ByteDance vai construir data center bilionário no Ceará. Imagem de vecstock no Freepik
Imagine morar em uma cidade que declara emergência por seca em 16 dos últimos 21 anos e ver autoridades liberarem um megaempreendimento para sugar sete vezes mais água do que o prometido inicialmente. É o que acontece em Caucaia, no Ceará, com o data center do TikTok, construído pela Casa dos Ventos. A Secretaria de Recursos Hídricos (SRH) autorizou 144 mil litros diários, contra os 19,7 mil declarados no licenciamento ambiental prévio.
A notícia explodiu após reportagem do The Intercept Brasil, revelando como a liberação veio sem fiscalização profunda, baseada apenas em uma autodeclaração da empresa. Enquanto o TikTok expande sua presença no Brasil com esse investimento bilionário no Complexo Industrial do Pecém, comunidades locais dependem de cisternas e caminhões-pipa. A tensão é palpável: será que o avanço tecnológico vale o risco à sobrevivência cotidiana?
Especialistas veem nisso uma inversão de prioridades. "É uma decisão que agrava a insegurança hídrica e viola direitos fundamentais dos moradores", dispara Cynthia Picolo, diretora do Laboratório de Políticas Públicas e Internet (Lapin).
Caucaia não é um caso isolado no Nordeste. A região sofre com chuvas irregulares e mananciais sobrecarregados, agravados pela expansão urbana desordenada. O data center, classificado como de "baixo impacto ambiental" pela Semace, dispensou estudos mais rigorosos, o que já gerava questionamentos.
A própria Casa dos Ventos admitiu nos relatórios ambientais que a bacia hidrográfica local enfrenta "situação hídrica insuficiente". Ainda assim, duas outorgas separadas foram emitidas em novembro, somando 144 mil litros por dia, equivalentes ao consumo de centenas de famílias. Moradores indígenas e ribeirinhos, que lutam por saneamento básico, se sentem traídos.
Protestos pipocam nas redes: "Água para o povo, não para data centers", gritam ativistas. Em setembro, mobilizações já barravam o projeto, temendo justamente esse desequilíbrio.
Rárisson Sampaio, da Comissão de Direito Ambiental da OAB-Ceará, não poupa críticas. "Isso impacta os múltiplos usos da água, violando políticas estadual e federal de gestão hídrica. Prioridade é para consumo humano e animais, não para resfriamento de servidores", alerta ele.
Paulo Sinisgalli, professor de Gestão Ambiental da USP, reforça: a SRH deveria ter exigido análise entre a licença prévia e a de instalação. O prazo de 120 dias para obras foi ignorado nesse ponto crucial.
Do outro lado, a SRH afirma que o manancial suporta a demanda, graças a chuvas recentes. A Cogerh classifica o impacto como "baixa magnitude". Semace e Casa dos Ventos batem na tecla da "margem de segurança": a outorga é vazão máxima de poços, não consumo efetivo.
A empresa jura eficiência: sistemas de ciclo fechado para refrigeração, energia 100% renovável de eólicos. Prometem 25 mil empregos no Pecém, injeção de R$ 50 bilhões iniciais, mais R$ 100 bi em expansão. Mas críticos questionam se o consumo real de 300 MW de energia e água não transformará Caucaia em "zona de sacrifício" ambiental.
Não para por aí. O data center consumirá energia para 2,2 milhões de pessoas – seis vezes a população local. Previa-se desmatamento em área protegida, mas uma ponte foi liberada recentemente.
Comunidades quilombolas e indígenas temem perda de recursos. "Imperialismo digital", acusa A Verdade, vendo priorização de big techs chinesas sobre necessidades locais.
O licenciamento segue para a fase operacional. Moradores cobram audiência pública ampla. Especialistas pedem revogação ou reavaliação técnica urgente. O TikTok, via ByteDance, silencia, mas o Brasil vira palco de data centers verdes – ou predatórios?
Enquanto isso, Caucaia espera chuva e justiça. Esse caso expõe a encruzilhada: atrair investimentos ou preservar o essencial? A resposta definirá se o Ceará vira modelo de sustentabilidade ou alerta nacional.
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