Marilia Arraes (Foto: Divulgação)
Marília Arraes construiu, nas últimas eleições majoritárias que disputou em Pernambuco, uma trajetória marcada por um contraste que chama a atenção de quem acompanha o cenário político do Estado: a candidata já apareceu na liderança de pesquisas eleitorais, inclusive com vantagem significativa sobre adversários, mas os resultados registrados nas urnas acabaram contando uma história diferente.
O episódio mais expressivo ocorreu em 2022, quando Marília disputou o Governo de Pernambuco. Na véspera do primeiro turno, a então candidata do Solidariedade aparecia com 38% dos votos válidos na pesquisa Ipec divulgada em 1º de outubro, um dia antes da votação. Raquel Lyra e Miguel Coelho apareciam empatados em segundo lugar, com 17% cada. O levantamento tinha margem de erro de dois pontos percentuais e ouviu 2 mil eleitores.
No dia seguinte, porém, a urna apresentou um cenário bem diferente.
De 38% na pesquisa para 23,97% nas urnas
Na apuração do primeiro turno, Marília Arraes recebeu 1.175.651 votos, correspondentes a 23,97% dos votos válidos, segundo a totalização divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ela terminou na primeira colocação e avançou ao segundo turno contra Raquel Lyra. (Justiça Eleitoral)
A diferença entre os 38% apontados pelo último Ipec e os 23,97% efetivamente registrados nas urnas foi de 14,03 pontos percentuais.
O resultado não significa, por si só, que a pesquisa estivesse necessariamente errada. Levantamentos eleitorais representam um retrato do momento em que são realizados e estão sujeitos à margem de erro. Além disso, decisões tomadas pelos eleitores nos últimos dias de campanha, voto útil, rejeição, mudanças no cenário político e outros fatores podem influenciar o resultado.
Mas o contraste é objetivo: na véspera da eleição, Marília aparecia com quase 40% dos votos válidos em uma das principais pesquisas do país; na apuração oficial, ficou abaixo de 24%.
E esse não foi o primeiro episódio em que uma vantagem apresentada por pesquisas acabou diminuindo antes ou durante a votação.
Dois anos antes, Marília Arraes disputou a Prefeitura do Recife contra João Campos. Depois de terminar o primeiro turno praticamente empatada com o adversário, João teve 29,17% dos votos válidos e Marília, 27,95%, os dois chegaram ao segundo turno.
Na primeira pesquisa Datafolha daquela segunda etapa, divulgada em 19 de novembro de 2020, Marília aparecia com 55% dos votos válidos, contra 45% de João Campos.
O levantamento ouviu 924 eleitores e tinha margem de erro de três pontos percentuais. (Folha de S.Paulo)
Na pesquisa seguinte do Datafolha, divulgada em 26 de novembro, Marília tinha 52%, contra 48% de João Campos. Já na véspera da votação, o instituto apontou empate de 50% a 50% nos votos válidos. (Folha de S.Paulo)
O Ibope, divulgado poucos dias antes, também mostrava uma disputa apertada: João Campos tinha 51% e Marília, 49%, dentro da margem de erro. (Folha de S.Paulo)
Nas urnas, contudo, João Campos abriu uma vantagem maior do que a indicada pelos levantamentos finais e foi eleito com 56,27% dos votos válidos, contra 43,73% de Marília Arraes, conforme o TSE. (Justiça Eleitoral)
Os dois episódios ocorreram em eleições diferentes e não podem ser tratados como se fossem exatamente o mesmo fenômeno. Em 2020, a vantagem de Marília foi diminuindo progressivamente até a situação chegar ao empate nas pesquisas finais. Em 2022, por outro lado, ela permaneceu líder até a véspera, mas o percentual registrado nas urnas ficou muito abaixo daquele apontado pelo último Ipec.
Em 2020, Marília chegou a aparecer dez pontos à frente de João Campos no início do segundo turno, mas terminou derrotada por 12,54 pontos de diferença.
Em 2022, chegou à véspera do primeiro turno com 38% no Ipec e terminou a votação com 23,97%.
Isso não permite concluir que Marília Arraes seja uma candidata fraca eleitoralmente. Pelo contrário: ela foi ao segundo turno nas duas disputas mencionadas e, em 2022, terminou o primeiro turno como a candidata mais votada para o Governo de Pernambuco.
O que os números permitem dizer é outra coisa: Marília já demonstrou capacidade de alcançar posições muito fortes nas pesquisas, mas seu desempenho nas urnas não repetiu integralmente algumas das vantagens apresentadas pelos levantamentos.
A comparação também precisa ser feita com cautela. Uma pesquisa não é uma previsão matemática do resultado da eleição. Ela mede a intenção de voto em determinado período e dentro de critérios estatísticos específicos.
Por isso, a diferença entre pesquisa e urna não deve ser utilizada isoladamente para afirmar que houve erro ou manipulação. O que interessa, neste caso, é observar o histórico.
E o histórico de 2020 e 2022 mostra que a força de Marília Arraes nas pesquisas nem sempre se converteu na mesma proporção em votos quando o eleitor efetivamente foi às urnas.
Na disputa pelo Recife, a candidata saiu de 55% em uma primeira pesquisa de segundo turno para um empate na véspera e terminou com 43,73%.
Na corrida pelo Governo de Pernambuco, manteve 38% no último Ipec, mas obteve 23,97% dos votos válidos.
São números que ajudam a explicar por que, diante de uma nova pesquisa eleitoral, a liderança de Marília pode representar força política e competitividade, mas não necessariamente garantir que o mesmo percentual será reproduzido no dia da eleição.
No fim, pesquisa é fotografia de um momento. A urna é o resultado. E, nas duas últimas disputas majoritárias de Marília Arraes, as duas imagens foram diferentes.
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