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Artigo: O que é Marxismo Cultural? – Por Jason Medeiros

O termo “Marxismo Cultural” já pode ser visto sendo utilizado n’outros lugares, mais remotos e improváveis do que se poderia imaginar à primeira vista

Marxismo
Marxismo Foto: Divulgação

O filósofo brasileiro Olavo de Carvalho (1947-2022) é notoriamente conhecido por suas críticas culturais e políticas realizadas, sobretudo, nos seus artigos de jornal e aparições públicas. No início da primeira década do nosso milênio, foi ele o responsável por introduzir o polêmico conceito denominado como “Marxismo Cultural” nas discussões sobre Filosofia e Ciência Política no Brasil. [1]

Apesar do Prof.º Carvalho ter sido pioneiro na difusão desse conceito na Terra de Santa Cruz, não foi ele quem o concebeu. O termo “Marxismo Cultural” já pode ser visto sendo utilizado n’outros lugares, mais remotos e improváveis do que se poderia imaginar à primeira vista, ao menos para aqueles que somente tiveram contanto com o termo a partir daquilo que foi veiculado na grande mídia nos últimos anos.

Por exemplo, pelo que consta, o primeiro a utilizar a expressão foi o professor norte-americano e pesquiador em Teoria Crítica, Trent Schroyer (1936-2018), na sua obra The Critique of Domination (1973). [2] Para Schroyer, marxistas-culturais seriam teóricos neo-marxistas como György Lukács (1885-1971), Herbert Marcuse (1898-1979), Jürgen Habermas (1929-), Henri Lefebvre (1901-1991) e outros, que notaram que a cultura industrial capitalista exercia forte dominação sobre o indivíduo, e por isso direcionaram suas críticas contra a cultura ocidental, o que ele entendeu como uma continuidade da Teoria da Crise de Marx.

O Prof.º Russell Blackford (1954-), investigando o uso acadêmico do termo “Marxismo Cultural”, também retoma a Schroyer, e faz as seguintes considerações:

Embora o termo seja frequentemente aplicado de forma pejorativa, tem um significado mais acadêmico que se liga à viragem cultural dentro do marxismo ocidental desde aproximadamente a década de 1920 e especialmente após a Segunda Guerra Mundial.

Esta mudança do comunismo de estilo soviético encontrou popularidade no final da década de 1950 com as críticas de esquerda à URSS (e a própria denúncia de Nikita Khrushchev ao seu antecessor, Joseph Stalin), e depois cresceu cada vez mais com o desenvolvimento dos estudos culturais como uma disciplina acadêmica (inicialmente no Reino Unido, com uma adesão inicial considerável na Austrália). [4]
[…]
O uso que Schroyer faz do termo “marxismo cultural” é o mais antigo que consegui encontrar, e ele relaciona-o especificamente com o que considera uma “teoria da crise” empregada pela Escola de Frankfurt de intelectuais marxistas. Ele também se refere a outros teóricos que considera compartilharem desta teoria da crise, como György Lukács e Henri Lefebvre. [5]
[…]
Schroyer foi, e é, um estudioso genuíno, apresentando uma tese que foi recebida e revisada com seriedade. Ele parece geralmente correcto na sua descrição do afastamento do marxismo ocidental do marxismo soviético, com ênfase na crítica cultural e num conjunto diferente de atitudes em relação à própria cultura.

Mais especificamente, o desmascaramento da cultura como cúmplice da dominação social do indivíduo era uma ideia central nas ambições intelectuais da Escola de Frankfurt. Ideias semelhantes de desmascarar e criticar o papel da cultura podem ser observadas de forma mais ampla no marxismo ocidental — e no que poderíamos chamar de “pós-marxismo ocidental” — pelo menos desde a década de 1920 até aos dias de hoje. [6]

Um outro exemplo que poderiamos dar é o do historiador norte-americano John Brenkman (1949-) que afirma que o “marxismo cultural é o projeto teórico e interpretativo que aborda a cultura em sua relação dialética com a totalidade social”. [7]

Ou seja, diversamente daquilo que é veiculado nos meios de comunicação de massa, e mesmo em enciclopédias virtuais como a Wikipedia, [8] o termo “Marxismo Cultural” não se refere a uma “teoria da conspiração anti-semita de extrema direita”, uma vez que nem o Schroyer, nem o Brenkman são anti-semitas partidáridos da extrema-direita norte-americana e que utilizam o termo de forma pejorativa para atacar as pautas políticas da esquerda, são sim acadêmicos que fazem uso do termo para designar um fenômeno histórico, intelectual e político, ocorrido entre intelectuais e partidários à esquerda do espectro político, e que naturalmente levou a manifestações culturais dessas ideias nas décadas que se seguiram.

Retomando ao Prof.º Olavo de Carvalho, vejamos agora como ele emprega o termo, as suas semelhanças e diferenças com aquilo que já apresentamos até aqui. Para Carvalho, o termo Marxismo Cultural designa uma espécie de Revolução Cultural, que seria um tipo de revolução que dá primazia a tomada de poder por vias intelectuais e culturais, e não militares ou políticas, exercendo influência indireta sobre as consciências dos indivíduos de uma sociedade, visando moldar seus comportamentos, valores, e respostas afetivas de acordo com o interesse de algum tipo de coletivo dirigente.

