Ricardo Leal, profissional com mais de 40 anos de atuação em TI e trajetória concentrada em bancos de dados e ambiente acadêmico, faz análise do tema.
03 de novembro de 2026 às 09:02 - Atualizado às 14:51
Ricardo Leal, profissional com mais de 40 anos de atuação em TI e trajetória concentrada em bancos de dados e ambiente acadêmico Foto: Divulgação
Os investimentos em tecnologia no Brasil podem chegar a R$ 2 trilhões entre 2026 e 2029, segundo projeção da Brasscom. Nuvem deve concentrar R$ 765,6 bilhões e inteligência artificial, R$ 736,6 bilhões. Em 2025, o macrossetor de TIC movimentou R$ 919,7 bilhões, equivalente a 7,2% do PIB. Por trás dessa expansão existe uma camada menos visível, mas decisiva: a infraestrutura de dados que registra operações, preserva históricos e entrega informação para análises e sistemas de inteligência artificial.
Para Ricardo José Leal dos Santos, profissional de tecnologia com mais de quatro décadas de experiência e trajetória concentrada em dados, a discussão precisa começar antes do modelo “Cabe a quem direciona esses crescentes investimentos em TI compreender que não basta saber qual modelo de IA usar se você, que possui uma "inteligência verdadeira", desconhece o significado dos dados, sua origem e seu histórico. O armazenamento em nuvem minimiza os riscos de problemas com o hardware, mas não elimina as medidas de contingência necessárias quando o erro é humano ou, ainda, quando a IA decide apagar seus dados por uma decisão equivocada. Dessa forma, a sofisticação da ferramenta pode mascarar problemas que sempre existiram e jamais substituirá o investimento em um especialista.” afirma.
Ricardo Leal acompanhou diferentes gerações dessa infraestrutura. Sua experiência inclui sistemas de grande porte (IBM e Unisys), desenvolvimento, administração de bancos de dados e Business Intelligence, em ambientes com tecnologias como ADABAS, Oracle, SQL Server e MySQL. A formação acadêmica, que inclui mestrado em Engenharia da Computação com concentração em Geomática, e a experiência docente reforçam um perfil em que prática e estudo de dados caminham juntos. Esse repertório ajuda a contextualizar uma transformação que hoje alcança praticamente todos os setores.
Na prática, o avanço da nuvem e da IA não elimina problemas clássicos de bancos de dados. Integridade, concorrência, desempenho, recuperação, backup, indexação, histórico e qualidade continuam existindo, ainda que parte da complexidade seja absorvida por serviços gerenciados. Com o uso da IA, uma vez que os modelos são alimentados com os manuais disponíveis dos grandes sistemas gerenciadores de banco de dados, como Oracle, SQL Server, PostgreSQL e MySQL, questões como controle de concorrência, tipos de armazenamento e métodos de indexação, entre diversas outras, podem ter soluções apresentadas pelos modelos de linguagem, mas ainda assim necessitam de um especialista para avaliá-las antes da execução.
"O mercado muda de nome, de plataforma e de escala, mas o dado continua precisando ser compreendido. Lembro de um sistema de que participei em que existia um campo chamado município na tabela de infração. O sistema atendia a três órgãos diferentes e o representante de cada um apontou um entendimento distinto sobre o que era esse município. Na verdade, foi necessário criar três campos: um para o município do infrator, um para o município do local da multa e um para o município do órgão autuador.”, diz Leal.
A projeção da Brasscom ajuda a dimensionar o impacto econômico dessa discussão. Além dos aportes previstos em nuvem e IA, o estudo aponta investimentos em big data & analytics, segurança da informação, internet das coisas e robótica. Em 2025, somente o mercado de nuvem chegou a R$ 85 bilhões, com crescimento de 35,5%. O avanço aumenta a quantidade de sistemas, fontes e fluxos de informação que precisam ser administrados.
É nesse ponto que a experiência de Ricardo com Business Intelligence ganha relevância sem deslocar o foco para uma única tecnologia. BI depende de dados históricos que saem de ambientes operacionais, passam por processos de integração e transformação e chegam a estruturas preparadas para análise. Kimball, referência em modelagem dimensional, mostram que a construção de ambientes analíticos exige decisões sobre granularidade, fatos, dimensões e histórico. Em outras palavras, a qualidade de um painel (Dashboard) começa muito antes da visualização.
A Geomática também aparece na trajetória de Ricardo Leal por esse mesmo eixo. Em vez de ser tratada como uma especialidade separada, ela se conecta ao armazenamento e tratamento de informação geográfica. Dados espaciais são amplamente integrados aos principais gerenciadores de bancos de dados como objetos complexos, possibilitando mesclar consultas descritivas com funções espaciais. Eles utilizam o padrão SFA da OGC, que se tornou a norma ISO 19125. Trata-se do padrão de feições simples do Consórcio Geoespacial Aberto, que define essas especificações.
"Quando se fala em dados, quase não há mais limites para o que se quer perguntar, e os bancos de dados devem ser capazes de responder. Dessa forma, cada vez mais tecnologias são absorvidas pelos bancos. Talvez você queira saber um dia que pessoa, dada sua imagem, passou a 50 metros de distância de um ponto, dada sua posição geográfica; que tem mais de 18 anos, dado seu dado descritivo; que possui uma rede de amigos, dado o grafo de uma mídia social; e que tem o mesmo padrão de voz, dado um áudio fornecido.”, afirma Leal.
Com a expansão prevista para os próximos anos, o debate tende a sair cada vez mais do departamento de tecnologia. Dados sustentam decisões financeiras, operações, automação, serviços digitais e modelos de IA. Para empresas e instituições, investir em capacidade computacional sem desenvolver uma arquitetura confiável de informação pode significar ampliar velocidade sem ampliar necessariamente a qualidade das decisões.
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