O caso ganhou repercussão internacional após a descoberta de centenas de corpos na região de Shakahola, onde o grupo religioso mantinha suas atividades.
Paul Mackenzie. (Foto: Reprodução/ Redes Sociais)
O líder religioso Paul Mackenzie foi considerado culpado pelas mortes de 191 pessoas, quase todas crianças, em um dos casos criminais mais graves da história recente do Quênia.
A condenação foi anunciada na segunda-feira (19) pelo Tribunal Superior de Mombaça e está relacionada a um sistema organizado de jejum forçado e maus-tratos na floresta de Shakahola, no leste do país.
Mackenzie, que tem pouco mais de 50 anos, liderava a igreja Good News International Church. Segundo os investigadores, ele teria incentivado seus seguidores a deixar de comer, assim como a submeter os próprios filhos à inanição, sob a justificativa religiosa de que a prática permitiria alcançar o céu e encontrar Jesus.
Cerca de 30 outros suspeitos também foram condenados no processo. O caso ganhou repercussão internacional após a descoberta de centenas de corpos na região de Shakahola, onde o grupo religioso mantinha suas atividades.
Os promotores classificaram o julgamento como um dos casos criminais mais relevantes da história do país. As investigações apontaram que as mortes não foram resultado apenas de decisões individuais de jejum, mas de uma estrutura organizada que utilizava ensinamentos religiosos e uma hierarquia interna para impor práticas letais aos seguidores.
De acordo com informações divulgadas pelo gabinete do diretor do Ministério Público do Quênia, o tribunal concluiu que havia um sistema estruturado para orientar e impor jejuns que levavam à morte.
Em comunicado, o órgão informou que a prática era implementada de maneira sequencial, começando pelas crianças. Guardas controlavam a movimentação no local e impediam que os seguidores deixassem a área, segundo as conclusões apresentadas no julgamento.
O tribunal também ouviu relatos de que Mackenzie desencorajava o uso da medicina moderna e o acesso à educação formal. Esses elementos fizeram parte do contexto investigado pelas autoridades para compreender como a organização funcionava e de que maneira os ensinamentos do líder influenciavam o comportamento dos seguidores.
As autoridades começaram a localizar corpos na floresta de Shakahola em abril de 2023. Desde então, 429 corpos foram recuperados, número que evidencia a dimensão da tragédia. As investigações podem resultar em novas acusações.
Mackenzie e os demais acusados foram denunciados pelos homicídios em 2024, depois que a exumação de centenas de corpos revelou a extensão das mortes associadas à organização religiosa.
Os exames post mortem citados pela juíza Diana Kavedza durante a sessão de segunda-feira também apontaram que algumas vítimas morreram por causas diferentes da inanição. Entre os mecanismos identificados estavam asfixia, compressão no pescoço e traumatismos cranianos.
As conclusões reforçaram a gravidade das circunstâncias investigadas e indicaram que, em determinados casos, a morte teria ocorrido em decorrência de violência física.
Apesar da condenação, a defesa de Paul Mackenzie afirmou que pretende contestar a decisão judicial. O advogado Lawrence Obonyo disse a jornalistas que a equipe jurídica planeja apresentar recurso.
Segundo o defensor, Mackenzie sustenta que não obrigou ninguém a jejuar e que as decisões tomadas pelos seguidores foram voluntárias. A posição da defesa contrasta com as conclusões do tribunal, que identificou um sistema organizado de imposição de jejuns e restrições à liberdade dos integrantes do grupo.
O caso continua sendo acompanhado pelas autoridades quenianas, especialmente diante da possibilidade de novas acusações relacionadas às mortes registradas na floresta de Shakahola.
A recuperação de 429 corpos e a condenação de Mackenzie e de outros envolvidos transformaram o episódio em um marco para o sistema de Justiça do Quênia. A investigação expôs os riscos associados ao controle exercido por lideranças religiosas quando crenças são utilizadas para justificar práticas que colocam vidas em perigo, especialmente as de crianças e pessoas submetidas à autoridade de um grupo.
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