Supercentenários brasileiros em estudo científico mostram mecanismos biológicos que ajudam a manter a saúde em idades acima de 110 anos. Foto: Freepik
Uma pesquisa inédita liderada por cientistas brasileiros começou a revelar por que algumas pessoas conseguem ultrapassar os 110 anos com menos doenças típicas da idade. O estudo, divulgado nesta terça-feira (6) no periódico científico Genomic Psychiatry, investigou supercentenários no Brasil e encontrou pistas importantes sobre mecanismos biológicos que mantêm a saúde em idades extremas.
Os pesquisadores descobriram que essas pessoas mais velhas conseguem manter uma espécie de “limpeza celular” ativa, um processo que ajuda o corpo a eliminar resíduos e partes danificadas dentro das células. Essa função, chamada autofagia, costuma se enfraquecer com o tempo, mas nos supercentenários brasileiros ela continua em níveis parecidos com os de adultos jovens.
A equipe identificou também outro padrão marcante: os supercentenários apresentam tipos específicos de células de defesa ampliadas no sangue. Essas células, conhecidas como células T CD4+ citotóxicas, atuam no combate a infecções e ajudam a impedir que células defeituosas cresçam no organismo.
Esses achados explicam, em parte, por que muitas pessoas com idade superior a 110 anos conseguem evitar ou postergar doenças graves, como câncer e demência. Em vez de um simples declínio geral da saúde, os pesquisadores observaram que o corpo desses idosos opera de maneira funcional e adaptada às décadas de vida.
Os cientistas também encontraram sinais de variantes genéticas raras relacionadas à estabilidade do DNA e à correção de danos no material genético. Essas características podem contribuir para manter as células funcionando melhor por mais tempo.
O estudo incluiu observações de supercentenários que viveram em diferentes regiões do país, com vidas marcadas por realidades variadas de acesso à saúde e recursos. Mesmo assim, muitos participantes apresentaram lucidez e autonomia consideráveis, mesmo em idades muito avançadas.
Um aspecto que chamou a atenção dos pesquisadores foi o desempenho desses idosos durante a pandemia de Covid-19. Antes da chegada das vacinas, cientistas acompanharam supercentenários brasileiros que foram infectados pelo coronavírus e se recuperaram. Esses indivíduos apresentaram níveis elevados de anticorpos e outras proteínas ligadas à resposta imune, mostrando resistência que surpreendeu os especialistas.
A presença de padrões familiares de longevidade também apareceu no estudo. Pesquisadores notaram que parentes próximos de supercentenários tinham probabilidade maior de alcançar idades avançadas, o que reforça a ideia de que fatores genéticos, combinados com aspectos ambientais e de vida, influenciam esse fenômeno.
No Brasil, o número de pessoas com mais de 110 anos é pequeno em comparação com centenários, mas o país já figura em rankings internacionais de longevidade extrema. Dados recentes mostram que o Brasil possui ao menos 14 pessoas com mais de 110 anos, sendo que algumas delas estão entre as mais velhas do mundo.
A pesquisa brasileira integra um debate global sobre envelhecimento saudável. Cientistas em diferentes países estudam fatores que ajudam a explicar por que certas pessoas vivem tanto e com boa qualidade de vida. No Brasil, os resultados desse estudo ampliam o entendimento sobre como processos celulares e imunológicos podem proteger o corpo mesmo após um século de vida.
Embora o envelhecimento ainda seja um campo complexo e cheio de questões sem resposta, esta pesquisa aponta caminhos que podem inspirar novas frentes de estudo, tanto para entender o funcionamento do organismo em idades extremas quanto para promover mais saúde à medida que a população global envelhece.
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