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Renan Bastos analisa avanço do mercado de relógios de luxo usados

Enquanto os programas das marcas crescem, quem atende a maior parte dessa demanda continua sendo o mercado independente.

01 de novembro de 2026 às 11:58   - Atualizado em 03 de novembro de 2026 às 01:19

Renan Bastos analisa avanço do mercado de relógios de luxo usados

Renan Bastos analisa avanço do mercado de relógios de luxo usados Renan Bastos é fundador e CEO da RC Crown, especialista em relógios de luxo.

Programa da Rolex movimentou US$ 229 milhões em um trimestre e caminha para US$ 1 bilhão por ano, enquanto a Audemars Piguet se prepara para lançar o seu e o mercado secundário bate recordes

Os números não deixam dúvida: existe uma demanda reprimida enorme por relógios de luxo, e ela está vazando para o mercado de usados. O programa de usados certificados da Rolex, o CPO, movimentou cerca de US$ 229 milhões no trimestre encerrado em setembro de 2026, o maior resultado desde o lançamento, em 2022, com alta de 61% sobre o mesmo período do ano anterior. Mantido esse ritmo, o programa deve gerar US$ 1 bilhão em vendas por ano para a rede da marca, segundo estimativas publicadas pela WatchPro.

A fila de marcas querendo entrar nesse mercado só cresce. A Audemars Piguet lança nos próximos dias o seu próprio programa de usados certificados, com detalhes completos até o fim de outubro. A Vacheron Constantin lançou o dela em 2024. Independentes como Richard Mille e F.P. Journe já revendem peças próprias há uma década.

"Quando a fábrica corre atrás do mercado de usados, ela está admitindo uma coisa: a demanda pelo relógio dela é maior do que a capacidade, ou a vontade, de entregar no varejo. Tem muito mais gente querendo comprar do que gente conseguindo comprar novo. Essa demanda não some, ela vai para o secundário", afirma Renan Bastos, fundador e CEO da RC Crown, especialista em relógios de luxo.

Um mercado cada vez maior e mais popular

Os dados do mercado secundário como um todo confirmam o movimento. Segundo a EveryWatch, plataforma de dados do setor, as vendas de relógios usados somaram US$ 10,5 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 37,2% sobre o mesmo período de 2025. Só de Rolex foram US$ 4,3 bilhões, crescimento de 43,5%, e a estimativa é que o ecossistema da marca, entre novos e usados, movimente cerca de US$ 10 bilhões no ano.

A explicação, para Renan, é direta: comprar relógio novo de marca grande virou uma espera sem prazo, e o consumidor não quer esperar.

"Hoje a boutique não tem estoque. O cliente quer comprar, tem o dinheiro, e mesmo assim não consegue. No mercado secundário, a peça existe, está na mesa. O que segurava esse cliente era o medo: medo de peça falsa, de pagar caro sem saber, de não ter referência. É essa barreira que está caindo", diz.

Até quem diz que não vai entrar, deve acabar entrando

A exceção entre as grandes marcas é a Patek Philippe, que mantém a posição de não criar um programa de usados certificados, decisão reafirmada diversas vezes pelo seu presidente, Thierry Stern. Para Renan, porém, essa resistência tem prazo de validade.

"Eu respeito a posição da Patek, mas acho que ela vai acabar cedendo. É dinheiro demais para deixar na mesa. E o CPO não é só venda: é a forma de a marca atender o cliente que quer comprar com ela, direto dela, num momento em que a boutique não tem o relógio para entregar. Quem não entrar, está entregando esse cliente para os outros", afirma.

Quem alimenta esse mercado hoje são os dealers

Enquanto os programas das marcas crescem, quem atende a maior parte dessa demanda continua sendo o mercado independente. As referências mais procuradas do programa da Rolex são as mesmas que giram todos os dias nas mãos dos dealers especializados, com preço definido pela negociação real entre eles.

"É uma ótima notícia para o mercado secundário. Cada programa desses legitima o usado, traz cliente novo e confirma que o relógio continua girando depois da primeira venda. E esse mercado é de bilhões e bilhões, e vai crescer cada vez mais. É onde a gente está inserido: vendendo exatamente as referências que todo mundo procura", diz Renan.

A dor que sobrou: saber quanto vale

Com a demanda represada migrando para o usado, a dor central do mercado mudou. O problema deixou de ser encontrar o relógio e passou a ser saber quanto ele vale. Anúncios antigos e de peças que já foram vendidas seguem no ar, os preços mudam em questão de dias e o consumidor não tem onde conferir o valor real antes de fechar negócio.

É nessa dor que Renan Bastos com a RC Crown aposta com o WatchesInStock, plataforma gratuita que reúne as postagens recentes de 288 grupos de dealers no mundo, considera apenas os últimos 14 dias e tira da frente do consumidor a poluição de anúncios velhos, mostrando o que de fato existe no mercado. A referência é o preço em que os dealers negociam entre eles e, sobre essa base, o consumidor enxerga o preço justo da peça, com margem inferior a 10%. O site já está no ar, em fase de testes e ajustes antes da divulgação.

"A demanda reprimida está aí, os números da Rolex provam. Mas ela só vira negócio para quem resolve a insegurança do cliente. Quando a pessoa sabe quanto o relógio vale de verdade, ela compra. Informação de preço real é o que destrava esse mercado", afirma.

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