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Relógio de luxo é investimento? Entenda por que a resposta depende do objetivo da compra

Renan Bastos, especialista no mercado internacional de alta relojoaria, explica como oferta, demanda, preço de entrada e liquidez determinam se uma peça poderá preservar valor, valorizar ou gerar prejuízo

02 de setembro de 2026 às 18:49   - Atualizado às 18:51

Renan Bastos, especialista no mercado internacional de alta relojoaria.

Renan Bastos, especialista no mercado internacional de alta relojoaria. Foto: Divulgação

Relógios que custam centenas de milhares ou até milhões de reais aparecem com frequência nos pulsos de celebridades, atletas e empresários. Ao mesmo tempo, histórias de modelos que passaram a ser negociados por valores muito superiores aos preços originais ajudaram a criar a percepção de que comprar um relógio de luxo seria uma forma segura de investimento.

Na prática, a resposta depende de três fatores principais: qual relógio foi escolhido, quanto foi pago por ele e qual era o objetivo do comprador.

Uma peça pode ser adquirida para celebrar uma conquista, marcar uma data importante, fazer parte de uma coleção, preservar parte do patrimônio ou buscar uma valorização futura. Embora essas finalidades possam existir ao mesmo tempo, cada uma exige critérios diferentes na hora da compra.

Para Renan Bastos, especialista no mercado internacional de relógios de luxo, o erro começa quando o comprador não define claramente o que espera daquela aquisição.

“Não existe uma única resposta sobre relógio ser ou não investimento. Para uma pessoa, ele pode representar uma conquista pessoal. Para outra, pode ser uma forma de manter parte do patrimônio em um bem físico com mercado internacional. Para outra, o objetivo pode ser exclusivamente tentar ganhar dinheiro. O relógio ideal e a forma de avaliar a compra mudam completamente de acordo com esse objetivo”, explica Renan Bastos.

O mercado não considera apenas quanto o proprietário gosta da peça

O valor de um relógio no mercado secundário é determinado principalmente pela relação entre oferta e demanda.

O preço pago pelo proprietário, o valor emocional atribuído à peça e o preço desejado na revenda não obrigam o mercado a pagar aquela quantia. O valor efetivo aparece quando existe um comprador disposto a concluir a transação.

“Nem sempre aquilo que uma pessoa acredita valer muito possui o mesmo valor para o mercado. O proprietário pode amar o relógio, considerar a peça rara e acreditar que deveria valer mais. Mas, se não existe demanda por aquela configuração, será difícil encontrar alguém disposto a pagar o valor esperado”, afirma Renan.

Isso significa que raridade, sozinha, também não garante valorização. Uma peça pode ser extremamente rara porque poucas unidades foram produzidas, mas continuar com baixa liquidez se poucas pessoas desejarem comprá-la.

“Escassez somente gera valor quando encontra demanda. Um relógio pode ser raro e, ainda assim, difícil de vender. Por outro lado, uma referência produzida em maior quantidade pode ter excelente liquidez porque existe uma base muito maior de compradores procurando por ela”, explica o especialista.

Comprar somente aquilo de que você gosta pode ser correto, dependendo do objetivo

A escolha baseada exclusivamente no gosto pessoal não é necessariamente um erro. Se o objetivo é usar o relógio, celebrar uma conquista ou manter a peça por muitos anos, a preferência pessoal deve ocupar uma posição central.

O problema aparece quando o comprador escolhe uma configuração muito particular, de baixa demanda, mas espera conseguir revendê-la rapidamente e sem perda financeira.

“Se você está comprando um relógio para marcar o nascimento de um filho, um casamento, uma conquista profissional ou uma meta importante, faz sentido escolher uma peça que tenha significado para você. Nesse caso, o retorno emocional faz parte da compra. Mas, se a liquidez na revenda também é uma prioridade, você não pode considerar somente aquilo de que gosta. Precisa entender o que o mercado procura”, afirma Renan Bastos.

Cores, materiais, tamanhos e configurações muito específicas podem agradar profundamente a um comprador, mas reduzir o número de interessados na futura revenda.

“O melhor relógio para guardar uma memória não será necessariamente o melhor relógio para vender rapidamente. Nenhuma das escolhas está errada. O erro é comprar para uma finalidade e depois avaliar o resultado utilizando os critérios de outra”, acrescenta.

