Pernambuco, 21 de Agosto de 2026

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Artigo: Quem é filósofo e quem não é?- Por Jason Medeiros

O escritor brasileiro Olavo de Carvalho faleceu no dia 24 de janeiro de 2022, aos 74 anos. Mas, uma pergunta permanece: afinal, Olavo foi ou não um filósofo? Espero contribuir com a minha singela opinião.

31 de janeiro de 2022 às 13:58

Quem é filósofo e quem não é?
“Quem tem faro poderá afirmar que já sente no ar o repentino despertar de uma filosofia brasileira. Apenas é muito pouco provável que um tal despertar ocorra nas faculdades de filosofia (que surgem quais cogumelos depois da chuva em inúmeras cidades), já que lá, como aliás no resto do mundo, apenas um número crescente de papéis eruditamente impressos enche gavetas. E lá, se surgir e quando surgir uma verdadeira filosofia no Brasil, esta será profissionalmente combatida, como cumpre a toda academia no mundo inteiro” Vilém Flusser (1920-1991), Fenomenologia do brasileiro (1994)
“Sapientiam autem non vincit malitia” (latim) “Pois a malícia não vence a sabedoria” (português)

Falar sobre Olavo de Carvalho não é uma tarefa fácil, principalmente sendo aluno de filosofia numa instituição federal de ensino superior (UFPE) e, especialmente, se não for para fazer troça dele, já que elas concentram uma quantidade consideravelmente maior que outras de agnósticos e comunistas (como é de experiência comum), e o Olavo foi além de um cristão fervoroso, um implacável anticomunista. Sendo assim, tentarei apresentar brevemente o que é a filosofia, o que são os filósofos, um pouco da obra de Olavo de Carvalho, se ele pode ou não ser enquadrado como tal, além das principais objeções feitas por aqueles que reduzem o valor e extensão da sua obra. A FILOSOFIA E OS FILÓSOFOS Os estudiosos sugerem que o termo filosofia tenha sido concebido pelo e matemático Pitágoras (570 a.C. – 495 a.C.). A filosofia é então a composição das palavras gregas filo (amor) + sofia (sapiência), ou seja, amor à sapiência, à sabedoria, à verdade, como já expressava o eros platônico no Banquete. No entanto, a posse da verdade, da sabedoria, é exclusiva de Deus, ou, no caso dos gregos, dos deuses. Isso significa que é reservado ao ser humano apenas a contínua aproximação da verdade, mas jamais sua posse plena e acabada, algo análogo aos paradoxos de Zenão (490 a.C. – 430 a.C.). É isso que indica Platão no seu diálogo Fedro, quando da questão levantada sobre que nome conviria a Sólon e Homero, e então Sócrates responde: “O nome de sábio, Fedro, me parece excessivo; só vai bem com referência a Deus; o de amigo da sabedoria, ou outra designação equivalente, além de modesto, conviria melhor”. Essa incapacidade humana de se atingir a verdade de forma plena e acabada é aquilo a que se refere Tomás de Aquino (1225-1274) quando fala que “Nenhum filósofo jamais foi capaz de compreender completamente uma mosca”, e também Wilhelm Dilthey (1833-1911) quando diz “As exigências que se apresentam ao filósofo são irrealizáveis. Um físico é um ser agradável, útil para si e para outros. O filósofo existe, tal como o santo, somente como ideal”. Um dos maiores filósofos da história, G.W.F. Hegel (1770-1831), renova essas ideias na sua Enciclopédia das Ciências Filosóficas: Em Compêndio: Volume I: A Ciência da Lógica (1830), dizendo o que segue: “A filosofia não tem a vantagem, de que gozam as outras ciências, de poder pressupor seus objetos como imediatamente dados pela representação; e também como já admitido o método do conhecer – para começar e para ir adiante. Em primeiro lugar, a filosofia tem, de fato, seus objetos em comum com a religião. As duas têm a verdade por seu objeto, decerto no sentido mais alto: no sentido de que Deus é a verdade, e só ele é a verdade. Além disso, ambas tratam do âmbito do finito, da natureza e do espírito humano, de sua relação recíproca com Deus, enquanto sua verdade.”. É evidente que nem todos os filósofos são teístas no sentido estrito, mas é patente que todos eles estão em busca de verdades definitivas, de estruturas da realidade, mesmo no caso dos céticos que creem absolutamente na impossibilidade de se conhecer verdades absolutas, pois, como já dizia Sócrates no diálogo Górgias que a “verdade não admite contestação!”, ou seja, quem tenta negá-la, relativizá-la, ou suspendê-la, a utiliza na própria negação, relativização, e suspensão, tal como ensina o princípio de não contradição parmenídeo. Mais ainda, de acordo com Giovanni Reale e Dario Antiseri em Filosofia: Antiguidade e Idade Média, vol. 1 (2013), os grandes filósofos também são os gênios das grandes ideias, por exemplo:

