A revista Veja fez uma reportagem que mostra a piora dos indicadores no Nordeste sendo como consequência de uma alteração na geopolítica do crime: pela primeira vez desde 2020, o Rio não aparece entre os três estados mais violentos.

O “top 3”, segundo dados de janeiro a abril consolidados pelo Ministério da Justiça, são agora Bahia, Pernambuco e Ceará. O número de homicídios nesses estados foi maior do que o de locais mais populosos, como São Paulo, Rio e Minas Gerais, aponta a reportagem.

📲 Entre no nosso grupo de WhatsApp e receba as notícias do Portal de Prefeitura no seu celular

Continua após a publicidade:

Essa dificuldade no controle da criminalidade se tornou um problema político para os governadores Jerônimo Rodrigues (PT), Raquel Lyra (PSDB) e Elmano de Freitas (PT), que devem buscar a reeleição. O quadro pode influenciar o desempenho de seus aliados também na eleição municipal deste ano.

Para além disso, o fato de a crise ser no Nordeste amplia a encrenca política para Lula, porque a região é um histórico reduto eleitoral petista.

O problema só vai reforçar a desconfiança da população de que a esquerda, por razões ideológicas, tem muitas dificuldades de ser dura e eficiente no combate ao crime.

Facções dominam BAHIA, PERNAMBUCO e CEARÁ que formam o TOP 3 no ranking de HOMICÍDIOS do BRASIL
Facções dominam BAHIA, PERNAMBUCO e CEARÁ que formam o “TOP 3” no ranking de HOMICÍDIOS do BRASIL.

Bahia

A situação mais preocupante há algum tempo é a da Bahia. O estado não sai do primeiro lugar desde 2020 — só neste ano, foram 1 488 mortes. A expansão e fragmentação do crime organizado é uma das explicações. Segundo o Ministério da Justiça, catorze facções atuam nos presídios de lá.

A Bahia foi a terceira unidade da federação com mais apreensões de fuzis neste ano (28), atrás de Rio e São Paulo. O estado ainda carrega o título de polícia mais violenta — 1 701 mortes em 2023, um quarto do país. O cenário de guerra já impacta a popularidade de Jerônimo: em Salvador, a desaprovação a seu trabalho subiu de 35%, em janeiro, para 43%, em junho, segundo o instituto Paraná Pesquisas.

Continua após a publicidade:

Pressionado, o governador assinou, na terça 4, a criação do Bahia Pela Paz, um programa que visa reduzir as taxas de criminalidade com ações policiais integradas com políticas sociais, de educação, cultura, emprego e saúde.

Pernambuco

A pressão política não afeta apenas o governador da Bahia. Em Pernambuco, a crise de segurança fez com que Raquel Lyra trocasse os comandos das polícias Civil e Militar em janeiro. Antes, havia lançado o programa Juntos Pela Segurança, para reduzir em 30% os crimes até o fim de 2026.

A tucana ainda enfrenta a insatisfação de policiais civis, que pedem reajuste salarial, reclamam da falta de investimentos e de diálogo do governo com a categoria, e promoveram atos públicos de protesto na quarta-feira 5.

Ceará

O aumento da violência também mudou a cúpula da segurança no Ceará. Na segunda-feira 3, Elmano apresentou Roberto Sá como novo secretário de Segurança Pública — ele comandava a mesma pasta no Rio em 2018, quando o estado foi alvo de intervenção federal pelo presidente Michel Temer exatamente porque a violência estava fora de controle — ou seja, não parece uma manobra muito promissora.

Continua após a publicidade:

Ao empossar Sá, Elmano anunciou finalmente um comitê estratégico para combate ao crime, aumento do efetivo policial e investimentos em tecnologia. “Seremos implacáveis contra o crime”, disse. “Estaremos 24 horas atrás de criminosos”, ecoou Sá.

São medidas sensatas e na direção correta, mas que já poderiam ter sido tomadas bem antes de a situação sair do controle. Além disso, a prática precisa acompanhar o discurso — algo que nem sempre acontece.

O Nordeste sofre agora na carne a onda de violência relacionada à expansão do narcotráfico, em especial de duas facções criminosas: Comando Vermelho e PCC. Nas últimas quatro décadas, elas dominaram periferias do Rio e São Paulo e estenderam seus tentáculos para outros estados por meio de disputas territoriais sangrentas. As operações armadas são comandadas dos presídios, onde as condições precárias criam ambientes ideais para o recrutamento pelo crime organizado.

Grande parte do cenário no Nordeste se deve ao avanço das facções do Sudeste em busca de postos-chave para a exportação de cocaína para Europa e África, como as zonas portuárias de Salvador e Aratu (BA), Mucuripe (CE) e Recife e Suape (PE).

“Diversos estados do Nordeste tornaram-se rotas estratégicas para o escoamento da produção de drogas vindas dos países andinos”, diz José Luiz Ratton, coordenador do Núcleo de Estudos em Criminalidade, Violência e Políticas Públicas de Segurança da UFPE e pesquisador da Fiocruz Pernambuco.

A alta de mortes é reflexo de um narcotráfico fragmentado em grupos locais, que vêm firmando alianças com o CV e o PCC e travando confrontos cada vez mais frequentes. Um exemplo é o Bonde do Maluco, gangue formada em 2015 na Bahia, que se aliou ao PCC e hoje é considerada uma das organizações mais perigosas do país.

Embora a responsabilidade sobre a segurança pública seja principalmente dos governadores, o avanço das facções e do tráfico internacional tem cada vez mais jogado o problema no colo do governo central.

No atual mandato de Lula, tanto o ex-ministro da Justiça Flávio Dino quanto o atual, Ricardo Lewandowski, declararam “guerra” ao crime organizado. Para a população, a batalha por enquanto está sendo perdida.

Segundo a AtlasIntel, 53% desaprovam o trabalho de Lula nesse campo, o pior índice entre todas as áreas. Para complicar, seus aliados nos estados não estão dispostos a assumir sozinhos o ônus, como deixou bem claro Jerônimo Rodrigues.

A declaração reflete o nível a que chegou a crise de segurança no Nordeste. Na tentativa de salvar sua pele da saraivada justa de críticas, o petista Jerônimo resolveu sair atirando na direção do Palácio do Planalto — e, na parte que toca às responsabilidades dos companheiros de Brasília, está coberto de razão.