Presidente da República, Lula Marcelo Camargo/Agência Brasil
O World Inequality Report 2026 indica que o Brasil segue entre os países mais desiguais do mundo. De acordo com o levantamento, a parcela da renda concentrada no topo da pirâmide social cresceu entre 2014 e 2024, contrariando a narrativa de redução histórica da desigualdade.
Na prática, os números mostram que os 10% mais ricos ampliaram sua fatia da renda nacional, enquanto a participação dos 50% mais pobres diminuiu. Esse movimento, segundo o estudo, revela que os ganhos econômicos do período não foram distribuídos de forma equilibrada.
Em 2014, os 10% mais ricos detinham cerca de 57,9% da renda nacional. Em 2024, essa participação subiu para 59,1%. Já os 50% mais pobres passaram de 10,7% para 9,3%, aprofundando a distância entre as duas extremidades da sociedade.
O relatório também utiliza um indicador que compara diretamente esses grupos. A razão entre a renda apropriada pelos mais ricos e pelos mais pobres aumentou de 53,7 para 63,5, um sinal claro de que a concentração se intensificou ao longo do período analisado.
A principal explicação para o contraste entre o estudo global e os indicadores nacionais está na forma de coleta dos dados. Pesquisas oficiais no Brasil utilizam majoritariamente entrevistas domiciliares, que tendem a capturar com menos precisão os rendimentos mais elevados.
O relatório internacional adota uma abordagem diferente ao combinar dados de pesquisas domiciliares com informações tributárias. Esse cruzamento permite enxergar melhor rendas provenientes de lucros, dividendos, aplicações financeiras e grandes patrimônios, que frequentemente ficam fora das estatísticas tradicionais.
Os autores do estudo destacam que o crescimento da renda média e a melhora pontual de indicadores sociais não significam, necessariamente, redução estrutural da desigualdade. Segundo o relatório, o problema central permanece na concentração de renda no topo, que limita os efeitos distributivos do crescimento econômico.
Para os pesquisadores, sem mudanças estruturais como maior progressividade tributária e políticas de redistribuição mais eficazes — o país tende a manter níveis elevados de desigualdade, mesmo em cenários de crescimento.
Ao comparar o Brasil com outros países, o relatório reforça que a desigualdade segue como um dos principais desafios nacionais. A análise reacende o debate sobre como medir a concentração de renda e até que ponto os indicadores tradicionais refletem a realidade vivida pela população.
Mais do que uma disputa de narrativas, o estudo aponta para um dilema estrutural: crescimento econômico, por si só, não garante justiça social quando os ganhos continuam concentrados nas mãos de poucos.
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