Oposição

Ex-ministro de Dilma: “Solução definitiva à crise sanitária é tirar Bolsonaro”

O deputado e ex-ministro reconheceu Lula como a principal liderança popular do país, afirmando que sua reabilitação eleitoral ‘muda tudo’.

Em entrevista ao programa 20 Minutos, o jornalista Breno Altman entrevistou o deputado federal por São Paulo Orlando Silva (PCdoB), sobre o combate a Jair Bolsonaro e as reações conservadoras no parlamento em relação à reabilitação eleitoral do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva.

“A solução definitiva para a crise sanitária que estamos vivendo é tirar Bolsonaro e, para isso, terá de ser nas eleições. A alternativa seria o impedimento, mas não vejo ambiente para isso na Câmara dos Deputados porque nos falta um fator decisivo: o fator rua. Sem o povo na rua, por causa da pandemia, é difícil ter solução antes de 2022”, argumentou.

Isso não significa, entretanto, que a atuação dos partidos possa estar voltada única e exclusivamente às eleições no ano que vem. Para o deputado federal, o foco atualmente deve estar em proteger a população, exigindo auxílio emergencial e combatendo a pandemia.

Silva se mostrou otimista com relação à luta contra o presidente que, para ele, está cada vez mais enfraquecido e pode ser até que, em 2022, não chegue ao segundo turno, “porque o drama social que estamos vivendo é tão grande que acho que ele vai tomar um tombo gigante que vai impedir sua ida para o segundo turno”, afirmou.

Ainda assim, o deputado reconheceu a probabilidade de que Bolsonaro tente viabilizar uma candidatura.

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“As forças conservadoras que o colocaram no poder podem bandear para outro lado. E não vejo um alto compromisso das forças armadas com o bolsonarismo, pese à situação dramática de ter tantos militares da ativa e da reserva no governo”, ponderou.

Somado ao enfraquecimento do atual presidente, há o retorno eleitoral de Lula: “que muda tudo porque ele é a principal liderança popular do Brasil”.

‘Frente ampla não é arranjo eleitoral’

Para derrotar Bolsonaro nas urnas, Silva disse não acreditar em uma frente ampla nem em uma frente de esquerda, apesar de reconhecer ambos como movimentos necessários para resistir ao bolsonarismo.

“Foi a frente ampla que nos permitiu aprovar o auxílio emergencial, fortalecer o Instituto Butantan para produzir a vacina. Mas frente ampla não é arranjo eleitoral, é um movimento necessário de resistência. Significa formar alianças entre as oposições, de esquerda e direita, em torno de temas específicos”, defendeu.

De cara às eleições disse não ver a possibilidade nem da criação de uma frente única de esquerda.

“No segundo turno talvez tenhamos uma candidatura anti-Bolsonaro com amplo apoio, mas no primeiro turno não. Imagino que haverá uma candidatura de centro-direita, muito provavelmente do João Doria, Bolsonaro; e no campo da esquerda teremos a candidatura do Ciro e do PT, com Lula ou quem for”, refletiu.

Silva não quis dizer quem apoiaria, entre a possibilidade de ter Lula e Ciro como candidatos, limitando-se a afirmar que seguiria a orientação do seu partido, “que quem sabe lança seu próprio candidato, nunca se sabe”.

O deputado fez questão de colocar, por outro lado, a necessidade da esquerda de se unificar em torno de um programa.

“Deveríamos fazer mais debates programáticos. Sinto um empobrecimento do debate político na esquerda. Mais do que debater candidatos, devemos debater o programa que vamos apresentar em 2022. Se penso no PT, qual é o programa de agora? E me refiro a fazer um debate público sobre o tema, não publicar um documento de 200 páginas. Um partido como o PT deve ser o dínamo do debate político, deve ser o mais paciente de todos. Esse é o ônus de ser a força popular hegemônica do país. E debater em conjunto não significa formar alianças políticas”, provocou Silva.

Movimentações conservadoras no Congresso

Silva cumpre atualmente seu segundo mandato como deputado federal, estando na Câmara desde 2015. Sobre as movimentações no Parlamento, ele falou sobre o retorno de vários projetos de lei conservadores, como a Lei de Segurança Nacional, por exemplo.

“É entulho autoritário, mas com o ambiente conservador que temos no Congresso é difícil enfrentar temas como esses. Mas agora, neste caso em específico, políticos de direita estão em alerta. Então estamos tentando resgatar o projeto de 2002 de defesa do estado de direito, que revoga a Lei de Segurança Nacional”, disse.

Outra preocupação atual da esquerda parlamentar é a discussão e ampliação da Lei Anti-terrorismo.

“Quando protocolaram o projeto pela primeira vez, propondo a criação de uma comissão especial, que acelera a chegada do debate no plenário, de anos para alguns meses, Rodrigo Maia era o presidente e negou o pedido. Arthur Lira [novo presidente da Câmara] já constituiu a comissão e escolheu os membros. E é um projeto muito perigoso, porque coloca em prática um estado policial”, explicou.

Segundo o deputado, a oposição está buscando construir uma aliança ampla, inclusive com o apoio da sociedade civil, para resistir à medida.

A esquerda parlamentar também teme o retorno do debate sobre o modelo do “distritão”, uma reforma eleitoral que mudaria a concepção de circunscrição eleitoral no Brasil. Atualmente, cada unidade da federação é chamada de circunscrição eleitoral e o voto é proporcional: elege-se o número de candidatos proporcionais aos votos obtidos.

“Por exemplo, se o MDB recebeu 10% dos votos em São Paulo, recebe sete cadeiras e entram os sete candidatos mais votados entre todos os que participaram das eleições. Isso faz com que se aproveitem muito os votos, porque mesmo o candidato que não se elegeu ajudou o partido”, explicou Silva.

No caso do “distritão”, o estado e o município se tornam uma circunscrição e se elegem os candidatos mais votados, como acontece em eleições para senadores. Não se leva em conta votos em partidos e coligações.

“O problema é que o voto vira nominal, personaliza a política. Isso fragmenta o partido, ele vira irrelevante. Relevante é o político, que, por sua vez, vira uma celebridade. Da última vez, barramos sua aprovação por pouco, mas há muita gente no plenário a favor”, contou.

Segundo Silva, o PCdoB defende o voto em lista, em que os partidos decidem quem será eleito, revelam sua lista aos eleitores, mas estes votam apenas nos partidos.

“Mas entre o distritão e o sistema atual, prefiro o sistema proporcional. Levar adiante uma reforma por um sistema de voto em lista é muito difícil. Todas as reformas eleitorais que se fazem atualmente são antidemocráticas”, reforçou.

Fonte: Opera Mundi

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