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Artigo: A Princesa Indefesa e os Monstros do Pântano- Por Jason Medeiros

A protagonista da peça se chama Nise Yamaguchi, uma senhora de 62 anos, médica cientista com décadas de atuação profissional e acadêmica, atuando tanto no setor privado como no setor público.

A Princesa Indefesa e os Monstros do Pântano- Por Jason Medeiros

Como eu havia antecipado na semana retrasada, o Circo Parlamentar de Ineptos (CPI) anda a todo vapor, apresentando todos os dias à plateia uma infinidade de palhaçadas. O último espetáculo de grande relevância teve o seguinte tema: A Princesa e os Monstros do Pântano.

Vou agora falar um pouco sobre os principais personagens e a trama que envolveu esse show de horrores.

Nise, a princesa indefesa.

A protagonista da peça se chama Nise Yamaguchi, uma senhora de 62 anos, médica cientista com décadas de atuação profissional e acadêmica, atuando tanto no setor privado como no setor público, auxiliando com conhecimento técnico vários governos até então. Veja você mesmo uma parcela do seu currículo:

  • Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP);
  • Especialista em Ciências Básicas e Ciências Clínicas pelo American Board, Estados Unidos;
  • Especialista (residência médica) em Alergia e Imunologia pela FMUSP;
  • Especialista em Oncologia Clínica pela Associação Brasileira de Medicina Sociedade Brasileira de Cancerologia (ABMSBC);
  • Mestre em Alergia e Imunologia pela FMUSP;
  • Doutora em Pneumologia pela FMUSP;
  • Especialista em Prática e Princípios da Pesquisa Clínica pela Escola Médica de Harvard (PPCR), Estados Unidos;
  • Aperfeiçoada em Programa de Educação Médica Continuada pelo Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein (IIEAP).

A pesquisadora foi convidada para participar do Circo Parlamentar de Ineptos (CPI) com a finalidade de esclarecer tanto a sua colaboração como perita técnica junto a gestão do atual governo federal no enfrentamento da pandemia de coronavírus, como o seu posicionamento especializado com relação a aplicação do tratamento para covid-19. No entanto, os vilões dessa história a violentaram explicitamente, não necessariamente uma violência de caráter físico, mas sim de natureza psicológica com consequências físicas.

As principais cenas protagonizadas por esses monstros do pântano serão descritas nesse momento!

ATENÇÃO! CONTÉM SPOILERS

Renan Canalheiros (MDB/AL), o neocangaceiro.

Este figurão é um velho conhecido do pântano e é um fenômeno do banditismo moderno. Canalheiros é graduado em Coronelismo pelo Estado de Alagoas; Mestre em Peculato pela Empreiteira Mendes Júnior; e Ph.D em Corrupção Ativa e Passiva pelo Senado Federal/BR, além de vários outros títulos na mesma seara.

Por sua posição privilegiada no pântano (relator), o neocangaceiro tem utilizado como principal técnica a tortura dos fatos, para fazê-los falar aquilo que deseja ouvir. Para ele não são os fatos que o convencem a mudar de entendimento, mas o seu entendimento prévio que o faz modificar os fatos.

Durante o seu embate com a princesa (Dr.ª Nise Yamaguchi), essa técnica ficou bastante evidente, por exemplo, quando Canalheiros a questionou sobre sua participação no “Gabinete Paralelo”. A resposta de Yamaguchi foi de que não havia qualquer “Gabinete Paralelo”, não que ela tivesse conhecimento. Mas o cangaceiro insatisfeito continuou a interpelá-la sobre o tal gabinete. A princesa respondeu novamente que isso era uma ficção e que sua colaboração se deu na presença de vários integrantes das equipes ministeriais, como perita técnica, assim como fez em diversos outros governos antes desse, inclusive opositores a esse. O cangaceiro não aceitou o confronto com os fatos e ignorou absolutamente a sua resposta. Ele continuou interrogando-a, dessa vez sobre um possível/provável decreto que alteraria a bula de alguns medicamentos, e que havia sido disponibilizado numa reunião do tal gabinete. A princesa esclareceu novamente que esse gabinete nunca existiu, assim como o referido decreto. Naquele momento, a princesa explicou que se tratava de uma reunião emergencial em função de uma pandemia sem precedente e que por seu histórico e suas credenciais foi convidada a participar. Naquele mesmo momento, ela disponibilizou a CPI o documento a que se fez referência, provando que nada havia sobre alteração de bulas, muito menos que ela haveria formulado tal documentação e explicou que alterações de bula não são feitas por decreto de qualquer ordem.