Não só isso, o filósofo também entende como Marxismo Cultural um ponto especifício da evolução histórica das ideias marxistas, localizadas, especialmente, nas obras de Lukács, Antonio Gramsci (1891-1937) e dos teóricos da Escola de Frankfurt. [9]

No artigo de 2002 escrito para O Globo, e que posteriormente foi inserido na obra A Nova Era e a Revolução Cultral (originalmente de 1994), Olavo de Carvalho narra a passagem de quatro períodos da história do marxismo: [10]

a) O Marxismo Clássico: seria aquele proposto por Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), e que via os proletários como inimigos naturais do regime capitalista;

b) O Marxismo Revisionista: seria aquele proposto por Eduard Bernstein (1850-1932), que buscava rever as ideias de Marx sobre a transição do capitalismo para o socialismo, entendendo que a força não era necessária para realização dessa passagem de um para o outro;

c) O Marixsmo Soviético: seria aquele proposto por Lênin (1870-1924), e que teria acrescentado à doutrina clássica a ideia de que o imperialismo era fruto da luta capitalista pela conquista de novos mercados, logo, os proletários também seriam inimigos das nações imperialistas; e que foi levado à cabo na condução da União Soviético por Stálin (1878-1953) nos anos que se seguiram a morte de Lênin;

d) O Marxismo Cultural: seria aquele proposto por Lukacs, Gramsci e pelos teóricos da Escola de Frankfurt, e que teriam sido fruto das previsões não realizadas dos marxismos anteriores.

Olavo ainda ressalta que às ideias de Lukács, Gramsci e dos frankfurtianos, foram acrescidos os desenvolvimentos do desconstrucionismo francês e o policiamento da linguagem do politicamente correto oriundo das academias norte-americanas. [11]

Vale ressaltar que Olavo considera que o termo Marxismo Cultural pode mascarar diferenças fundamentais entre correntes distintas do movimento revolucionário, por exemplo, enquanto Marcuse e Gramsci estavam empenhados no combate de alguns traços da sociedade ocidental moderna, tendo em vista um futuro salvífico, o “trabalho do negativo” dos neo-hegelianos da Escola de Frankfurt não pressupunham nenhum futuro utópico. [12]

Por fim, o filósofo brasileiro diagnostica o que ele considera as consequências culturais dessas ideias:

Em poucas décadas, o marxismo cultural tornou-se a influência predominante nas universidades, na mídia, no show business e nos meios editoriais do Ocidente. Seus dogmas macabros, vindo sem o rótulo de “marxismo”, são imbecilmente aceitos como valores culturais supra-ideológicos pelas classes empresariais e eclesiásticas cuja destruição é o seu único e incontornável objetivo.

Dificilmente se encontrará hoje um romance, um filme, uma peça de teatro, um livro didático onde as crenças do marxismo cultural, no mais das vezes não reconhecidas como tais, não estejam presentes com toda a virulência do seu conteúdo calunioso e perverso.

Tão vasta foi a propagação dessa influência, que por toda parte a idéia antiga de tolerância já se converteu na “tolerância libertadora” proposta por Marcuse: “Toda a tolerância para com a esquerda, nenhuma para com a direita”. Aí aqueles que vetam e boicotam a difusão de idéias que os desagradam não sentem estar praticando censura: acham-se primores de tolerância democrática.

Por meio do marxismo cultural, toda a cultura transformou-se numa máquina de guerra contra si mesma, não sobrando espaço para mais nada. [13]

Diante do que expusemos, ficam claras as semelhanças entre o conceito olaviano de Marxismo Cultural e aquele desenvolvido por Schroyer e Brenkman, todos eles indicam como características do fenômeno o afastamento do marxismo ociental, da sua prima soviética, passando a dar ênfase na crítica cultural oriunda da Escola de Frankfurt. No entanto, também existem as diferenças. Olavo acrescenta ao fenômeno a influência da obra gramsciana, do pós-modernismo, e do politcamente correto.

Para conculsão deste breve artigo, gostaria de ressaltar que além da inegável repercussão dessas ideais na cultura ocidental como um todo, elas também podem ter sido incutidas na nossa cultura, não apenas pelas obras dos filósofos que mencionamos, e dos partidos políticos que as adotaram como discurso, mas também por meio de trabalhos conscientes do regime Soviético à época e seus satélites, pois o desertor Yuri Bezmenov (1939-1993) confessou que a URSS utilizava estratégias culturais de subverção ideológica contra os países do ocidente. [14] Enfim, faço das palavras de Ronald Robson as minhas palavras finais:

O marxismo cultural não é uma doutrina, e, portanto, não tem um único ideólogo. O marxismo cultural tampouco é produto de uma paranoia direitista.

Marxismo cultural é um nome mais ou menos apropriado para um fenômeno de história das ideias e da sensibilidade que operou a mais radical mudança de discurso da história do movimento comunista.

É o resultado complexo da vitória de uma corrente marginal do marxismo — sua “ocidentalização” ou “culturalização” sob a forma de “socialismo democrático” —, da queda da União Soviética e da bonança econômica pós-Segunda Guerra na Europa Ocidental e principalmente nos Estados Unidos, que permitiu a milhões de pessoas fazerem experiências de vida (de drogas e comunidades humanas alternativas, de veganismo a formas de união homossexual) que até hoje permanecem impossíveis na quase totalidade do globo. Em geral, as delícias da revolução cultural permanecem um privilégio de classe. [15]

Jason de Almeida Barroso Medeiros

Formado em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco; Bacharelando em Filosofia pela UFPE; Aspirante a Oficial da Reserva do Exército Brasileiro pelo CPOR/R; Jornalista com coluna no Portal de Prefeitura.

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