A marca sozinha não garante valorização

O nome estampado no mostrador é apenas uma das variáveis consideradas pelo mercado. Dentro de uma mesma fabricante, diferentes referências podem apresentar comportamentos completamente distintos.

Modelo, material, mostrador, tamanho, configuração, condição, ano, documentação, disponibilidade e procura ajudam a determinar quanto os compradores estão dispostos a pagar.

“Não basta dizer que determinado relógio é Rolex, Patek Philippe, Audemars Piguet ou Richard Mille. Dentro de cada uma dessas marcas existem peças com níveis completamente diferentes de demanda. O mercado não compra apenas o nome da fabricante. Ele compra aquela referência e aquela configuração específica”, explica Renan.

Duas peças da mesma marca, compradas originalmente por valores semelhantes, podem seguir trajetórias opostas. Enquanto uma encontra uma procura crescente e pode ser vendida rapidamente, outra pode permanecer anunciada por meses ou precisar de uma redução significativa no preço.

O prejuízo pode começar no momento da compra

Para quem também busca preservação patrimonial, o preço de entrada é um dos fatores mais importantes.

Um consumidor pode encontrar um relógio anunciado por R$ 100 mil e interpretar esse número como seu valor real de mercado. Entretanto, preço anunciado, preço efetivamente negociado e valor de compra imediata por um dealer podem ser números diferentes.

Se o relógio costuma ser negociado por R$ 80 mil e o comprador paga R$ 100 mil, a peça precisará valorizar 25% sobre seu valor real de mercado apenas para alcançar o montante desembolsado. Isso ainda desconsidera possíveis custos de venda, intermediação, seguro, manutenção e impostos.

“Você pode comprar o relógio certo pelo preço errado. A referência pode ter boa procura e um histórico positivo, mas, se você entrar muito acima do mercado, começará a operação com uma diferença que precisará ser recuperada”, explica Renan.

Condições comerciais, parcelamentos, margens do vendedor e conveniência podem elevar o preço final. Isso não significa necessariamente que a compra seja ruim para quem deseja a experiência ou prefere aquelas condições, mas esses valores não devem ser confundidos com valorização do relógio.

“Existem pelo menos três números diferentes: quanto estão pedindo pela peça, por quanto negócios semelhantes estão sendo concluídos e quanto alguém pagaria por ela hoje em uma compra imediata. Quem pensa também no aspecto patrimonial precisa entender essa diferença”, afirma.

Valor e liquidez são coisas diferentes

Um relógio pode possuir um valor elevado e, ainda assim, levar tempo para encontrar um comprador.

Modelos com demanda internacional ampla podem ser negociados com relativa rapidez por meio de uma rede de dealers e colecionadores. Peças muito específicas, mesmo quando raras e caras, podem depender do comprador certo.

“Liquidez não significa apenas existir um preço anunciado. Liquidez é a capacidade de transformar a peça em dinheiro dentro de um prazo razoável e sem precisar conceder um desconto excessivo”, explica Renan Bastos.

Mesmo nas referências mais procuradas, existe diferença entre vender pelo preço de varejo e realizar uma venda imediata. Quem precisa transformar o relógio em dinheiro rapidamente pode receber uma proposta menor, porque o comprador ou dealer precisará assumir custos, riscos e tempo de revenda.

“Alguns relógios possuem excelente liquidez quando comparados a outros bens de luxo e objetos de coleção. Mas relógio não é dinheiro em conta. Se você precisa vender hoje, o valor disponível hoje pode ser diferente daquele que você encontraria esperando pelo comprador final”, afirma o especialista.

Relógios podem oferecer exposição a um mercado internacional

Outra razão pela qual algumas pessoas mantêm parte do patrimônio em relógios é o caráter internacional do mercado.

As principais referências de alta relojoaria são negociadas em diferentes países e frequentemente possuem seus preços comparados em dólar. Isso permite que determinadas peças tenham uma base global de compradores, diferentemente de bens cujo mercado depende exclusivamente da economia local.

“Existem pessoas que utilizam relógios para manter parte do patrimônio em um bem físico negociado internacionalmente. Uma referência com demanda em Miami, Dubai, Hong Kong, Londres ou Singapura não depende somente do comprador de uma única cidade ou país”, explica Renan.

