotivo brasileiro, a busca por menores índices de emissões e consumo de combustível forçou os engenheiros a resgatarem conceitos físicos de termodinâmica desenvolvidos ainda no século XIX. Para que um veículo híbrido ou híbrido flex entregue médias de consumo surpreendentes em perímetros urbanos, a escolha do ciclo de funcionamento do motor térmico é tão crucial quanto a capacidade das baterias do sistema elétrico.
O ponto de partida da engenharia mecânica automotiva é o tradicional ciclo Otto, amplamente utilizado na frota nacional. Nesse sistema, o motor opera em quatro tempos bem definidos, onde o curso de compressão do combustível é geometricamente idêntico ao curso de expansão dos gases após a centelha da vela. Embora entregue excelente potência específica e respostas rápidas ao acelerador, o ciclo Otto tradicional desperdiça uma quantidade significativa de energia térmica pelos gases de escape, limitando a eficiência energética global do veículo quando opera isoladamente.
Por outro lado, o ciclo Diesel baseia-se na ignição por compressão, dispensando o uso de velas de ignição. Ao trabalhar com taxas de compressão altíssimas e excesso de ar, o motor diesel entrega excelente eficiência térmica e torque vigoroso em baixas rotações. No entanto, o peso elevado de seus componentes móveis, o custo de produção de seus sistemas de pós-tratamento de gases e a incompatibilidade natural com o uso direto do etanol de forma simplificada fazem com que a arquitetura diesel seja preterida nos projetos atuais de veículos híbridos de passeio focados em volume de mercado.
Para solucionar as perdas térmicas do ciclo Otto e maximizar o rendimento dos sistemas híbridos plenos (HEV), a engenharia recorre ao ciclo Atkinson. O grande segredo dessa arquitetura reside no fechamento tardio das válvulas de admissão, que permanecem abertas durante o início do curso de subida do pistão. Esse movimento devolve uma pequena parte da mistura ar-combustível para o coletor, fazendo com que o curso de expansão (onde a energia é gerada) seja efetivamente maior do que o curso de compressão real. De acordo com dados técnicos da Toyota, pioneira na aplicação desse conceito no Brasil com seus modelos híbridos flex, essa assimetria eleva drasticamente a eficiência térmica do motor, embora resulte em uma perda notável de torque em baixas rotações.
É exatamente nesse cenário de defasagem mecânica que o motor elétrico justifica sua presença em sistemas híbridos. Como os motores elétricos entregam torque máximo instantâneo a partir de zero rotações por minuto, eles assumem a responsabilidade de tracionar o veículo nas saídas e acelerações iniciais, operando na faixa onde o motor de ciclo Atkinson é mecanicamente fraco. Quando o veículo atinge velocidades de cruzeiro, o motor a combustão assume o controle, trabalhando em seu regime de rotação ideal com consumo de combustível extremamente reduzido.
Uma evolução direta desse conceito aplicada a motores modernos equipados com turbocompressores é o ciclo Miller. Semelhante ao Atkinson no fechamento defasado das válvulas, o ciclo Miller compensa a perda de ar na admissão utilizando a pressurização forçada de uma turbina ou compressor mecânico. Fabricantes como o grupo Chery adotam essa configuração em seus blocos mais recentes para garantir que o motor mantenha índices de eficiência térmica superiores a 40%, sem abrir mão de respostas vigorosas quando o condutor exige potência máxima do conjunto mecânico.
A aplicação desses ciclos alternativos em motores híbridos flex adiciona uma camada extra de complexidade para as equipes de calibração instaladas no país. O etanol possui propriedades físicas distintas da gasolina, exigindo um comportamento térmico específico da câmara de combustão. Por apresentar um calor latente de vaporização significativamente maior, o combustível vegetal resfria a carga de ar admitida, o que exige ajustes precisos nos tempos de abertura das válvulas nos regimes de ciclo Atkinson ou Miller para evitar falhas de combustão em partidas a frio.
O sucesso dessa integração mecânica posiciona o Brasil em um patamar de destaque no desenvolvimento de tecnologias de descarbonização. Ao combinar a alta eficiência térmica de ciclos termodinâmicos otimizados ao uso de um combustível renovável e de baixa pegada de carbono, a indústria nacional entrega uma solução de mobilidade que une a economia de combustível urbana à autonomia rodoviária demandada pelo consumidor.
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