  • Platão (428 a.C. – 348 a.C.) e o Mundo das Ideias;
  • Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) e o conceito de Ser;
  • Plotino (205-270) e a concepção do Um;
  • Agostinho (354-430) e a “terceira navegação” no Madeiro da Cruz;
  • Descartes (1596-1650) e o Cogito;
  • Leibniz (1646-1716) e as Mônadas;
  • Kant (1724-1804) e o Transcendental;
  • Hegel (1770-1831) e a Dialética;
  • Marx (1818-1883) e a Alienação do Trabalho;
  • Kierkegaard (1813-1855) e o Indivíduo;
  • Bergson (1859-1941) e a Duração;
  • Wittgenstein (1889-1951) e os Jogos de Linguagem;
  • Popper (1902-1994) e a Falsificacionismo, e assim por diante.

E, para o filósofo Eric Voegelin (1901-1985), em Ordem e História: Volume III: Platão e Aristóteles (1957), o filósofo é: “o homem que resiste ao sofista; o homem que tenta desenvolver a ordem reta em sua alma pela resistência à alma doente do sofista; o homem que pode evocar um paradigma de ordem social reta à imagem de sua alma bem-ordenada, em oposição à desordem da sociedade que reflete a desordem da alma do sofista; o homem que desenvolve os instrumentos conceituais para o diagnóstico da saúde e da doença na alma; o homem que desenvolve os critérios da ordem reta, apoiando-se na medida divina com que a alma está sintonizada; o homem que, como consequência, se torna o filósofo no sentido mais estrito do pensador que apresenta proposições referentes à ordem reta na alma e na sociedade, afirmando para elas a objetividade da episteme, da ciência — uma afirmação que é duramente contestada pelo sofista cuja alma está sintonizada com a opinião da sociedade”. Ou seja, em linhas gerais, mas absolutamente grosseiras, os filósofos são aqueles sujeitos que estão em busca da Verdade, tentando traduzir a realidade através das palavras (escritas ou faladas, vide Sócrates), se opondo muitas vezes a opinião pública que comumente repousa na aparência contingente. OLAVO DE CARVALHO (1947-2022) Falecido no último dia 24 (segunda-feira), aos 74 anos, Olavo foi um homem de grandes ideias, as quais pretendo indicar, mas não descrever, tendo em vista que o texto tomaria proporções exageradamente desnecessárias. Dentre as suas principais ideias (quando não originais, reformulações e adaptações próprias), temos:

  • Conhecimento por Presença
  • Mentalidade Revolucionária;
  • Sujeito da História;
  • Translatio Imperii;
  • Teoria das doze camadas da personalidade;
  • Teoria das cinco camadas do eu (presencial, social, biográfico, substancial e reflexivo);
  • Intuicionismo radical;
  • Tripla intuição originária (sensível, psíquica e racional);
  • Teoria dos quatro discursos (poético, retórico, dialético e analítico);
  • Método de Confissão;
  • Teoria do poder (comercial, militar, político e espiritual ou intelectual);
  • Paralaxe Cognitiva;
  • Trauma de emergência da razão;
  • Círculo de latência;
  • Teoria do direito como garantia;
  • Metacapitalismo;
  • Marxismo cultural; etc.

