Edinázio Vieira. Arte: Portal de Prefeitura
O mundo é fake produzido por nós. O mundo é subjetivo, é abstrato, formado por sistemas idealizadas e compulsivos.
Cada pessoa contribui com seu próprio universo; nessa idealização, o humano habita, cria os seus mitos e as suas “realidades”.
Existem conceitos de mundo para todos os gostos, contudo, a ciência contemporânea contribui para que eu me expresse nesse sentido.
Essa vivência embrionária formata o terreno para a construção do mundo onde esse futuro habitante terráqueo vai viver, com percepções sempre influenciadas por essa gestação.
Cada sensação, cada vibração, cada pequeno movimento do corpo materno contribui para moldar esse primeiro território subjetivo. Não é apenas um estágio biológico, mas sim uma experiência psíquica ativa que prepara o indivíduo para o mundo. Tudo o que ele percebe nesse período, mesmo que de forma sutil, vai influenciar a maneira como sentirá, pensará e se relacionará com o mundo.
O mundo intrauterino é também subjetivo, pois, ao contrário de vários teóricos — como Freud, que atrela o inconsciente a outros fatores, e Jung, que fala de uma espécie de DNA espiritual — sigo em estilo próprio, apoiado nas observações da minha experiência clínica. A partir dela, percebo que as lamentações humanas têm origens profundas, tais como o desconforto ligado à própria formatação no surgimento.
Na origem da psique, posso enveredar por caminhos observatórios ao perceber que as relações sexuais são complexas do ponto de vista emocional. Reich insinua que a forma como ocorre a relação sexual entre os parceiros pode influenciar na formatação do sujeito.
Numa conversa com o pesquisador e psicanalista Edmar Jacinto, ele fez uma alegação bastante intrigante: muitos humanos preferem fugir da evolução, buscando próteses que substituam a relação intrauterina. Já na vida adulta, buscam uma segurança inegociável, trilhando caminhos como os concursos públicos, que funcionariam como uma espécie de útero. Oliver Sacks, na sua obra
“O homem que confundiu sua mulher com o chapéu”, exibe casos ocorridos na clínica neurológica, mostrando a cartografia do cérebro.
O que ocorre dentro dessa máquina chamada “cérebro”? “Com frequência existe uma certa confusão quanto aos fantasmas — se deveriam ou não ocorrer, se são ou não patológicos, se ‘reais’ ou não. A literatura é confusa, mas os pacientes, não — e eles esclarecem o assunto descrevendo diferentes tipos de fantasmas. [...] Um homem que sofreu uma amputação acima do joelho fez-me a seguinte descrição: ‘Há uma coisa, um pé fantasma, que às vezes dói como o diabo [...]. Some quando coloco a prótese e ando. Então sinto a perna, vividamente, mas é um fantasma bom, diferente — ele anima a prótese e me permite andar.’” Partindo dessa narrativa, constatada por um neurologista, adiciono minhas experiências clínicas de psicanalista: há duas décadas me deparo com mundos fantasmas e fakes. A mente que é construída em cima de pilares subjetivos, ao contrário das estruturas neurais do cérebro, faz as suas piruetas, inventando dores, criando membros e dando asas ao somático.
Chamo essas, minhas narrativas, de cartografias da mente. Daí a criação de pilares para o mundo subjetivo, aqueles que inventamos.
Na concepção da vida intrauterina, na gravidez, há um caminho para a construção simbólica desse mundo: o acolhimento de fato, desde a placenta, quando a ovulação atrai o espermatozoide.
Surgindo então o ovo, na fase da fecundação ocorrem vários processos biológicos; contudo, o processo psíquico se inicia, pois, a herança psíquica dos parceiros se “gruda” hipoteticamente para a formatação do processo bioquímico.
Assim, vejo os passos para a construção das nossas fakes, produzidas pela mente. O cérebro, segundo a neurociência, cria a sua própria realidade.
A mente é pura fantasia. O cérebro não cria a realidade apenas a partir de elementos concretos e conhecidos pela ciência, como a matéria, a luz e o processo de captação luminosa pelos olhos. Há também processos metafísicos que interferem, e a experiência vivida pelo humano que orienta esse processo.
Tudo que foi adicionado desde a gravidez até o momento da experiência no chamado “mundo real” irá nortear o seu real, ou seja, a sua fake verdadeira. Chego à conclusão de que essa adoração ou paixão do humano pelas mentiras tem tudo a ver com o mundo vivido da ilusão dos fantasmas e até dos sintomas.
Até onde vivemos e habitamos no mundo físico? Até onde sentimos dores e morremos? Uma conexão entre o sistema límbico e o córtex cingulado age como robô, não diferenciando o alho do bugalho. Ou seja, estamos habitando num barril de fake? Todo esse enunciado me permite enxergar a fragilidade humana. O inconsciente fabrica mundos correndo das relações interpessoais e criando artifícios para permanecer no controle. Basta observarmos as relações entre dirigentes das potências mundiais: esses governantes buscam impor fantasias, alucinações e delírios, empurrando os terráqueos para viver em um mundo formatado. Antes usava-se a força — bem conhecida no reino animal.
Nesta década, usam-se a persuasão e outras técnicas de adestramento cognitivo para acorrentar a população. Analisando os pontos citados, percebemos que o terreno — ou o material — para a construção dos mundos individuais está sempre disponível, não apenas no início da vida, mas sobretudo desde a relação sexual dos pais que dá origem à gravidez.
A criação desse mundo, que carregamos até o túmulo, é inconsciente. Talvez toda essa “tragédia” já tenha sido percebida por Nietzsche, que preferiu permanecer na loucura. A escolha, por vezes, pode ser decidida pelo sujeito quando este alcança o autoconhecimento: morrer numa cela criada por si mesmo, vivendo em limitação, ou viver numa gaiola construída por outro.
3
05:53, 13 Fev
24
°c
Fonte: OpenWeather
Quando um homem agride, ameaça ou mata uma mulher, ele não age por ignorância, mas por convicção de que poderá recuperar sua liberdade em pouco tempo.
São os guerreiros das timelines, os soldados das notificações, os defensores da causa invisível.
"O fuxiqueiro sai da depressão e estimula a dopamina, mas isso deixa esse militante ansioso, pois fica com a "língua coçando" para contar e falar da vida do outro", diz colunista.
mais notícias
+