Não conseguindo fazer os fatos se dobrarem a sua compreensão deficiente da realidade, o cangaceiro foi ficando mais e mais enfurecido, e aproveitou para questioná-la sobre o tratamento, perguntando se o nível de importância do protocolo de tratamento era equivalente ao das vacinas. A médica respondeu que sim, mas que tinham natureza distinta. Enquanto a vacina é eficaz para prevenção da doença, o protocolo é eficaz para o tratamento do paciente infectado em condições específicas.

Novamente o cangaceiro não ficou satisfeito com a resposta, mas antes que pudesse continuar com o interrogatório, entrou em cena uma das figuras mais temidas e abjetas do pântano, o presidente Omar Azia.

Omar Azia (PSD/AM), o inquisidor da “verdade”.

Eleito pelo estado do Amazonas, Azia tem um currículo vexatório. Em 2017 votou favorável ao Senador Aécio Neves, derrubando o processo que tramitava no STF sobre corrupção e obstrução da justiça; e em 2019, o próprio Azia foi indiciado por desviar mais de 200 mil reais da saúde do estado do Amazonas, ocasião em que sua esposa e três irmãos foram presos pela Polícia Federal.

Esse monstro foi posto como presidente da CPI, ou melhor, do pântano, e essa posição afortunada subiu a sua cabeça, fazendo-o acreditar que é um detector de mentiras ambulante e infalível, mas somente funcionando para os outros e jamais para si mesmo.

O inquisidor crer piamente estar à frente de um Tribunal da “Verdade” e durante o seu debate com a princesa, não aceitou a sua resposta de que vacina e tratamento são igualmente importantes, sugerindo que ela é mentirosa, e pediu para que todos não ouvissem o que a médica cientista tinha a dizer, mas sim o que ele tinha a dizer (com esse currículo invejável). Disse ainda que ela poderia falar o quanto quisesse que eles não mudariam de opinião, demonstrando mais uma vez que essa CPI não passa de um espetáculo pro forma com sentença definida antes mesmo do início do processo, análogo aos julgamentos soviéticos de fachada.

Não aceitou também a fala da médica de que é perigoso vacinar pessoas ALEATORIAMENTE, esquecendo, por exemplo, os efeitos negativos que pelo menos uma delas tem tido em mulheres grávidas. Mas curiosamente, esse monstro é um dos primeiros a criticar o uso de medicamentos off-label, o que é assustadoramente contraditório.

E tem mais, crente de que é um detector de mentiras ambulante, Omar Azia não notou a falha no seu sistema, quando em momento histérico, para dizer o mínimo, comentou que o Primeiro Ministro britânico Boris Johnson somente decretou lockdown após ter covid-19, o que é uma fake news, imediatamente apontada por seu colega de pântano.

Seguimos então para o ponto alto do show.

Idiotto Alencar (PSD/BA), o pombo enxadrista.

Da plateia um professor de Literatura Comparada da UERJ anunciou entusiasmado: “Agora, é a vez do Senador Otto Alencar: Nise Yamaguchi está em apuros…”.

O monstro foi eleito pelo estado da Bahia. No seu currículo consta uma graduação em Medicina pela Universidade Federal da Bahia (UFBA); especialização em prótese de quadril; e atuação como chefe ortopedista e professor assistente da UFBA.

Essas credenciais (infinitamente inferiores as da Dr.ª Yamaguchi) causaram um epifania em Idiotto Alencar. Elas o fizeram crer possuir habilidades que não possui, instigou nele um verdadeiro sentimento de grandeza e superioridade, também descrito como efeito Dunning-Kruger (fenômeno onde o indivíduo acredita saber mais que os outros mais preparados que ele, justamente porque sabe menos e não tem consciência disso), que o fizeram agir como um pombo enxadrista, ou seja, defecou no tabuleiro, derrubou as peças, e saiu voando enquanto cantava vitória.