Além disso, Olavo tem mais de 30 livros publicados (https://videeditorial.com.br/olavo-de-carvalho), e tantos outros para serem publicizados postumamente; mais de 500 aulas gravadas do seu Seminário Online de Filosofia (https://lp.seminariodefilosofia.org/); um podcast, o True Outspeak, com mais de 250 episódios (https://open.spotify.com/show/3nsMmbKanv0lsk7npi8Rvb); centenas de artigos escritos nos maiores jornais do país (https://olavodecarvalho.org/category/artigos/); etc. Olavo de Carvalho também renovou o mercado editorial brasileiro, apresentando uma série de autores esquecidos, ou mesmo não conhecidos, pela elite intelectual brasileira como: Pe. Sertillanges (1863-1948), Roger Scruton (1944-2020), José Ortega y Gasset (1883-1955), Thomas Sowell (1930-), Michael Oakeshott (1901-1990), Leo Strauss (1899-1973), Anthony Daniels [Theodore Dalrymple] (1949-), Bernard Lonergan (1904-1984), Mortimer Adler (1902-2001), Louis Lavelle (1883-1951), Émile Broutroux (1845-1921), Wolfgang Smith (1930-), Constantin Noica (1909-1987), Eric Voegelin (1901-1985), Nikolai Berdiaev (1874-1948), Nortthrop Frye (1912-1991), René Guénon (1886-1951), René Girard (1923-2015), Russell Kirk (1918-1994), Viktor Frankl (1905-1997), Andrew Lobaczewski (1921-2008), Xavier Zubiri (1898-1983), Christopher Dawson (1889-1970), Eric Weil (1904-1977), Michele Frederico Sciacca (1908-1975), Ludwig von Mises (1881-1973), A. James Gregor (1929-2019), Georges Bernanos (1888-1948), Mário Ferreira dos Santos (1907-1968), Pe. Leonel Franca (1893-1948), Otto Maria Carpeaux (1900-1978), Gustavo Corção (1896-1978), Vicente Ferreira dos Santos (1916-1963), Vilém Flusser (1920-1991), José Guilherme Merquior (1941-1991), entre tantos outros. Elogiado e reconhecido como filósofo e intelectual de grande envergadura por figuras como Ives Gandra, Jorge Amado, Carlos Heitor Cony, Paulo Francis, José Osvaldo de Meira Penna, Herberto Salles, Rodrigo Gurgel, Ângelo Monteiro, Roberto Campos, Bruno Tolentino, outros. Veja você mesmo: “Olavo é o mestre de todos nós” – Ives GandraAdmiro Olavo de Carvalho não apenas pelo alto valor de sua obra intelectual, que inclui livros importantes sobre a filosofia aristotélica, sobre o relacionamento entre Epicuro e Marx e sobre a ‘revolução cultural’ provocada por Gramsci, mas também pelo vigor polêmico com que está enfrentando o que ele mesmo classifica como as ‘atualidades inculturais brasileiras’.” –  J. O. de Meira Penna (1917-2017)Temível inteligência e imbatível domínio filosófico.” – Ângelo MonteiroOlavo de Carvalho vai aos filósofos que fizeram a tradição ocidental de pensamento, dando ao leitor jovem a oportunidade de atravessar esses clássicos.” – Paulo Francis (1930-1997)Estupendo. Sua obra tem como que o sopro de uma epopéia da palavra, a palavra destemidamente lúcida e generosamente insurgente, rebelde e justa, brava e exata.” – Herberto Sales (1917-1999)De reconhecida competência na área da filosofia, tem obtido grande sucesso tanto em suas pesquisas como no trato com seus alunos.” – Jorge Amado (1912-2001)Curiosamente, [Otto Maria] Carpeaux e Olavo [de Carvalho] não se conheceram. Um dos desencontros que eu considero mais cruéis do destino, uma vez que os dois, guardadas as posições radicalmente pessoais de cada um, tinham um approach idêntico da condição humana. Até mesmo na capacidade da exaltação e da polêmica. De minha parte, considero-me redimido por encontrar na presente edição das obras de Carpeaux o sonho que persegui durante anos mas para a qual não tive tempo e competência para realizá-lo.” – Carlos Heitor Cony (1926-2018)Inexaurível erudição e incontornável honestidade intelectual… O clarim de uma adiada e temida ressurreição da independência crítico-filosófica da nação.” – Bruno Tolentino (1940-2007)Filósofo de grande erudição.” – Roberto Campos (1917-2001)Olavo de Carvalho leva-nos mais longe na busca pela sabedoria, salientando que não esquecer nossa condição mortal é o ponto de partida da investigação metafísica. Aqui, ele ultrapassa a filosofia – e assemelha-se aos mestres da espiritualidade monástica, que recomendam a reflexão sobre a própria morte para curar uma das mais nocivas doenças da alma: a acídia.” – Rodrigo Gurgel Olavo não foi somente reconhecido por figuras nacionais como também por intelectuais além das nossas fronteiras. Das que consigo me lembrar no momento, o físico vienense Wolfgang Smith (https://olavodecarvalho.org/wolfgang-smith-sobre-olavo-de-carvalho/); o cientista político romeno Vladimir Tismaneanu; o cientista político russo Alexandre Dugin; os filósofos romenos Horai-Roman Patapievici e Gabriel Liiceanu; a americana professora Universidade de Pittsburgh Amy Diana Colin; o português professor da Universidade Católica de Lisboa Mendo Castro Henrique, entre outros. O filósofo brasileiro também foi premiado diversas vezes por suas contribuições à cultura:

  • 1983 – Seu ensaio O Pensamento de Ortega y Gasset recebeu o Primeiro Prêmio em concurso instituído pela Embaixada do Reino da Espanha para celebrar o centenário de nascimento do filósofo José Ortega y Gasset;
  • 1986 – Seu livro O profeta da Paz. Estudos sobre a Interpretação Simbólica da Vida do Profeta Mohammed (Maomé), recebeu o Primeiro Prêmio num concurso de ensaios sobre história islâmica, instituído pela Embaixada do Reino da Arábia Saudita;
  • 25/08/1999 – Medalha do Pacificador, conferida pelo Comando do Exército Brasileiro;
  • 05/12/2000 – Comendador da Ordem Nacional do Mérito da Romênia, conferida por decreto do Presidente Emil Constantinescu;
  • 20/07/2001 – Medalha do Mérito Santos-Dumont, conferida pelo Comando da Aeronáutica;
  • 29/11/2011 – Medalha Tiradentes, conferida pelo então Deputado Estadual pelo Rio de Janeiro Flávio Bolsonaro;
  • 30/04/2019 – Ordem do Rio Branco, no grau de Grã-Cruz, conferida pelo então Presidente da República Jair Bolsonaro.

