Trump e Bolsonaro. Alan Santos / PR
Donald Trump age dentro de uma lógica estratégica que precisa ser compreendida para que países como o Brasil não fiquem à margem do cenário internacional. Ao contrário da visão de que Trump atua por impulsividade ou mero improviso, seus movimentos refletem uma nova forma de exercer poder global, marcada pelo pragmatismo e pela habilidade de barganha.
Os Estados Unidos viveram um longo período de confiança excessiva no chamado soft power, a capacidade de influenciar o mundo por meio de diplomacia, cultura e cooperação. Essa abordagem, no entanto, falhou em momentos cruciais: a China cresceu sob a proteção e financiamento indireto americano, a Europa manteve políticas protecionistas enquanto era sustentada pelo guarda-chuva militar da OTAN, e Washington saiu enfraquecido de operações como a do Afeganistão. Esse conjunto de fatores minou a credibilidade dos EUA.
Trump, por sua vez, foi o primeiro presidente a assumir de maneira explícita que esse modelo estava esgotado. Seu estilo, muitas vezes visto como caótico, é na realidade uma estratégia transacional: cada encontro, cada gesto simbólico, cada crítica pública tem um propósito. Quando pressiona a Europa sobre os custos da OTAN, para em seguida oferecer elogios pontuais, o que está em jogo é a renegociação do equilíbrio de forças. Da mesma forma, tarifas impostas a parceiros comerciais não são um rompimento, mas uma forma de forçá-los a chegar a novos acordos vantajosos para os EUA.
Esse mesmo raciocínio se aplica ao reposicionamento americano em regiões estratégicas. O acordo mediado entre Armênia e Azerbaijão, por exemplo, diminuiu a influência da Rússia sobre a energia do Cáucaso, enquanto movimentos calculados em relação à China e à Rússia criam tensões que servem de instrumento de negociação. Até mesmo detalhes aparentemente banais, como a forma de tratamento entre líderes Trump chamando Macron de “Emmanuel”, enquanto é chamado de “Mr. President”, carregam significado: são marcas simbólicas de poder, reafirmações sutis de quem ocupa o centro da cena.
O Brasil ainda está preso a um mapa mental ultrapassado, baseado em ideologia e na nostalgia da Guerra Fria. A aposta em alianças Sul-Sul, a retórica contra o dólar e a aproximação com regimes autoritários não trouxeram o protagonismo esperado; pelo contrário, têm isolado o Brasil e reduzido sua relevância internacional. A posição do governo brasileiro, diante da Lei Magnitsky, adotada por diversas nações para punir violações de direitos humanos. Ao declarar que não pretende aplicá-la, o Brasil se arrisca a ficar vulnerável a sanções internacionais e até a exclusão de sistemas financeiros globais, como o SWIFT, um erro estratégico que pode custar caro.
Enquanto os EUA combinam força, pragmatismo e diplomacia simbólica para retomar o protagonismo mundial, o Brasil se perde em discursos ideológicos e alianças frágeis, muitas vezes ao lado de autocratas. Ele observa que até mesmo no caso da Venezuela, em que os Estados Unidos reforçaram sua presença militar como demonstração de poder, o Brasil preferiu ignorar abusos eleitorais e de direitos humanos, optando por uma política de conivência que prejudica sua imagem.
A era das ilusões diplomáticas acabou. O mundo atual é marcado por disputas de poder claras, por negociações duras e por símbolos que definem quem lidera e quem segue. Entender a lógica estratégica de Trump e dos EUA é fundamental para qualquer nação que queira permanecer relevante. Ignorar esse novo cenário, como vem fazendo o Brasil, significa correr o risco de ficar isolado e irrelevante no tabuleiro global.
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"O que se viu foi um movimento que ultrapassou o universo jurídico e adentrou os territórios da engenharia política", diz colunista.
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