Jacarés retornam aos pântanos dos EUA e ajudam a conter tartarugas. Foto: Reprodução/Freepik
A recuperação das populações de jacarés em áreas úmidas da Flórida e da Louisiana, resultado de décadas de políticas de proteção ambiental, vem produzindo efeitos além do esperado.
Estudos e observações recentes indicam que a presença desses predadores está associada à redução da tartaruga-de-orelha-vermelha, espécie exótica considerada uma das mais problemáticas em lagos urbanos e zonas alagadas.
Após quase desaparecerem em meados do século passado devido à caça e à destruição de habitats, os jacarés voltaram a ocupar pântanos, brejos e sistemas de água doce.
Com esse retorno, a dinâmica ecológica dessas áreas passou a mudar.
Um dos efeitos observados é a diminuição da pressão exercida pela tartaruga invasora sobre plantas aquáticas, outras espécies de répteis e a qualidade da água.
Além da predação direta, a simples presença do jacaré modifica o comportamento das tartarugas, que passam a evitar áreas abertas, reduzir o tempo de exposição ao sol e diminuir a reprodução.
A tartaruga-de-orelha-vermelha se espalhou pelo mundo a partir do comércio de animais de estimação. Vendida por preços baixos e em tamanho reduzido, ela rapidamente se tornou popular.
Com o crescimento do animal e o aumento das exigências de manutenção, muitos proprietários optaram por abandoná-la em lagos, rios e parques públicos.
Esse processo levou à instalação da espécie em diversos continentes. Em algumas áreas urbanas, ela representa a maioria absoluta das tartarugas observadas, superando espécies nativas e alterando o funcionamento dos ecossistemas aquáticos.
A alta taxa de reprodução, aliada à longevidade e ao comportamento competitivo, favorece o domínio da espécie invasora.
A ocupação dos principais pontos de aquecimento solar prejudica outras tartarugas, que dependem dessa prática para regular funções vitais.
A redução desse tempo compromete a reprodução e a sobrevivência das espécies locais.
O impacto também se estende à água. Ao consumir plantas e pequenos organismos em grande escala, a invasora contribui para o aumento da turbidez, proliferação de algas e queda dos níveis de oxigênio.
Além disso, há registros de microrganismos associados à espécie, elevando o risco de disseminação de doenças no ambiente.
Tentativas de remoção direta por captura apresentam resultados limitados.
As tartarugas conseguem permanecer submersas por longos períodos e se escondem com facilidade.
Mesmo ações contínuas não impedem que a população se recupere rapidamente, devido ao alto potencial reprodutivo.
A reintrodução de jacarés trouxe um elemento adicional: o impacto comportamental.
A presença do predador altera hábitos diários das tartarugas invasoras, reduzindo acasalamentos e a postura de ovos.
Experimentos com réplicas artificiais de jacarés em lagos urbanos reforçaram esse efeito, afastando as invasoras de áreas estratégicas em poucas semanas.
Com isso, plantas aquáticas começaram a se recuperar, a transparência da água aumentou e o ambiente voltou a oferecer melhores condições para peixes e espécies nativas.
O caso evidencia que a restauração de predadores pode ser uma ferramenta eficaz para conter espécies exóticas e recuperar funções naturais dos ecossistemas.
Em vez de intervenções químicas ou remoções intensivas, a recomposição das relações naturais mostrou potencial para reequilibrar ambientes degradados de forma gradual e sustentável.
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