(https://olavodecarvalhofb.wordpress.com/2016/01/22/curriculum-vitae-de-olavo-de-carvalho/) Produziu-se um documentário explorando um pouco da sua vida e da sua obra, pelo cineasta recifense Josias Teófilo, intitulado como O Jardim das Aflições (2017), mesmo título de uma das suas mais famosas obras O Jardim das Aflições: De Epicuro à ressurreição de César: Ensaio Sobre o Materialismo e a Religião Civil (1995), e que pode ser assistido na plataforma digital de filmes e séries da Amazon (Prime Video), além de outros dois documentários que estão sendo produzidos sobre sua vida e obra. Olavo, também participou de debates memoráveis, dos quais gostaria de indicar dois:

  • Debate entre Olavo de Carvalho e o Prof.º Alaor Caffé, na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) com título: Marxismo, Direito e Sociedade (2003), que se encontra transcrito nessas páginas:

(https://olavodecarvalho.org/marxismo-direito-e-sociedade-parte-i/) (https://olavodecarvalho.org/marxismo-direito-e-sociedade-parte-ii/) (https://olavodecarvalho.org/marxismo-direito-e-sociedade-parte-iii/) (http://olavodecarvalho.org/marxismo-direito-e-sociedade-parte-iv/)

  • E o debate entre Olavo de Carvalho e o Cientista Político Russo Alexandre Dugin, com o título: Os Estados Unidos e a Nova Ordem Mundial (2011), que foi posteriormente publicado como livro em português, inglês e romeno:

