Relógio do Juízo Final foi mantido em 90 segundos para meia-noite. Créditos: Reprodução/Bulletin of the Atomic Scientists
O Relógio do Juízo Final (Doomsday Clock) é uma das metáforas mais impactantes já criadas para representar o risco existencial da humanidade. Mantido desde 1947 pelo Bulletin of the Atomic Scientists, a cada ano o relógio é ajustado com base em ameaças globais como guerras, armas nucleares, mudanças climáticas e avanços tecnológicos fora de controle.
Atualmente, os ponteiros nunca estiveram tão próximos da “meia-noite”, referência simbólica para o colapso da civilização.
O conceito nasceu em plena Guerra Fria, quando cientistas que trabalharam no Projeto Manhattan criaram um organismo para alertar sobre os perigos do uso da energia nuclear. A ideia era simples e poderosa: quanto mais próximo da meia-noite, maior o risco de destruição global.
Inicialmente, o relógio marcava sete minutos para a meia-noite, mas passou por diversos ajustes ao longo das décadas, espelhando os altos e baixos das tensões mundiais.
Hoje, o Relógio do Juízo Final marca 90 segundos para a meia-noite, a menor distância já registrada na história.
As razões para essa aproximação são múltiplas:
O retorno das armas nucleares ao centro do debate é uma das maiores preocupações. O conflito entre Rússia e Ucrânia, aliado a ameaças diretas ao uso de mísseis atômicos, trouxe de volta o cenário de medo dos anos 1960.
A fragilidade dos tratados de não proliferação e a possibilidade de uma nova corrida armamentista aumentam a instabilidade.
O aquecimento global também pesa na decisão dos cientistas. Recordes sucessivos de temperatura, incêndios florestais devastadores e aumento no nível do mar indicam que a humanidade caminha para um ponto sem volta.
Organizações climáticas já alertam que os próximos 20 anos serão decisivos para evitar catástrofes irreversíveis.
Outro fator que entrou no radar do Relógio é a inteligência artificial. Embora carregue promessas de avanços na saúde, na educação e na economia, também desperta receios de manipulação bélica e uso em sistemas autônomos letais.
A falta de regulamentação internacional pode transformar a IA em uma das maiores ameaças invisíveis do século.
O Doomsday Clock não é um objeto físico com validade científica absoluta, mas um alerta simbólico. Ele reflete o estado de vulnerabilidade coletiva da civilização e busca provocar debate e ação política antes que seja tarde demais.
Os cientistas do Bulletin insistem que a humanidade ainda tem poder para reverter esse cenário. Dialogar sobre paz, reduzir dependência de combustíveis fósseis e criar barreiras éticas na tecnologia seriam passos fundamentais para afastar os ponteiros da meia-noite.
Diversos líderes mundiais já usaram o Relógio do Juízo Final como exemplo de urgência. A ONU, em diferentes discursos, reforça que o planeta atravessa um “momento crítico” que exige cooperação multilateral, e não disputas políticas.
Ações locais, como a transição energética, também são vistas como uma maneira imediata de mitigar ao menos parte da crise.
O Relógio do Juízo Final é um espelho da era em que vivemos. Mais do que ilustração apocalíptica, ele traduz as escolhas humanas que nos empurram para a beira do abismo — ou que podem nos salvar dele.
O futuro dos ponteiros não é inevitável: está nas mãos da humanidade decidir se eles voltarão a marcar minutos mais distantes da meia-noite.
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