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Artigo: Zuckerberg X Trump – quem é o verdadeiro radical?

Com quais critérios o jovem empresário define "ameaça institucional mundial"? De onde vem essa compreensão, aceita por tanta gente com enlevo quase divino?

Ao escrever a biografia de Voltaire, a escritora inglesa Evelyn Beatrice Hall resumiu-lhe a crença com uma belíssima frase. “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las”, redigiu ela. Essa sentença, ícone mundial da liberdade de expressão, parece que nunca esteve diante dos olhos de Mark Zuckerberg.

Recentemente a conta de Donald Trump foi suspensa pelo dono do Facebook. Zuckerberg entendeu que o comportamento do ex-presidente americano é uma ameaça global à democracia. Pergunto: com quais critérios o jovem empresário define “ameaça institucional mundial”? De onde vem essa compreensão, aceita por tanta gente com enlevo quase divino?

Se levarmos em conta recentes ondas de violência coletiva, o movimento “Black lives matter” também deveria ser preocupante ao criador do Facebook. Afinal, porque “vidas negras importam”  (tradução) é natural esperar destruição do patrimônio alheio mundo afora? Devemos esperar que multidões enfurecidas enfrentem a Polícia com paus e pedras? Que firam pessoas em suas marchas pelas ruas do mundo? Que destruam estátuas e monumentos públicos e históricos?

Claro que não se trata de usar a coerência para balizar ou não atitudes de um presidente democraticamente eleito. Muito menos, de cegar-se para o fanatismo que habita o centro de alguns movimentos de ativismo social. O que Mark Zuckerberg fez teve a intenção de mudar a perspectiva de certo e errado de quem está sob sua influência (no caso, sob a influência do Facebook).

Ninguém deveria celebrar a supressão do direito de alguém quanto ao uso de uma conta no Facebook ou outro espaço digital. E penso que o ato de Zuckerberg traz à tona aspirações tirânicas contra gente que não pensa como ele e companhia querem.

Se alguém enxerga nessa atitude despótica algum valor, jamais deverá mudar de opinião sobre nada. Pois, se um dia alguma profunda reflexão lhe trouxer nova visão política, por exemplo, pode certamente ser tratado com o mesmo zelo que Zuckerberg investiu em Trump.

O ex-presidente americano tem o direito de usar midias sociais como qualquer outra pessoa. Muitas vezes Donal Trump é radical? Sim. Muitas vezes discordamos de suas ações? Certamente. Mas a vida em democracia é conviver com a diversidade na política, na religião e demais áreas da vida.

Qualquer atitude diferente disso é ditadura, censura crassa e uso indevido de influência econômica ou política. Penso que tal maneira de agir encerra dentro de si intenções ditatoriais. No caso em apreço, tais objetivos se materializaram sob pretexto tão frágil que, apenas quem escolhe cegar-se para o óbvio diz que não o encontra.

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