(http://debateolavodugin.blogspot.com/) (https://olavodecarvalho.org/debate-com-duguin-i/) (https://olavodecarvalho.org/debate-com-duguin-ii/) (https://olavodecarvalho.org/debate-com-duguin-iii/) Em 2016, o filósofo romeno Horai-Roman Patapievici foi entrevistado por Ion Ionita na TV Adevarul. O tema da entrevista foi o debata entre Olavo de Carvalho e Alexandre Dugin, que acabava de ser traduzido e publicado em romeno. Num dado momento da conversa, o entrevistador pergunta: “Gostaria de precisarmos quem é Carvalho? Dugin é mais conhecido, e já falamos dele. Mas quem é o filósofo brasileiro?”, o que Patapievici responde: “Eu o definiria do seguinte modo, muito polemicamente: ele é o contrário absoluto de uma pessoa institucionalizada. [...] um filósofo puramente privado como os gregos antigos [...] No passado, quando os gregos lançavam uma escola filosófica, em Atenas, por exemplo, procuravam um terreno ou era de propriedade de um deles e ali abriam algo: havia o Jardim de Epicuro, havia a Stoá Poikilé, dos estóicos, havia o Liceu de Aristóteles e a Academia de Platão. Todos esses são “terrenos” que os filósofos tinham e ali a escola filosófica. Ele [Olavo de Carvalho] comprou uma quinta e ali tem um jardim filosófico, mas que está na internet. Tem cerca de 3.000 alunos, pela internet, onde leciona filosofia em temas que define em função de seu interesse. É um homem tecnicamente muito bem preparado, vê-se extraordinariamente bem neste livro como à retórica inflamada, algumas vezes delirante e não baseada em argumentos, mas por estímulo da sensibilidade (defini deste modo o estilo de Dugin), a este estilo se lhe opõe o estilo de realeza da tradição da racionalidade crítica ocidental, ou seja, argumentos, reunião de silogismos e informação sólida. Se o senhor observar, se observares, Ion, como Dugin faz citações, ele cita os livros em função do prestígio deles, ou seja, os livros por ele citados são clavas, são tapas, murros, são argumentos de autoridade. Por causa disso ele cita o autor, o título e, eventualmente, dá o ano, ao passo que Carvalho cita a página, o capítulo, e sempre não como um argumento de autoridade, mas como um fato ou um argumento em apoio ao que disse”. (https://olavodecarvalhofb.wordpress.com/2016/11/21/entrevista-do-filosofo-horia-roman-patapievici-a-tv-adevarul/) Mesmo tendo posicionamento político diametralmente oposto ao de Olavo, Alexandre Dugin lamentou profundamente a sua morte: “Infelizmente hoje o Brasil teve uma das suas maiores perdas no campo acadêmico, um professor que era contra a escola liberal implantada no Brasil, que procurava mudar a cosmovisão brasileira, uma das pessoas mais importantes no campo filosófico do mundo”. E antes que se fale sobre o possível mal uso da palavra “acadêmico” para se referir ao pensamento de Olavo de Carvalho, é importante relembrar das palavras de Joseph Pieper (1904-1997) em Que é filosofar? (1995): “Todavia, esse aspecto negativo é só uma face daquela incomensurabilidade. A outra face chama-se: liberdade. A filosofia é ‘inútil’ no sentido de aproveitamento e aplicação imediatos – isso é um lado. O outro consiste no fato de a filosofia não se deixar usar, de não ser disponível para fins que estejam fora dela mesma, de ser ela mesma um fim. Filosofia não é um saber de funcionário, mas, como disse John Henry Newman, saber de gentleman. Não saber ‘útil’, mas ‘livre’. Essa liberdade, porém, significa que o saber filosófico não recebe legitimação a partir de sua utilidade e de sua aplicabilidade, de sua função social, de sua referência à ‘utilidade comum’. Exatamente nesse sentido era pensada a ‘liberdade’ das artes liberales, artes livres – em oposição às artes serviles, artes servis, que tal como afirma Tomás de Aquino, ‘são ordenadas para uma utilidade a ser alcançada mediante uma atividade’. Filosofia, porém, é desde sempre entendida como a mais livre entre as artes livres (as ‘Faculdades dos artistas’ [Artistenfakultät], assim denominadas na Idade Média segundo as artes liberales, são idênticas às atuais Faculdades de Filosofia [Philosophischen Fakultät]). Assim, se digo que o ato filosófico ultrapassa o mundo do trabalho ou se digo que o saber filosófico é inutilizável ou, ainda, que a filosofia é uma ‘arte livre’, digo sempre a mesma coisa. Essa liberdade cabe às ciências particulares somente na medida em que são empreendidas de modo filosófico. Aqui se encontra também, tanto histórica como objetivamente, o sentido autêntico da liberdade acadêmica (pois ‘acadêmico’ significa ‘filosófico’ – do contrário não significa nada!). Pretensão à liberdade acadêmica, rigorosamente, só pode existir enquanto o acadêmico mesmo é realizado no sentido ‘filosófico’. É assim também do ponto de vista histórico: a liberdade acadêmica perde-se exatamente no mesmo grau em que se perde o caráter filosófico do estudo acadêmico ou, dito de outro modo, na medida em que a pretensão de totalidade do mundo do trabalho conquista o espaço da universidade. Aqui se encontra a raiz metafísica do problema, a assim chamada ‘politização’ é somente consequência e sintoma. Com certeza, deve-se notar neste ponto que isso é com toda precisão o fruto justamente da própria filosofia, da filosofia moderna!”. UM GURU E UM ANTIFILÓSOFO? O professor de Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Dr.º Filipe Campello, escreveu um artigo para a Folha de São Paulo em 17/04/2019 intitulado O antifilósofo, que foi replicado em 18/04/2019 no site da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia. (https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2019/04/o-antifilosofo.shtml) (https://www.anpof.org.br/comunicacoes/coluna-anpof/o-antifilosofo) Escolhi esse artigo por duas razões: a primeira é que ele reúne as principais e mais comuns críticas feitas a Olavo de Carvalho; e a segunda que o referido professor tem a titularidade acadêmica considerada “adequada” para tratar do assunto. A chamada da matéria é “quem se coloca como guru age contra o próprio exercício filosófico”, sugerindo, e depois dizendo expressamente, que Olavo se coloca como guru, no caso, do governo Bolsonaro, e que um guru é um antifilósofo por excelência, já que defende verdades acabadas. Ora, dessa primeira frase, que é a espinha dorsal do texto, já podemos identificar alguns problemas. O primeiro