Mesmo sem a etiqueta "bombom", o Sonho de Valsa permanece um símbolo de romance e afeto no Brasil. Foto: Reprodução
O que faz de um doce algo eterno?
O sabor, claro. Mas também a memória. A embalagem. O som do papel ao girar. A sensação de abrir algo que parece dizer: "isso é só pra você".
O Sonho de Valsa, um dos chocolates mais queridos do Brasil, está mudando. E não é só a embalagem.
A alteração parece simples, mas carrega implicações profundas: econômicas, culturais e emocionais.
Criado em 1938, o doce agora é classificado como wafer. A mudança, embora técnica, reabre um debate sobre o que realmente nos conecta a certos produtos.
Deixar de ser bombom não foi apenas uma decisão de marketing. Foi uma estratégia de sobrevivência.
Ao ser reclassificado como wafer, o produto escapa do imposto de 5% do IPI. Isso representa uma economia significativa para a fabricante.
Para o consumidor, nada muda no paladar — mas o sentimento? Esse, talvez, nunca mais seja o mesmo.
Nos anos 1940, o Sonho de Valsa era item de bombonière elegante. Era vendido a granel, pensado para o público feminino e carregava uma delicadeza rara.
A embalagem rosa, com casal dançando e notas musicais discretas, virou marca registrada. Assim nasceu o mito.
O recheio de castanha de caju envolto em wafer e chocolate se manteve inalterado por décadas.
E tem mais: versões brancas, recheadas, minis e até ovos de Páscoa ajudaram a manter o doce sempre atual.
A reclassificação fiscal pode parecer fria e burocrática. Mas afeta mais do que números.
Para muita gente, o Sonho de Valsa era o bombom do primeiro amor. Do aniversário na escola. Da visita da avó.
Mudar o nome é, para alguns, quase como mudar a história.
Na prática, o sabor continua o mesmo.
A crocância, o recheio, o ritual de abrir — nada muda.
Mas ao sair da categoria “bombom”, o produto também muda de prateleira, de discurso e talvez até de valor simbólico.
É uma adaptação aos tempos modernos.
E uma tentativa da indústria de sobreviver sem perder a alma.
A nova definição técnica não apaga o sentimento.
O Sonho de Valsa pode não ser mais um bombom no papel, mas continua sendo um doce emocional no coração de milhões.
No fim, talvez não importe o que está escrito na embalagem.
Importa o que sentimos ao provar.
E nesse ponto, o sonho continua igual.
Eterno, delicado, só nosso.
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