Cobranças de condomínio, contas de água e energia passaram a pesar no orçamento de moradores reassentados em conjuntos habitacionais na Zona Sul da capital.
Habitacional Encanta Moça Foto: Marlon Diego/Prefeitura do Recife
A conquista da casa própria tem sido acompanhada por um novo desafio para parte das famílias de baixa renda reassentadas em conjuntos habitacionais no Recife: o aumento das despesas mensais. Beneficiários de empreendimentos construídos para retirar moradores de áreas de risco e de palafitas relatam dificuldades para arcar com taxas de condomínio, além das contas de água e energia elétrica, o que tem provocado inadimplência e preocupação com a permanência nos imóveis.
No conjunto habitacional Encanta Moça II, localizado no bairro do Pina, moradores afirmam que a taxa condominial passou de R$ 25 para R$ 80 por mês, um reajuste de 220%. Segundo o síndico do empreendimento, mais de 60% das unidades estão inadimplentes, cenário que levou ao envio de cobranças extrajudiciais aos condôminos em débito.
Antes do reassentamento, muitas famílias viviam em áreas de ocupação informal, onde não arcavam regularmente com despesas como água, energia elétrica e manutenção das áreas comuns. Com a mudança para os apartamentos, esses custos passaram a integrar o orçamento doméstico.
Para moradores que dependem do Bolsa Família, da pesca artesanal ou de trabalhos informais, o aumento das despesas tem comprometido parte significativa da renda mensal. Alguns relatam que precisam escolher entre pagar contas básicas ou quitar a taxa de condomínio.
A inadimplência também trouxe receio entre os moradores. Além das notificações extrajudiciais, há preocupação com possíveis ações judiciais para cobrança dos débitos.
Segundo a administração do condomínio, os recursos arrecadados são utilizados para custear serviços como limpeza, manutenção de bombas d'água, iluminação das áreas comuns e pequenos reparos, despesas consideradas necessárias para o funcionamento do empreendimento.
Para especialistas em habitação urbana, o acesso à moradia digna precisa ser acompanhado por políticas públicas capazes de garantir a adaptação das famílias à nova realidade.
Na avaliação de pesquisadores ouvidos pela reportagem do site Marco Zero, programas habitacionais destinados à população de baixa renda devem considerar não apenas a entrega das unidades, mas também os custos permanentes da vida em condomínio e mecanismos que fortaleçam a geração de renda das famílias. Sem esse suporte, o risco é que a mudança represente um novo peso financeiro para quem já vive em situação de vulnerabilidade.
O tema ganhou força após lideranças comunitárias e representantes de organizações sociais realizarem, neste sábado (25), um ato no Recife cobrando maior transparência na execução do ProMorar, programa habitacional da Prefeitura do Recife.
Entre as preocupações apresentadas pelos participantes está justamente a necessidade de que os processos de reassentamento considerem não apenas a entrega das moradias, mas também os impactos econômicos enfrentados pelas famílias após a mudança, especialmente aquelas que dependem de programas sociais e possuem baixa renda.
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