Esse sem dúvidas foi o ponto alto do circo. Uma das primeiras investidas do pombo foi questionar a médica se ela conseguiria definir o que é um vírus e um protozoário. Visivelmente abismada com o nível baixíssimo do questionamento, além de contraproducente para a finalidade do convite, a princesa respondeu que um protozoário é um organismo celular e um vírus é uma estrutura que possui RNA e/ou DNA. O pombo negou que a resposta estivesse correta, sugerindo que a médica não sabia do assunto, e a corrigiu dizendo a mesma coisa que ela havia dito, porém com uma quantidade um pouco maior de detalhes. Foi como se ele tivesse perguntado qual a diferença entre um homem e um macaco, e a médica tivesse respondido que um é um ser racional e o outro não, e ele a tivesse corrigido dizendo que um possui uma estrutura mental baseada na razão e o outro uma estrutura mental e primitiva baseada em instintos primários.

Outra investida no xadrez do pombo foi o questionamento sobre qual é o nome do exame que detecta se um indivíduo tem ou não anticorpos contra o vírus. A médica, novamente abismada com a pergunta primária do interrogador, responde: “Anticorpos Neutralizantes”. O pombo não se deu por satisfeito e perguntou novamente qual era, e ela respondeu: “Anticorpos Neutralizantes”. O pombo então pergunta uma terceira vez à mesma coisa. A princesa fica sem entender o motivo de o senador não aceitar a sua resposta. Mas, segundos após o terceiro questionamento o pombo responde: “A senhora não sabe, doutora. Exame para identificar anticorpos neutralizantes”.

E outra investida do pombo, não menos absurda que as anteriores, foi o questionamento sobre que família pertence a covid-19. A princesa prontamente respondeu: “coronaviridae”. Mas o senador desdenha da resposta da médica afirmando que ela não sabe de nada e que a resposta correta seria: “betacoronavírus”. Mas, como o pombo já demonstrou a sua falta de conhecimento total, com esse episodia não foi diferente. Fato é que ela estava certa e o Idotto errado quanto a taxonomia do vírus.

Acredite se quiser, mas na plateia havia um professor de Filosofia, da matéria de “Lógica”, da UFPE aplaudindo acaloradamente o espetáculo de misologia do pombo e bradando: “Otto Alencar pra Presidente da Galáxia!”.

O Deputado Federal Marcelo Fresco (PSOL/RJ) também aplaudiu o desempenho do pombo no xadrez dizendo: “Otto Alencar mostrando como se desmascara uma farsante”. Vale lembrar, no entanto, que esse é o parlamentar que já falou em “dosagem segura” para usuários de crack quando desejava regulamentar o consumo de drogas.

No fim, o senador Marcos do Val (PODE/ES) ainda expôs em vídeo a farsa do pombo, relatando que Idotto o receitou hidroxicloroquina no ano passado quando do Val se infectou com coronavírus.

Fim do show

Para aqueles que tiveram o desprazer de assistir todo o espetáculo, devem ter tido a mesma impressão que a minha, a de que se tratou de uma releitura do clássico da literatura orwelliana, A Revolução dos Bichos (1945), mais precisamente a cena em que a ovelha está reunida com as raposas e os lobos para definir o cardápio do jantar, sendo a Dr.ª Yamaguchi a ovelha, os senadores as raposas e os lobos, e o jantar você já deve imaginar.

Um mesmo fato político normalmente é percebido de forma distinta por diferentes públicos. Aquilo que leva o establishment ao delírio normalmente causa asco no povão. Não será diferente desta vez, com a imagem de uma gentil médica de 62 anos sendo atacada e ofendida por políticos”. – Filipe G. Martins

Por: Jason Medeiros

Jason de Almeida Barroso Medeiros, 27 anos, bacharelando em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco; Oficial da Reserva do Exército Brasileiro pelo CPOR/R; Colunista no Portal de Prefeitura; Entusiasta da filosofia política e editor do perfil @ocontribuinteoriginal no Instagram.

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