deles é que Olavo de Carvalho jamais se colocou como guru do governo, e isso não só é notório e público, como é o exato oposto do que pode ser auferido na realidade. O papel que Olavo de Carvalho desempenhou foi o de crítico cultural durante os vinte anos anteriores à eleição de Bolsonaro em 2018, influenciando certamente a massa de pessoas que votaram 17. Além disso, após a vitória à corrida presidencial, durante a formação do governo, Olavo de Carvalho indicou, salvo engano, dois candidatos que vieram a ser ministros da gestão, o Ministro da Educação Ricardo Vélez Rodríguez e o Chanceler Ernesto Araújo. Tirando isso, a influência de Olavo no governo Bolsonaro foi indireta, por meio de criticas e elogios que ele tecia em suas redes sócias, como sempre havia feito nos governos anteriores, e alunos ou simpatizantes que puderam compor os escalões inferiores do governo, mas jamais como “guru”, muito menos se colocando de tal forma, na realidade Olavo sempre se colocou como “não guru” do governo. O segundo problema é que, apesar do professor Campello ter razão ao afirmar que a filosofia é uma busca constante da verdade, que jamais pode ser alcançada de forma definitiva, isso não significa que as obras filosóficas não são ensinamentos daqueles que as escrevem e que os consideram verdadeiros. O terceiro problema que vejo é que a palavra “guru” tem sido usada de modo depreciativo e sem critério. O termo guru deriva do sânscrito, e significa um mestre no hinduísmo e no budismo, que possui conhecimento de linha filosófica e espiritual, além de significar, por extensão, professor, tutor, etc. Ou seja, na realidade a palavra guru não é sinônima, mas se comunica intimamente com o conceito de filósofo, inclusive temos um caso emblemático na história da filosofia. O próprio Aristóteles, por exemplo, pode ser considerado o guru de Alexandre III da Macedônia, o Grande (356 a.C. – 323 a.C.) durante a sua juventude, visto que foi o seu professor nas mais diversas artes filosóficas. Eu não vejo problema algum em utilizar a palavra guru numa conotação negativa, só acho curioso como a esquerda a tem utilizado dessa forma, quando claramente está violando suas próprias regras de policiamento da linguagem, uma vez que o termo possivelmente ganhou conotação negativa com a globalização e consequente importação de práticas de religiões orientais pelos ocidentais, como modo de rejeitar aquelas. O professor segue fazendo associações indevidas entre questões pseudocientíficas, teorias conspiratórias e o Marxismo Cultural. Não poderei, nesse texto, discorrer sobre o assunto, apenas posso afirmar com convicção (e posterior demonstração) que isso é um erro. Continua sugerindo que a filosofia do Olavo é contra a dignidade da pessoa humana, e que tanto pessoas de direita como de esquerda, devedoras da tradição liberal (da qual supostamente deriva princípio da dignidade da pessoa humana), devem rechaçar essa filosofia. Apesar de Kant ter formulado o princípio da dignidade humana na sua Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785), ele já pode ser localizado desde pelo menos a Bíblia, que o expõe em diversas passagens, como assegura o filósofo Roger Scruton, e outros. Mas não só isso, a influência da moral kantina na Revolução Francesa (1789) é clara, e todos sabem o que foi o período de terror que se seguiu à revolução, muito bem alertado por Edmund Burke (1729-1797) nas suas Reflexões sobre a Revolução na França (1790), e criticada por Hegel posteriormente nas suas obras. O professor sugere também que para ser considerado filósofo é comum seguir o processo escolar regular, ou seja, bacharelado e/ou licenciatura, mestrado e doutorado, assim como ele faz e eu pretendo fazer. Além de por à prova as suas teses à comunidade acadêmica. Para ser justo com Campello, ele não considera que isso seja absoluto, mas defende que é o mais comum, desde pelo menos a Idade Moderna. Porém, quando se trata de filosofia, penso eu, o que o professor diz é ainda mais distinto se comparado às outras ciências, pois a filosofia é o fundamento de todas as outras, inclusive de si própria (metafilosofia), portanto, como já explicitado acima, é a ciência livre por excelência e, nesse sentido, será sempre mais comum ver um filósofo sem diploma que, por exemplo, um engenheiro ou um físico sem. É só nesse sentido, de acordo com o meu entendimento, que o professor Campello acerta ao dizer que o Olavo de Carvalho é um antifilósofo, pois de fato ele é um “antibacharel”, “antilicenciado”, “antimestre” e “antidoutor” em filosofia, pois, para Olavo, o filósofo não é aquele que possui um diploma universitário, mas sim aquele que se dedica a atividade filosófica seriamente, respeitando a tradição (status quaestionis – estado da questão) e o método filosófico, como ele ressalta no artigo que inspirou esse, publicado no Diário do Comércio em 07/05/2009 (https://olavodecarvalho.org/quem-e-filosofo-e-quem-nao-e/). Olavo deixa isso ainda mais claro em Visões de Descartes: Entre o Gênio Mau e o Espírito da Verdade (2013), pensamento o qual me filio: “Com exceção do tempo que consagrei a Aristóteles, para fins de educação e treinamento, nunca estudei uma filosofia para conhecer essa filosofia como tal, mas sim para conhecer, através dela, algo da realidade, do destino, da vida. Dito de outro modo, nunca tomei filosofia nenhuma como objeto de estudo, mas sempre como instrumento que me ajudasse a enxergar melhor o verdadeiro objeto das minhas preocupações. [...] No Brasil, por influência da ‘geração de predadores’ a que me referi em artigo de 2011, só é considerado filósofo quem se atenha aos fins, temas e métodos convencionais do ensino acadêmico cada vez mais deficiente ou quem, afastando-se deles porventura, o faça no intuito de ‘transformar o mundo’ num sentido que tem de ser, é claro, o desejado pelos professores. Aqueles que filosofam como Alain, como Sócrates, como Agostinho ou – mais ainda – como Descartes são rejeitados para as trevas exteriores do ‘beleterismo’, do ‘amadorismo’ ou do ‘ensaísmo’, ainda que revelem, como era o caso do saudoso Mário Ferreira dos Santos (não pretendo que seja o meu), um domínio das disciplinas acadêmicas muito superior ao dos seus concorrentes ‘profissionais’. Nesse quadro paradoxal, os filósofos de verdade – um Miguel Reale, um Vilém