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Adolescentes de Igarassu conquistam ouro na Olimpíada Nacional de Astronomia

Os três jovens competiram contra representantes de 99 instituições de todo o país, entre escolas particulares, institutos federais e colégios de aplicação.

Fernanda Diniz

02 de dezembro de 2025 às 18:11   - Atualizado às 18:11

Adolescentes de Igarassu.

Adolescentes de Igarassu. Foto: Divulgação

"Achava que seria cortadora de cana no futuro, mas a educação nos deu sonhos”, diz Edelly Nayane, de 14 anos, resumindo a trajetória de três adolescentes que encontraram na ciência a esperança de sonhar mais alto. 

Na Olimpíada Nacional de Astronomia de 2025, ela, Olavo Cândido (12) e Késia Rayane (14) conquistaram o primeiro lugar na 79ª Jornada de Foguetes, realizada em novembro deste ano no Rio de Janeiro, trazendo a medalha de ouro para Pernambuco

A Jornada de Foguetes continua ao longo desta segunda-feira, primeiro dia de dezembro, prosseguindo até quinta-feira (4), e retomará entre os dias 8 e 11 do mesmo mês.

Os três competiram contra representantes de 99 instituições de todo o país, entre escolas particulares, institutos federais e colégios de aplicação.

Os vencedores são da rede pública municipal, do Centro de Educação Integral Evangelina Delgado de Albuquerque, que fica no distrito de Três Ladeiras, em Igarassu.

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Ali, entre canaviais e estradas de barro, o horizonte profissional de muitos se limita ao trabalho braçal nas lavouras, numa área da zona rural separada por 30 quilômetros do Centro da cidade. 

Numa região onde o futuro costuma ser estreito, a escola abriu portas: equipada com laboratórios, formação contínua dos professores e constante estímulo à curiosidade de alunos que antes só viam o mundo pela janela do ônibus escolar. A cada teste de foguete que subia, subia também a ideia de que eles podiam ir mais longe

Ciência com garrafa PET

Na escola integral, os alunos têm eletivas: podem escolher entre Astronomia, Teatro, História e muitos outros cursos. A maioria escolhe o que parece útil. 

Quando a coordenação anunciou a competição nacional de foguetes na eletiva de Astronomia, as turmas não se interessaram tanto. Mas para esses três, era tudo.
 
 "A gente ama estudar os céus", diz Edelly. Olavo também explica que o interesse na prova foi tão grande que estudavam em casa, com os recursos que tinham: “A gente buscava na internet e assistia canais no YouTube, como ‘Fogueteiro’ e ‘Manual do Mundo’”.

No entanto, eles precisavam de conhecimento técnico: foi só quando pegaram uma garrafa PET e transformaram a teoria em propulsão real que entenderam o poder da educação científica.

"Eles usaram na prática conceitos de várias disciplinas, principalmente a física, como propulsão e aerodinâmica, e descobriram que a ciência é acessível e transformadora", resume o monitor Pedro Henrique.

Além de garrafa PET, o foguete que venceu o Brasil foi construído com placas de trânsito reaproveitadas para fazer as aletas, massa epóxi e cola. Materiais simples, mas combinados com rigor científico.

"A gente precisava medir a quantidade de massa, a quantidade da cola, o foguete… Para não ficar tão pesado, mas também não tão leve. Cada falha nos testes (e foram muitas) virou aprendizado”, explica Késia.

O professor Sérgio Botelho orientava, mas eram eles que ajustavam, refaziam, insistiam. Nos últimos testes, saíam para áreas desmatadas da comunidade. Levavam a base de lançamento, marcavam distâncias com cones a cada metro, gravavam tudo em vídeo. 

Foi assim que o foguete deles atingiu 229,6 metros de alcance, tornando-se o campeão nacional.

O Laboratório 7.0, implantado pela prefeitura em parceria com o Sistema de Ensino Dulino, segue a metodologia do "aprender fazendo", usando recursos simples para incentivar o método científico.

O Rio de Janeiro e o futuro

As vozes deles ainda carregam a surpresa. “A gente achou que nunca ia ganhar ouro”, contou Edelly. Olavo, o mais novo e líder da equipe, sempre acreditou na vitória nacional:

“A gente via que tinham muitos foguetes modernos, feitos por muitas escolas de ponta, mas eu sentia que o nosso era mais equipado, apesar de simples”, relatou o estudante. 

O que eles talvez não percebam de imediato é que, para muitas crianças do distrito, o simples fato de vê-los subir num avião pela primeira vez já moveu outra engrenagem: a de acreditar que a educação pode abrir portas que pareciam trancadas desde sempre.

De volta a Igarassu, foram recebidos com um desfile cívico repleto de homenagens. A comunidade inteira celebrou. 

"A gente aprendeu que a ciência é para todos. Mesmo longe da cidade, a gente pode alcançar o espaço", resume Késia.

Nenhum deles tem pais com emprego formal, e as famílias vivem com pouco. Ainda assim, foram elas que insistiram nos estudos, apostaram no esforço dos filhos e seguem sustentando, do jeito que podem, cada passo desse novo futuro.

Edelly, Olavo e Késia já sabem o que querem fazer ano que vem: voltar à competição. Dessa vez, se posicionando como três cientistas individuais que aprenderam que o céu não é o limite.

Três Ladeiras continua sendo um lugar de trabalhadores rurais que lutam para garantir o básico. Mas agora também é o lugar onde três adolescentes provaram que o talento não precisa pedir licença para nascer longe do Centro.

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