O objetivo da ação é reunir provas relacionadas a possíveis crimes envolvendo plataformas de apostas de quotas fixas.
18 de junho de 2026 às 10:17 - Atualizado às 10:19
Agentes na Operação Conto da Sorte. Foto: Divulgação
O Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) deflagrou, nesta quinta-feira, 18 de junho, a Operação Conto da Sorte, uma ação que investiga um suposto esquema de exploração irregular de apostas online e jogos de azar pela internet. A operação foi realizada simultaneamente nos estados de Pernambuco, São Paulo e Ceará e contou com o apoio da Receita Federal, além da participação de órgãos de segurança e instituições parceiras.
O objetivo da ação é reunir provas relacionadas a possíveis crimes envolvendo plataformas de apostas de quotas fixas, conhecidas popularmente como bets. Entre os delitos apurados estão lavagem de dinheiro, exploração ilegal de jogos de azar, loterias sem autorização, associação criminosa, induzimento à especulação e infrações contra as relações de consumo.
As investigações apontam que o grupo utilizava a Lotseridó, órgão criado pela Prefeitura de Bodó, município localizado no interior do Rio Grande do Norte, para conferir aparência de legalidade a diversas plataformas de apostas que atuavam em diferentes regiões do país.
A operação é resultado de um trabalho investigativo conduzido pelo MPRN a partir de informações técnicas produzidas pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), vinculada ao Ministério da Fazenda. A apuração também contou com apoio da Receita Federal, dos Ministérios Públicos de Pernambuco, São Paulo e Ceará, além das forças policiais desses estados.
Ao todo, foram cumpridos mandados de busca e apreensão contra sete pessoas físicas e seis empresas. As diligências ocorreram em imóveis residenciais e comerciais localizados nas cidades de Recife, Caruaru e Toritama, em Pernambuco, Fortaleza, no Ceará, e nos municípios paulistas de São Paulo e Iguape.
A operação mobilizou uma força-tarefa composta por seis promotores de Justiça, 19 servidores dos Ministérios Públicos do Rio Grande do Norte e de Pernambuco, 16 policiais civis, 12 policiais militares e 10 servidores do Ministério da Fazenda.
De acordo com o Ministério Público, os investigados teriam utilizado estratégias digitais para direcionar usuários aos sites de apostas considerados irregulares. A apuração indica que o grupo promovia invasões a sistemas de órgãos públicos e inseria códigos em páginas de internet com alta credibilidade, incluindo endereços terminados em “.gov.br” e “edu.br”.
Segundo os investigadores, essas alterações geravam arquivos de indexação manipulados que influenciavam mecanismos de busca na internet. Com isso, usuários que realizavam pesquisas eram direcionados para plataformas de apostas vinculadas ao esquema, acreditando que se tratavam de serviços confiáveis ou autorizados.
O Ministério Público sustenta que essa prática ajudava a aumentar o alcance dos sites e transmitia uma falsa sensação de legitimidade aos consumidores.
As investigações também identificaram um crescimento patrimonial considerado expressivo entre os envolvidos. Conforme dados mencionados pelo MPRN, manifestações públicas da própria Prefeitura de Bodó indicaram que empresas ligadas ao sistema teriam arrecadado cerca de R$ 415 milhões em apenas dez meses de funcionamento.
Nesse mesmo período, os repasses ao município chegaram a aproximadamente R$ 8,3 milhões. Além disso, uma das empresas investigadas registrou créditos que somaram R$ 4,6 bilhões ao longo de 2025.
Para movimentar os recursos e ocultar os beneficiários finais do esquema, os investigadores apontam que foi criada uma rede de empresas de fachada. Essas companhias atuariam como intermediadoras de pagamento ou prestadoras de apoio operacional.
Segundo o MPRN, muitas dessas empresas estavam registradas em nome de terceiros sem participação efetiva no negócio, incluindo pessoas de baixa renda, beneficiários de programas sociais e familiares dos organizadores. Apesar disso, os líderes do grupo continuariam controlando as contas bancárias por meio de procurações.
A investigação também revelou indícios de irregularidades na estrutura empresarial utilizada pelos suspeitos. Conforme o Ministério Público, diversas empresas estavam registradas em locais sem atividade comercial comprovada, incluindo endereços inexistentes, salas vazias e escritórios virtuais.
Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores foi a continuidade das operações financeiras mesmo após o encerramento formal de alguns registros empresariais na Receita Federal.
Segundo a apuração, os responsáveis pelo esquema chegaram a registrar 21 empresas em um mesmo endereço considerado fictício na cidade de Bodó.
Antes da deflagração da operação desta quinta-feira, o Ministério Público já havia obtido uma decisão judicial importante no caso. Em novembro de 2025, a Justiça autorizou o bloqueio de R$ 145 milhões pertencentes aos investigados.
A medida incluiu o bloqueio de contas bancárias, aplicações financeiras, investimentos e planos de previdência privada. Também foi determinada a indisponibilidade de veículos e imóveis vinculados aos alvos da investigação.
De acordo com o MPRN, a atuação do órgão se baseia no entendimento de que municípios não possuem competência para criar normas relacionadas à exploração de loterias e apostas. A tese segue posicionamento consolidado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), segundo o qual a regulamentação desse tipo de atividade cabe à União.
As medidas adotadas pela Justiça e pelos órgãos de investigação buscam interromper o funcionamento do suposto esquema, preservar recursos para eventual reparação de danos e garantir a continuidade das apurações. O caso segue sob investigação e os fatos ainda serão analisados pelas autoridades competentes ao longo do processo.
*Com informações do Ministério Público do Rio Grande do Norte
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