Flusser e os dois Ferreiras, Mário e Vicente – são oficialmente não-filósofos; e, por sua vez, os não-filósofos, os burocratas da filosofia, são chamados de filósofos precisamente porque não têm filosofia nenhuma e sim, em vez disso, a licença estatal para ensiná-la. A comicidade desse estado de coisas não escapou a alguns visitantes estrangeiros, Enzo Paci e Luigi Bagolini entre outros, como não escapará a ninguém que medite a advertência de Nicolás Gómez Dávila: ‘Quanto maior seja a importância de uma atividade intelectual, mais ridícula é a pretensão de avalizar a competência de quem a exerce. Um diploma de dentista é respeitável, mas um de filósofo é grotesco’”. Uma obra muito recomendada para estudantes de filosofia, e que se comunica com o “método filosófico” (se é que podemos chamar assim) de Olavo é A filosofia a partir dos seus problemas (2003) do professor Mario Ariel González Porta. Ao final, a impressão que fica é que o professor Campello cometeu um dos graves erros estudados na lógica informal, que é a falácia do espantalho, ou seja, o professor criou um “Olavo saco de pancada”, para não enfrentar o filósofo real, para que pudesse bater sem receber o revide, pois atacou-o sem citar ou analisar de forma pormenorizada qualquer uma das suas ideias mais relevantes, constituintes da sua obra filosófica, o que é contrário a outra tese assertiva do professor, de que o filósofo deve estar disposto a receber críticas, e acrescento, inclua-se nisso a possibilidade de crítica da crítica.   UM HOMEM HISTÓRICO! O filósofo Max Scheler (1874-1928) no texto Visão filosófica de mundo (1928) diz que as “massas nunca serão filósofos”, pois os filósofos são aqueles que, por meio da razão, tentam investigar a estrutura da realidade, formando uma visão filosófica de mundo, a qual as massas irão herdar, assim como as cosmovisões religiosas ou do senso comum. Scheler diz ainda que a filosofia pertence e sempre pertenceu às elites, que normalmente se reúnem em torno de uma personalidade extraordinária (pensador/filósofo), e por essa razão influenciam diretamente o curso da história, uma vez que as elites conduzem a história. Ele usa como exemplo da sua afirmação a influencia exercida pelo pensamento de Platão e Aristóteles na história da igreja, e as de Kant e Hegel na Alemanha do século XIX, e eu acrescento com a influência de Marx e Engels nas revoluções políticas do século XX. Hegel também fala algo semelhante em sua obra A Razão na História: Uma Introdução Geral à Filosofia da História, quando ele trata da Astúcia da Razão, e o que ele chama de homem histórico. Para Hegel, o homem histórico é aquele que provoca mudanças no rumo da história por meio das suas ações. A ação do homem histórico entra para história porque ele resolve agir com fins próprios, mas não percebe que fazendo isso, ele está realizando um anseio que é de todos, chamado por Hegel de espírito do tempo (zeitgeist). É como se ele estivesse sentindo as aspirações do coletivo naquele momento, e termina por atender essa aspiração coletiva sem perceber. Mas, toda vez que alguém encarna essas aspirações, porque está apaixonado pelo seu ideal, seu projeto, e ele o conquista, tende a ser rechaçado, pois feriu o espírito do mundo (weltgeist), o poder dominante em determinado momento da história, o que o difere do pensamento de Scheler. Sendo assim, Olavo de Carvalho foi uma verdadeira personalidade filosófica, influenciadora da história, no sentido schereliano, mas se opondo a elite, e por isso também foi um verdadeiro homem histórico, no sentido hegeliano. Por meio do seu anseio de reestabelecer aquilo que ele entendia como alta cultura, e de ver surgir uma direita no campo político que pudesse equilibrar a Janela de Overton, Olavo trabalhou ativamente, como já vimos, por meio de teses, aulas, palestras, debates, livros, etc., para o cumprimento do seu objetivo pessoal, e foi consequentemente rechaçado pela hegemonia cultural criada pela elite intelectual vigente. De fato, Olavo conquistou ao menos um dos seus objetivos, que foi o surgimento de um debate público um pouco mais plural, e não somente os “50 tons” de esquerda. Desse modo ele influenciou, por meio das suas ideias, toda uma geração, e mudou definitivamente o curso da história recente do Brasil, sendo responsável em alguma medida expressiva pelo impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff e pela vitória do atual presidente Jair Bolsonaro. Ele, por meio do seu objetivo pessoal, arregimentou o anseio popular de uma virada política, que mudava pouco ou quase nada desde a redemocratização do país em 1988. O Olavo somente não viu o surgimento da famigerada elite intelectual que pretendia formar, mas isso possivelmente acontecerá nas próximas décadas, por influencia da sua obra, e os professores de humanidades que não forem atentos a isso, não levarem essas palavras a sério, ficarão defasados, pois em pouco tempo o status quaestionis da filosofia brasileira será outro.   POR FIM... Um dos seus mais proeminentes alunos, Ronald Robson, doutorando em Teoria e História Literária pela Unicamp, e autor do livro Conhecimento por Presença: Em torno da Filosofia de Olavo de Carvalho (2020), ao ser questionado na sua rede social (instagram) se “Olavo está ao lado dos maiores filósofos da história?”, respondeu: Giambattista Vico é um dos maiores filósofos que já houve? Não. E o Ortega y Gasset? Também não. Mas, assim como esses dois filósofos latinos, Olavo um dia terá posição assegurada entre aqueles que da margem cultural do globo lecionaram ao mundo civilizado e lhe sanearam a mente, dando-lhe novos assuntos, novas ferramentas e um renovado vigor. A ‘teoria dos 4 discursos’ é algo digno de um Vico (não sou o primeiro a dizer isso): a ‘teoria do sujeito da História’ e da ‘ideia imperial’ são dignas de um Ortega. Haverá aqueles que dirão que estou exagerando as dimensões do Olavo; haverá os que dirão que o estou subestimando. É porque no fim das contas pouco importa se ele é ‘grande’ ou ‘pequeno’. De fato, o primeiro a sugerir isso não foi o Ronald, mas sim o português Mendo Castro Henriques, professor da Universidade Católica de Lisboa, quando disse (sobre a tese apresentada por Olavo de Carvalho no livro Aristóteles em Nova Perspectiva: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos):

