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Milagre na Caatinga: Ave extinta há um século volta a nascer em liberdade no Nordeste

O periquito-cara-suja, um dos psitacídeos mais raros do Brasil, registra os primeiros nascimentos em vida livre após 100 anos de desaparecimento regional.

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01 de maio de 2026 às 13:02   - Atualizado às 13:24

Periquito cara suja (Pyrrhura griseipectus)

Periquito cara suja (Pyrrhura griseipectus) Foto: acaatinga.org.br

A natureza brasileira acaba de registrar um capítulo histórico de superação e resiliência. Após mais de cem anos de silêncio na região, o periquito-cara-suja (Pyrrhura griseipectus), considerado uma das aves mais raras e ameaçadas do país, voltou a nascer em liberdade na Reserva Natural Serra das Almas, localizada na divisa entre o Ceará e o Piauí.

O registro, ocorrido em março de 2026, marca o sucesso de um ambicioso projeto de reintrodução que devolve à Caatinga uma de suas espécies símbolo.

O evento é um marco biológico: o último registro da espécie na área datava do final do século XIX. Agora, graças ao esforço conjunto entre a Associação Caatinga, a Aquasis e o ICMBio, a ave deixa de ser apenas uma lembrança em museus para ocupar novamente os céus do semiárido nordestino.

A prova de fogo: Reprodução em vida livre

O nascimento dos filhotes é o "selo de qualidade" definitivo para qualquer projeto de conservação. Segundo os pesquisadores, o fato de as aves terem iniciado a postura de ovos em menos de um ano após a soltura demonstra uma adaptação excepcional ao novo habitat.

Embora tenham vindo de regiões mais úmidas, os periquitos aprenderam a identificar predadores, buscar novas fontes de alimento e ocupar as caixas-ninho instaladas estrategicamente para suprir a escassez de ocos naturais em árvores.

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  • Números da esperança: Na Serra das Almas, foram encontrados 33 ovos.
  • Expansão em Ubajara: No Parque Nacional de Ubajara, o esforço resultou na postura de quase 50 ovos e no nascimento de 28 filhotes.

Para os especialistas, esses números superam as expectativas iniciais. A projeção é que a população de periquitos na região possa dobrar em pouco tempo se as condições climáticas e o monitoramento contínuo forem mantidos.

Um mosaico ecológico em restauração

A volta do cara-suja não é um fato isolado, mas faz parte de um plano maior de restauração do Planalto da Ibiapaba. Esse território, que já abrigou uma fauna exuberante de onças, araras e tatus-canastra, sofreu décadas de degradação. O retorno da ave simboliza a reconstrução de uma história interrompida e reacende a esperança de reintroduzir outras espécies extintas regionalmente.

O trabalho envolve um ciclo completo: desde o resgate de aves vítimas do tráfico, passando pela reabilitação no Parque Arvorar, até o momento emocionante do voo livre. Cada filhote que nasce na natureza hoje já cresce totalmente integrado aos desafios da Caatinga, sendo a base de uma população selvagem autossustentável.

Desafios e o futuro da espécie

Apesar do entusiasmo, a fase inicial de vida dos filhotes é delicada. Equipes de biólogos e voluntários monitoram os ninhos diariamente para reduzir perdas causadas por predação natural ou intempéries climáticas, como alagamentos por chuvas intensas. Cada ave é anilhada e monitorada para que os pesquisadores possam mapear a dispersão do bando.

A reintrodução do periquito-cara-suja prova que, com dedicação e parcerias estratégicas, é possível reverter processos de extinção local. O "cara-suja", que mede cerca de 23 cm e pesa apenas 60 gramas, carrega agora o peso de ser o embaixador de uma Caatinga viva, pulsante e recuperada.

  • Espécie: Periquito-cara-suja (Pyrrhura griseipectus)
  • Status: Em perigo crítico de extinção (exclusivo do Nordeste)
  • Locais de Soltura: Serra das Almas (CE/PI) e Parque Nacional de Ubajara (CE)
  • Tempo de Ausência: Mais de 100 anos na região

 

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