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Os invisíveis da violência: quando trabalhadores viram estatística no Brasil das Facções

Execução de técnicos em Salvador expõe a omissão do Estado e o avanço do crime organizado nas periferias.

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18 de dezembro de 2025 às 12:01   - Atualizado às 12:11

Trabalhadores mortos em Salvador- Bahia

Trabalhadores mortos em Salvador- Bahia Foto: Reprodução/IA

No Brasil, morrer trabalhando tem se tornado um risco cotidiano para quem vive nas periferias e comunidades historicamente esquecidas pelo poder público. A execução brutal de três trabalhadores de uma empresa provedora de internet, no bairro do Alto do Cabrito, em Salvador, não é apenas mais um episódio de violência urbana. Trata-se de um retrato cru de um país onde vítimas inocentes são silenciadas e, rapidamente, reduzidas a números frios nas estatísticas oficiais.

Os homens vestiam fardas, carregavam ferramentas e cumpriam uma rotina comum a milhões de brasileiros. Saíram de casa para trabalhar, garantir o sustento de suas famílias e retornar ao fim do dia. Não voltaram. Foram amarrados e executados com tiros na cabeça, em um crime que revela planejamento, crueldade e total desprezo pela vida humana.

A banalização da morte de trabalhadores

Horas antes do crime, um vídeo compartilhado nas redes mostrava os trabalhadores sorrindo, descontraídos, alheios ao destino que os aguardava. Depois, veio o silêncio definitivo imposto pela violência. Esse silêncio, no entanto, não se restringe às vítimas. Ele também representa a omissão de um Estado que falha reiteradamente em garantir o direito mais básico: o direito à vida.

Em muitas comunidades periféricas, a presença do poder público é frágil ou inexistente. Falta segurança, faltam políticas públicas contínuas e falta presença institucional. No vácuo deixado pelo Estado, surgem facções criminosas que ocupam territórios, impõem regras próprias e decidem quem pode circular, trabalhar ou simplesmente existir.

O avanço do crime organizado e a ausência do Estado

O crime organizado no Brasil deixou de ser um fenômeno restrito ao tráfico de drogas. Ele se expandiu, se sofisticou e passou a controlar áreas inteiras, funcionando como uma autoridade paralela. Nessas regiões, trabalhadores como técnicos, entregadores, motoristas e prestadores de serviço se tornaram alvos vulneráveis, expostos ao risco constante de violência apenas por estarem “no lugar errado”.

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As vítimas desse sistema não são anônimas. São pais, filhos, mães, irmãos e jovens que acordam todos os dias sem saber se retornarão para casa. Pessoas honestas que pagam com a própria vida por viverem em áreas marcadas pela desigualdade social e pela negligência histórica do poder público.

Quando vidas viram estatísticas

Após a comoção inicial, os nomes desaparecem das manchetes, os rostos se apagam e restam apenas números em relatórios de violência. Estatísticas que crescem ano após ano, mas que não traduzem a dor das famílias nem a brutalidade das perdas. Assim, a violência vai sendo normalizada, absorvida como parte da rotina nacional.

Não se trata apenas de cobrar investigações pontuais ou prisões imediatas. Trata-se de reconhecer que existe um projeto de exclusão em curso, onde determinadas vidas valem menos. Onde trabalhadores pobres e moradores de periferias se tornam invisíveis para o Estado e descartáveis para o crime organizado.

Um problema estrutural, não uma fatalidade

Essas mortes não são fatalidades. São consequência direta da ausência de políticas públicas eficazes, da desigualdade profunda e da incapacidade estatal de proteger quem mais precisa. Enquanto esse cenário persistir, novos trabalhadores sairão de casa pela manhã e se somarão à dolorosa lista dos invisíveis.

Resgatar a memória dessas vítimas é um ato de justiça. Denunciar o silêncio e a omissão é uma responsabilidade coletiva. Porque nenhuma sociedade que se acostuma com a morte de seus trabalhadores pode se considerar justa, segura ou verdadeiramente democrática.

Por: Amisadai Andrade 

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