Orcrim

Artigo: A esquerda brasileira e o crime organizado – Por Jason Medeiros

Essa é mais uma daquelas histórias que conto por aqui, e que você já deveria saber, mas por algum motivo não te contaram.

Uma ORCRIM (organização criminosa) é definida pela legislação brasileira no § 1º, do Art. 1º, da lei nº 12.850/2013, que diz: “Considera-se organização criminosa a associação de 4 (quatro) ou mais pessoas estruturalmente ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas, ainda que informalmente, com o objetivo de obter, direta ou indiretamente, vantagem de qualquer natureza, mediante a prática de infrações penais cujas penas máximas sejam superiores a 4 (quatro) anos, ou sejam de caráter transnacional.”.

A definição jurídica talvez não seja nenhuma novidade para você leitor, mas você saberia explicar o fenômeno histórico por trás do surgimento do crime organizado no Brasil? E a razão deste ter íntima relação com a esquerda brasileira? Não? Então senta que lá vem história…

O crime organizado surge no Brasil na década de 70, e umas das primeiras organizações desta espécie é o Comando Vermelho (CV).

O CV descende da facção Falange Vermelha, criada pelo traficante Rogério Lemgruber, ou “Bagulhão” (1956-1992), na década de 70. Em 1979, no Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande, em Angra dos Reis/RJ, ela muda de nome para Comando Vermelho, e, após a morte de “Bagulhão”, ela muda novamente o nome para Comando Vermelho Rogério Lemgruber (CVRL), em sua homenagem.

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Um dos fundadores da ORCRIM, William da Silva Lima, ou “Professor” (1943-2019), explica a mudança do nome: “Vocês da polícia botaram o nome do nosso grupo de Falange Vermelha. Achamos por demais de direita. Falange nos faz lembrar a Espanha de Franco, o fascista. Por isso, achamos mais adequado Comando Vermelho, que possamos usar. […] Alguns intelectuais sugeriram transformar nossa instituição em política, porém vejo que ainda não é chegada a hora”. O jornalista Carlos Amorim também escreveu a respeito:

“O próprio nome da organização de Falange ‘Vermelha’, ou ‘Falange LSN’, porque em suas fichas no sistema penal fluminense aparecia uma tarja vermelha com a inscrição ‘LSN’. Ou seja: presos comuns condenados pela Lei de Segurança Nacional, por conta dos assaltos a bancos e a instituições financeiras. Mas os ‘políticos’ disseram aos bandidos que ‘falange’ era coisa dos fascistas e nazistas europeus. Aí o nome mudou: Comando Vermelho”.

O Comando Vermelho começou a se organizar a partir da união entre presos comuns e presos políticos, como observa Carlos Amorim no seu livro, vencedor do prêmio Jabuti, Comando Vermelho: a história secreta do crime organizado (1993).

*Esse fenômeno não é original. A Máfia Russa moderna, por exemplo, surgiu após a criação dos Gulags (campos de trabalho forçado de segurança máxima que tinha como objetivo punir os que fossem considerados inimigos do Estado), onde se formou a elite criminal soviética.

Na biografia do terrorista da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) Pedro Lobo de Oliveira, escrita por João Roberto Laque, temos a confirmação: “o contato entre meliantes e presos políticos no Instituto Penal Cândido Mendes, em Ilha Grande, desaguará na formação da primeira grande facção criminosa carioca”.

O historiador e diplomata brasileiro Gustavo Marques também confirma essa versão na sua obra O Livro Negro do Comunismo no Brasil (2019), diz ele: “É fato notório que a convivência entre presos políticos e bandidos comuns, nos anos 1970, lançou as sementes do que seria a maior organização criminosa do Rio: o Comando Vermelho. De 1969 a 1973, 66 condenados políticos estiveram cumprindo pena no Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande (RJ). Lá, mantiveram contato com criminosos comuns, assaltantes de bancos e assassinos, presos igualmente pela Lei de Segurança Nacional (Decreto-Lei nº 898, de 1969), cujo artigo 27 igualava delitos comuns e crimes políticos.”.

Logo no início dos anos 80, os primeiros foragidos da Ilha Grande começaram a pôr em prática os ensinamentos que haviam adquirido ao longo dos anos de convivência com os terroristas de esquerda: assaltos a instituições bancárias, empresas, joalherias, sequestros e execuções.

