Chimpanzé Foto: Reprodução / Internet
Em meio a um cenário de descrença política no Brasil, o ano de 1988 marcou um episódio curioso e emblemático na história das eleições municipais do Rio de Janeiro: um chimpanzé do zoológico foi lançado como candidato à prefeitura e conquistou cerca de 400 mil votos.
Embora sua candidatura nunca tenha sido validada, o macaco Tião tornou-se símbolo de protesto e ironia frente à instabilidade política da época.
A ideia partiu da revista humorística Casseta Popular, do grupo que mais tarde daria origem ao famoso Casseta & Planeta. Com o apoio do então deputado Fernando Gabeira (PV), a candidatura fictícia de Tião foi levada adiante como uma sátira ao processo eleitoral, com direito a slogan oficial: “Tudo pela evolução. Para presidente, macaco Tião!”
Registrado de maneira simbólica pelo fictício Partido Bananista Brasileiro (PBB), Tião caiu no gosto popular. Com o sistema de votação ainda manual, os eleitores podiam escrever livremente o nome dos candidatos nas cédulas.
Foi assim que milhares decidiram votar no chimpanzé, como forma de crítica ao que consideravam uma falta de opções viáveis entre os concorrentes reais.
A repercussão foi tamanha que outro político, o jornalista e vereador Sérgio Cabral, lançou um concorrente “à altura”: o macaco Simão, também como forma de sátira.
Apesar das críticas da imprensa e de alguns setores políticos, que viam na brincadeira um incentivo ao voto nulo, a candidatura de Tião teve um retorno bastante expressivo. Se os votos fossem considerados válidos, ele teria ficado em terceiro lugar na disputa, vencida por Marcello Alencar no segundo turno.
A história rendeu ao animal um lugar no Guinness World Records, como o “chimpanzé mais votado do mundo”. O feito, no entanto, não foi inédito em território nacional. Trinta anos antes, em 1955, o jornalista Itaboraí Martins lançou o rinoceronte Cacareco como candidato a vereador em São Paulo. Na ocasião, o animal recebeu cerca de 100 mil votos.
Tião morreu em 1996, aos 33 anos, vítima de complicações causadas pela diabetes. O luto foi oficializado na cidade do Rio de Janeiro, e o chimpanzé ganhou uma estátua no Jardim Zoológico como forma de homenagem. A fama do animal era tamanha que sua morte foi noticiada até na primeira página do jornal francês Le Monde.
Muito além do humor, a candidatura de Tião se tornou um marco de como o eleitor pode usar o voto também como ferramenta de protesto. Um gesto simbólico que continua vivo na memória política e cultural do Brasil.
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