Feijoada brasileira. Foto: Frigorífico FRIMESA/Divulgação
A feijoada é, sem dúvida, o símbolo máximo da culinária brasileira, mas sua origem é cercada por um dos mitos mais persistentes da nossa história. Em primeiro lugar, é comum ouvir que o prato foi criado por pessoas escravizadas que, recebendo apenas as "sobras" do porco (como pé, orelha e rabo) desprezadas pelos senhores, decidiram misturá-las ao feijão. De fato, historiadores e folcloristas renomados, como Luís da Câmara Cascudo em sua obra "História da Alimentação no Brasil", explicam que essa narrativa não condiz com a realidade socioeconômica do período colonial.
O mito das sobras e a valorização do porco
A ideia de que as partes menos nobres do porco eram jogadas fora é o ponto central que precisa ser corrigido. Além disso, na Europa dos séculos XVIII e XIX, orelhas, pés e rabo de porco eram considerados iguarias e compunham pratos sofisticados da nobreza. Nesse sentido, o senhor de engenho não descartava essas partes; pelo contrário, elas eram consumidas com frequência dentro das casas grandes. A dieta básica nas senzalas era composta majoritariamente por feijão e farinha de mandioca, mas o acesso a carnes proteicas de forma regular e diversificada como na feijoada moderna era extremamente raro para a população escravizada.
Raízes europeias e a evolução do cozido
A estrutura da feijoada brasileira remete diretamente aos tradicionais cozidos europeus que misturam carnes, vegetais e grãos. Dessa forma, pratos como o cassoulet francês, o bollito misto italiano e, principalmente, o cozido à portuguesa são os verdadeiros ancestrais da nossa feijoada. A grande diferença e o toque de brasilidade residem na substituição do feijão branco ou dos grãos europeus pelo feijão preto, que é nativo da América do Sul. Consequentemente, o que conhecemos hoje como feijoada completa é uma evolução urbana que ganhou corpo nos restaurantes e hotéis do Rio de Janeiro no século XIX, tornando-se um prato de celebração.
A feijoada como construção da identidade nacional
A transformação da feijoada em "prato nacional" foi um movimento deliberado que ocorreu décadas após o fim da escravidão. Contudo, durante o período do Modernismo no Brasil, houve um esforço de intelectuais para criar símbolos que representassem a miscigenação e a força da cultura brasileira. De acordo com informações do portal Mega Curioso, a feijoada foi eleita como esse estandarte gastronômico por unir técnicas europeias a ingredientes locais. Assim sendo, o prato passou a ser visto como uma metáfora da união das etnias que formaram o país, sendo servido em grandes eventos sociais.
O legado cultural e a sofisticação atual
Hoje, a feijoada é reconhecida mundialmente pela sua complexidade de sabores e pelo seu ritual de acompanhamentos, como a couve, a laranja e a farofa. Portanto, desmistificar sua origem não retira a importância do papel negro na construção do paladar brasileiro, mas sim devolve ao prato sua real complexidade histórica. O preparo exige paciência e técnica, características que transformaram um cozido de influência europeia em uma das maiores expressões da resistência e criatividade culinária do povo brasileiro ao longo dos séculos.
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