Daniel Antônio utiliza rastreamento ocular para se comunicar e levou a própria experiência com acessibilidade para a pesquisa acadêmica.
06 de outubro de 2026 às 09:12 - Atualizado às 09:29
Daniel Antônio e a professora Ana Maria, que lutou pela inclusão do estudante. Foto: Mychell Victor Ribeiro Santos/ arquivo pessoal
A experiência de se comunicar por meio dos olhos levou Daniel Antônio da Conceição Silva, de 29 anos, a investigar como a inteligência artificial pode ajudar outras pessoas a se expressar. Com paralisia cerebral, ele concluiu o curso de Tecnologia em Sistemas para Internet no Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IFSertãoPE), em Salgueiro, e dedicou o trabalho de conclusão de curso à síntese de voz. A apuração é do g1.
A formatura aconteceu em 20 de maio de 2026. Na cerimônia, o campus reuniu 32 concluintes dos cursos de Sistemas para Internet, Licenciatura em Física e Tecnologia em Alimentos, acompanhados por familiares, amigos e servidores da instituição.
Na graduação, Daniel transformou uma questão presente no cotidiano em objeto de pesquisa: as possibilidades de tornar mais natural a voz produzida por ferramentas de comunicação. O trabalho está disponível no repositório acadêmico do instituto.
O estudo analisou cinco sistemas de síntese de voz com inteligência artificial e suporte ao português brasileiro: ElevenLabs, deAPI.ai, Google Cloud TTS, Coqui TTS e Piper TTS.
A avaliação combinou critérios técnicos e testes de compreensão da fala, incorporando também a experiência de Daniel como usuário de comunicação aumentativa e alternativa.
Entre os resultados, a pesquisa identificou vantagens diferentes nas ferramentas. Algumas oferecem maior naturalidade e personalização da voz, enquanto outras se destacam pela privacidade e pela possibilidade de funcionar sem conexão com a internet.
A conclusão aponta que não existe uma solução superior para todas as situações. A escolha depende das necessidades de cada pessoa, dos recursos disponíveis e do contexto de utilização.
A parceria com o professor Marcelo Santos, orientador do TCC, começou antes da graduação, durante o ensino médio. Ao longo desse percurso, os dois testaram recursos para facilitar a escrita e o acesso de Daniel ao computador.
Uma das alternativas foi uma ponteira de cabeça, que não se mostrou adequada. Posteriormente, o uso de um teclado com sensor de piscadelas permitiu que ele escrevesse com maior independência.
Com novos testes, o tempo necessário para produzir uma frase caiu de aproximadamente dez para cinco minutos. Atualmente, Daniel utiliza rastreamento ocular para digitar, abrir programas e se comunicar sem depender de outra pessoa para falar por ele.
A trajetória escolar também teve a participação da professora Ana Maria dos Santos. Ela incentivou a matrícula de Daniel na rede municipal quando ele tinha nove anos e participou da mobilização para conseguir sua primeira cadeira de rodas.
Alfabetizado aos dez anos, ele seguiu os estudos até chegar à formação superior. Ao concluir a graduação, passou a reunir a experiência de quem utiliza tecnologias de acessibilidade e o conhecimento acadêmico para avaliar como elas podem atender diferentes usuários.
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