O céu estrelado em uma noite de observação astronômica em 2026. Foto: Freepik
Astrônomos identificaram, pela primeira vez, emissões de rádio que foram diretamente localizadas em um planeta fora do Sistema Solar.
O sinal foi associado a Beta Pictoris b, um gigante gasoso situado a pouco mais de 63 anos-luz da Terra. A descoberta foi apresentada por uma equipe internacional liderada por Kevin N. Ortiz Ceballos, do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, em estudo disponibilizado como preprint.
O resultado representa um avanço nas pesquisas sobre exoplanetas porque, até então, os astrônomos já haviam registrado emissões de rádio em sistemas que abrigam esses mundos, mas enfrentavam dificuldades para determinar se a origem estava no planeta ou em sua estrela.
Nesse caso, as observações permitiram localizar a fonte diretamente em Beta Pictoris b, diferenciando-a tanto da estrela Beta Pictoris quanto do planeta Beta Pictoris c.
Beta Pictoris b foi descoberto em 2008 e é um planeta gigante gasoso. A equipe utilizou o conjunto de radiotelescópios MeerKAT, instalado na África do Sul, para acompanhar o sistema em quatro sessões realizadas entre 2025 e 2026.
Durante as observações, foram identificadas emissões persistentes e rajadas rápidas e recorrentes em frequências que variaram de 0,85 a 3,5 gigahertz.
Apesar de a descoberta envolver ondas de rádio vindas de outro sistema planetário, o fenômeno não tem relação com uma possível tentativa de comunicação de uma civilização extraterrestre.
A interpretação apresentada pelos pesquisadores é de que as emissões sejam produzidas por auroras, fenômeno conhecido na Terra e também observado em planetas do Sistema Solar, como Júpiter.
A hipótese é reforçada pelo comportamento das ondas detectadas. As rajadas apresentaram forte polarização circular, uma característica associada a emissões aurorais.
O mecanismo físico apontado pelos pesquisadores é a chamada instabilidade máser de ciclotron de elétrons, conhecida pela sigla ECMI. Esse processo também está relacionado às emissões de rádio produzidas pelas auroras de planetas do Sistema Solar.
Segundo a interpretação do estudo, partículas energéticas seriam canalizadas pelo campo magnético de Beta Pictoris b em direção às regiões superiores de sua atmosfera. A interação dessas partículas poderia produzir as auroras e, consequentemente, as ondas de rádio registradas pelo MeerKAT.
A localização precisa da origem do sinal foi um dos pontos fundamentais da pesquisa. Para melhorar a precisão das medições, os pesquisadores utilizaram quasares como referências astrométricas. Com esse procedimento, a posição da fonte de rádio apresentou coincidência com Beta Pictoris b e mostrou-se incompatível com a estrela hospedeira e com Beta Pictoris c.
Além de identificar a origem das emissões, os sinais de rádio forneceram informações sobre o campo magnético do exoplaneta. Isso acontece porque, no mecanismo de emissão auroral identificado pelos pesquisadores, a frequência máxima da radiação está relacionada à intensidade do campo magnético na região em que ela é produzida.
A análise dos dados levou a equipe a estimar um campo magnético de pelo menos 1,25 quilogauss em Beta Pictoris b. O valor corresponde a aproximadamente 1.250 gauss e representa, segundo os autores, a primeira medição direta da intensidade do campo magnético de um exoplaneta.
A descoberta abre uma nova possibilidade para estudar o magnetismo de mundos que estão fora do Sistema Solar. Campos magnéticos podem influenciar a interação de planetas com suas estrelas e ajudar os cientistas a compreender características de suas atmosferas e de sua estrutura interna.
O estudo, porém, ainda deve ser analisado com a cautela própria de uma pesquisa em fase de preprint. O trabalho foi submetido ao arXiv em 15 de setembro de 2026 e ainda não havia passado por revisão por pares no momento da divulgação da descoberta.
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