“Desde Giambattista Vico não surgia uma interpretação tão luminosa para acabar com a mistificação das ‘duas culturas’ [a das ciências da natureza e a das ciências humanas], e esta perpassada de um diálogo enriquecedor com comentadores de Aristóteles como Octave Hemelin, Werner Jaeger, Eric Weil, e autores convergentes nesta encruzilhada decisiva da história intelectual do Ocidente como Mary Louise Pratt, Chaim Perelman, Thomas Kuhn e Erwin Panofkski ”.

Entendo que o Ronald é assertivo na resposta da questão. Não considero razoável equiparar Olavo de Carvalho a Aristóteles, Sto. Tomás de Aquino ou Hegel, mas isso não o torna menos filósofo. Como vimos, durante todo o texto, Olavo de Carvalho é um autor de extensa e fecunda obra, contribuindo para o debate da filosofia política, social, da mente, epistemologia, lógica, psicologia, etc., com ideias valiosas, reconhecido no Brasil e no mundo, dentro e fora da academia, sempre em busca da estrutura da realidade que nos cerca. Sempre considero fundamental frisar, Olavo de Carvalho não é um deus, é um homem, um brasileiro, e que, como todo ele, possui uma série de falhas incorrigíveis, as quais devem ser reconhecidas pelo leitor honesto da sua biografia. Mas, nada disso o torna menos filósofo, (certamente é possível não gostar da sua filosofia, mas dessa premissa não decorre necessariamente que ela não seja filosofia) e o brasileiro que não levar a sério a obra de Olavo de Carvalho, não só está sendo afetado pelo famoso “complexo de vira-lata” formulado por Nelson Rodrigues (1912-1980), como não vai entender o cenário político-cultural brasileiro dessa e das próximas décadas. Que Deus possa perdoá-lo por seus pecados e guardá-lo na eternidade.

Todos os meus mortos queridos... eu não sinto saudade deles. Porque eles estão presentes, eles existem. Nada do que aconteceu ‘desacontece’. Aquilo que aconteceu aqui durante uma fração de segundo já está na eternidade, nunca mais volta ao não-ser.”. – Olavo de Carvalho (1947-2022)
Por Jason Medeiros,

Jason de Almeida Barroso Medeiros, 27 anos, Bel. em Direito pela UNICAP; Estudante de Filosofia na UFPE; Militar da Reserva do Exército Brasileiro; Jornalista com coluna no Portal de Prefeitura; Entusiasta da Política e editor do perfil @ocontribuinteoriginal no Instagram.

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