O assaltante de bancos Oswaldo da Silva Calil, ou “Valdinho”, que viu tudo de perto na Ilha Grande, resumiu as consequências dessa relação: “O crime organizado foi muito além do que a luta armada tinha conseguido nos anos 70, tanto em matéria de infra-estrutura quanto na disciplina e organização internas […] os alunos passaram a professores”.

O “Professor” fez uma assertiva análise das consequências de suas ações e que hoje podemos ver materializado no estado do Rio de Janeiro, leia você mesmo: “Conseguimos aquilo que a guerrilha não conseguiu: o apoio da população carente. Vou aos morros e vejo crianças com disposição, fumando e vendendo baseado. Futuramente, elas serão três milhões de adolescentes, que matarão vocês (policiais) nas esquinas. Já pensou o que serão três milhões de adolescentes e dez milhões de desempregados em armas?”.

Já no início da década de 90, o CVRL influencia o surgimento de outra ORCRIM famosa, conhecida como Primeiro Comando Capital (PCC), em São Paulo, que também aprenderam técnicas de organização dos terroristas de esquerda, como admitiu o guerrilheiro José Roberto Rezende: “Adaptaram o nosso modo de organização ao modo de vida deles”.

Durante os anos 2000, diversas favelas eram controladas pela facção, e passaram a ser ocupadas por milícias e por Unidades de Polícia Pacificadora (UPP).

Em 2016, CV e PCC, romperam a relação de aliança que já durava duas décadas, em razão de disputa territorial nas fronteiras do Brasil, o que ocasionou rebeliões nos presídios próximos a região.

No 2º turno da eleição presidencial de 2018, 82,47% dos presos votaram em Haddad (PT) e 17, 53% em Bolsonaro (PSL), segundo levantamento do GLOBO.

//oglobo.globo.com/brasil/bolsonaro-ou-haddad-veja-em-quem-os-presos-brasileiros-votaram-23359518

//www.oantagonista.com/brasil/haddad-esmaga-bolsonaro-entre-os-presos/

Em 2019 a Polícia Federal (PF) interceptou uma ligação entre membros do PCC, no mínimo curiosa, veja:

Reprodução de grampo telefônico interceptado pela Polícia Federal

Todavia, segundo o promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP (Ministério Público) em Presidente Prudente/SP disse que o preso não pertence à cúpula do PCC, e, portanto, não teria como saber se esse diálogo realmente existia. Será?

//www.gazetadopovo.com.br/republica/o-que-se-sabe-sobre-a-relacao-entre-faccoes-criminosas-e-partidos-politicos-no-brasil/

A relação da esquerda com o crime, seja ele organizado ou não, está no âmago do que é a esquerda, no Brasil e no mundo, no passado e no presente. Qual razão teriam os socialistas para respeitarem leis e instituições “burguesas” se eles as condenam e trabalham para sua destruição dia e noite? Stálin, caso você também não saiba, antes de ser o ditador que muitos conhecem, assaltava bancos para arrecadar fundos para o Partido. No Brasil, na década de 30, o PCB (Partido Comunista Brasileiro) via os cangaceiros como revolucionários em potencial.

No livro Camaradas: nos Arquivos Secretos de Moscou (1993), escrito pelo jornalista William Waack, temos a demonstração de como, em 1933, o Komintern (Internacional Comunista) instruiu o Comitê Central do PCB a assumir a liderança de quadrilhas de criminosos, para fomentar a “luta de classes” que surgiriam do seu conflito com a polícia, a sociedade e a lei. E olhe que nada falamos sobre a relação do PT com o Foro de São Paulo e as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), como, por exemplo, em 2009, Lula sugeriu, em entrevista coletiva publicada pelo Estadão, que as FARC “Se, em um continente como o nosso, um índio e um metalúrgico podem chegar à Presidência, por que alguém das FARC, disputando eleições, não pode?”. Mas isso será assunto de outra publicação.

“Obviamente, trata-se de um assunto complexo, e seria simplista atribuir a causa da criminalidade unicamente à luta armada dos anos 1960/70. Mas é inegável que os guerrilheiros urbanos de esquerda transferiram seu know-how a criminosos comuns, sobretudo no tocante a técnicas de organização.” – Gustavo Marques

Por: Jason Medeiros

Jason de Almeida Barroso Medeiros, 26 anos, bacharelando em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco; Oficial da Reserva pelo CPOR/R; Entusiasta da filosofia política e editor do perfil @ocontribuinteoriginal no Instagram.

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