Isso, porém, não significa que comprar um relógio seja igual a comprar dólares.

O valor da moeda e o preço do relógio são variáveis diferentes. O dólar pode subir enquanto determinada referência perde valor no mercado internacional. Também existem diferenças entre preço de compra e venda, além de custos com seguro, manutenção, autenticação e intermediação.

“Eu não diria que qualquer relógio dolariza automaticamente o patrimônio. O que existe é uma exposição indireta a um bem cujo mercado internacional costuma utilizar o dólar como referência. Para isso funcionar como preservação de valor, a peça precisa ter demanda global e ser comprada corretamente”, esclarece.

Um relógio também pode funcionar como troféu de uma conquista

Avaliar um relógio apenas pelo retorno financeiro ignora uma das principais razões pelas quais essas peças são adquiridas.

Muitas pessoas compram um relógio para marcar a conclusão de um projeto, uma promoção profissional, o crescimento de uma empresa, um casamento, o nascimento de um filho ou outra conquista pessoal.

Nesse contexto, o relógio funciona como uma espécie de troféu que pode ser usado e carregado ao longo da vida.

“Um relógio pode marcar uma fase que nunca mais se repetirá. Você olha para aquela peça e lembra exatamente do que precisou superar para chegar até ali. Esse valor não aparece em um gráfico e não pode ser medido somente pelo preço de revenda”, afirma Renan Bastos.

Uma escolha bem feita pode reunir os dois aspectos. O comprador adquire uma peça pela qual possui identificação pessoal e, ao mesmo tempo, seleciona uma referência com demanda suficiente para preservar parte relevante do valor.

“Na minha opinião, essa é uma das formas mais inteligentes de comprar. Você escolhe algo que realmente deseja usar e que representa alguma coisa para você, mas também estuda o mercado para não pagar um preço sem fundamento e não ficar preso a uma peça sem procura”, acrescenta.

Valorização passada não garante o comportamento futuro

Outro erro comum é utilizar exclusivamente o histórico de uma referência para prever seu comportamento nos próximos anos.

Relógios que apresentaram fortes altas podem enfrentar correções. Mudanças econômicas, alterações na oferta, novas tendências e transformações nas preferências dos consumidores podem aumentar ou reduzir a procura.

“Quando alguém observa que um relógio dobrou de preço nos últimos anos, pode imaginar que a valorização continuará no mesmo ritmo. Mas o preço atual já incorpora grande parte daquela demanda. O que aconteceu no passado ajuda a entender o comportamento da peça, mas não garante o futuro”, afirma Renan.

Casos extraordinários de valorização, portanto, não devem ser tratados como regra para todo o segmento.

O objetivo da compra deve definir a escolha

Antes de escolher um relógio, o comprador precisa responder o que espera daquela aquisição.

Se a prioridade é celebrar uma conquista, o significado pessoal e o prazer de uso podem ser mais importantes que a liquidez.

Se o objetivo é preservar parte do patrimônio, preço de entrada, demanda internacional, originalidade, condição, documentação e facilidade de revenda precisam receber mais atenção.

Se a intenção é buscar valorização, o comprador deve compreender que está assumindo riscos e que não existe retorno garantido.

“Antes de recomendar qualquer peça, eu perguntaria: você quer usar e guardar? Quer preservar o máximo possível do valor? Precisa conseguir vender rapidamente? Ou está comprando exclusivamente porque acredita que o preço subirá? Cada resposta leva a um relógio diferente”, explica Renan.

Afinal, relógio de luxo é investimento?

Alguns relógios podem apresentar valorização e gerar retorno financeiro. Outros podem preservar parte relevante do patrimônio durante anos. Também existem peças que perdem valor imediatamente após a compra.

Por isso, classificar todos os relógios de luxo como investimentos seria incorreto. A definição mais adequada é a de um bem físico de alto valor, com utilidade, significado emocional e mercado secundário, que em determinadas referências pode apresentar características patrimoniais.

“Eu não compraria qualquer relógio chamando de investimento. Primeiro, ele precisa fazer sentido dentro do objetivo da pessoa. Depois, é necessário analisar referência, configuração, preço de entrada e liquidez. O retorno financeiro pode acontecer, mas nunca deve ser apresentado como.

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