Violência

Artigo: “FRAU, KOMM!” O maior estupro coletivo da história

Médicos atestaram que todas as mulheres, mesmo meninas de 8 a 12 anos, haviam sido estupradas – até uma senhora de 84 anos – e “assassinadas de maneira selvagem”. – Robert Gellately

Por: Jason Medeiros

Esse é um daqueles macabros episódios da nossa história recente que você não deve ter estudado na sua escola, mas que deveria.

Em 2013, na cidade polonesa de Gdnask (antiga cidade alemã de Danzig), o artista polonês Jerzy Bohdan Szumczyk produziu e ergueu uma escultura denominada “Frau, Komm!” (Venha cá, moça!). A obra, um soldado soviético estuprando uma mulher grávida, foi alçada com a intenção de homenagear as mais de 2 milhões de mulheres estupradas por militares soviéticos no final da 2ª Guerra Mundial, bem como protestar contra a presença de um monumento em homenagem ao exército vermelho, no centro de Gdnask. O embaixador russo em Varsóvia (capital da Polônia) Alexandre Alekseev declarou na ocasião: “Estou profundamente consternado pela atitude de um estudante de Belas Artes de Gdansk, que, com sua pseudoarte, insultou a memória dos mais de 600.000 soldados soviéticos mortos pela liberdade e independência da Polônia”. Inclusive a promotoria de Gnask afirmou, à época, que iria avaliar se o artista iria responder por “incitação ao ódio racial ou nacional”.

A escultura, denominada "Komm Frau" ("Venha Cá, Mulher", em tradução livre).
A escultura, denominada “Komm Frau” (“Venha Cá, Mulher”, em tradução livre).

Mesmo nos nossos dias, pós-queda do Muro de Berlim, o assunto ainda é tabu na Rússia, com a imprensa local rejeitando o tema regularmente e dizendo tratar-se de um “mito espalhado pelo Ocidente”, e com lei obrigando qualquer pessoa que deprecie a história da Rússia na Segunda Guerra Mundial a pagar multa, ou mesmo ser presa por até cinco anos em função da (má?) conduta.

Mas, infelizmente, não é só na Rússia que o assunto tenta ser abafado. Pessoas ao redor do mundo que se identificam com o regime e a figura do ditador Josef Stálin tentam negar que o evento tenha sequer existido, acusando todo aquele que expõe os fatos de como: “propagandista do imperialismo”. Essa afirmação não poderia ser mais absurda. E, para que o leitor conheça com mais detalhes essas história, deixaria uma série de citações de livros, documentos, e testemunhas que falam sobre o assunto.

Uma das várias fontes que revelam o que ocorreu é o diário do tenente soviético Vladimir Gelfand, onde relatou situações como: “As alemães capturadas disseram que estavam vigiando seus maridos mortos. Elas devem ser destruídas sem piedade. Nossos soldados sugeriram esfaqueamento das genitais, mas eu apenas as executaria”; disse ainda “Com horror em seus rostos, elas me disseram o que tinha acontecido na primeira noite da chegada do Exército Vermelho. ‘Eles cutucaram aqui a noite toda’ (explicou a garota alemã, levantando a saia) […] ‘Eles eram velhos, alguns estavam cobertos de espinhas e todos eles montaram em mim e me cutucaram – não menos do que 20 homens’ […]‘Eles estupraram minha filha na minha frente e eles ainda podem voltar e estuprá-la de novo’”.

Tenente Soviético Vladimir Gelfand.
Tenente Soviético Vladimir Gelfand.

Uma das vítimas de evento macabro foi Ingeborg Bullert, com 20 anos à época. Bullert passou quase setenta anos para falar sobre o que ocorreu com ela naquele período, mas relatou que: “De repente, havia dois soldados soviéticos apontando revólveres para mim. Um deles me obrigou a me expor e me estuprou, então eles trocaram de lugar e o outro me estuprou. Pensei que ia morrer, que eles iam me matar”. Ele lembrou ainda que as mulheres entre 15 e 55 anos tinham que fazer exames para doenças sexualmente transmissíveis para conseguir cupons de comida.

Ingeborg Bullert com 20 anos à esquerda e com 90 anos à direita.
Ingeborg Bullert com 20 anos à esquerda e com 90 anos à direita.

 

Mais uma vítima foi a alemã Emma Korn que em interrogatório do exército soviético afirmou: “Em 3 de fevereiro as tropas da linha de frente do Exército Vermelho entraram na cidade. Invadiram o nosso porão e nos estupraram na frente de crianças. Em 5 de fevereiro vieram três soldados e em 6 de fevereiro oito soldados bêbados também nos estupraram e surraram”. Três dias depois as mulheres tentaram matar as crianças e a si mesmas cortando todos os pulsos.

Mulheres cometem suicídio numa praça em Berlim.
Mulheres cometem suicídio numa praça em Berlim.

No livro A Maldição de Stálin, o historiador canadense Robert Gellately não deixa o assunto passar batido e comenta: “Ocasionalmente, quando o Exército Vermelho recuava por breve período de tempo, as pessoas tinham a oportunidade de ver o que as esperava, como ocorreu no vilarejo de Nemmersdorf (Maiakovskoie) na Prússia Oriental, em outubro de 1944. A Wehrmacht reportou que em uma fazenda ‘os corpos de duas mulheres nuas tinham sido pregados pelas mãos nas duas portas do celeiro’. Lá dentro os alemães encontraram mais de 73 cadáveres. Médicos atestaram que todas as mulheres, mesmo meninas de 8 a 12 anos, haviam sido estupradas – até uma senhora de 84 anos – e ‘assassinadas de maneira selvagem’. O relato não foi invenção e o abuso não se limitou às mulheres alemães, pois um relatório polonês, de 19 de março de 1945, de uma região próxima, descreveu história semelhante sobre o Exército Vermelho, com detalhes horripilantes demais para serem repetidos aqui.”.

Fotografia tirada pela SS de uma família morta. As duas mulheres apresentavam sinais de estupro.
Fotografia tirada pela SS de uma família morta. As duas mulheres apresentavam sinais de estupro.

O aclamado historiador Antony Beevor no seu livro Berlim 1945: A Queda, diz que “O pior erro das autoridades militares alemães tinha sido sua recusa em destruir os estoques de bebidas alcoólicas no itinerário do avanço do Exército Vermelho. Esta decisão baseava-se na ideia de que um inimigo bêbado não poderia lutar. De modo trágico para a população feminina, contudo, era exatamente do que os soldados do Exército Vermelho pareciam precisar para tomar coragem para os estupros, assim como para comemorar o fim de uma guerra tão terrível. A rodada de comemorações da vitória não significou o fim do medo em Berlim. Muitas mulheres alemães foram estupradas como parte das extensas comemorações.”.

Soldados soviéticos molestando uma mulher alemã publicamente.
Soldados soviéticos molestando uma mulher alemã publicamente.

Novamente Gellately, ao tentar explicar as motivações para aquela conduta da tropa diz: “Qual a origem de tal comportamento? Parte dele era consequência da ferocidade do combate, mas alguma dose podia ser retraçada ao sistema stalinista de justiça militar. Os soldados soviéticos recebiam punições terríveis pelo descumprimento de ordens. (…) As duras punições e as horríveis experiências em combate enraiveciam os soldados.”.

Em outro livro seu, Lênin, Stálin e Hitler, o historiador comenta que: “Stálin prometeu que as forças invasoras não ‘molestariam’ a população pacífica, mas essa afirmação foi desmentida pelos eventos. Cartazes soviéticos espalharam no início de 1945 o tom do horror que viria pela frente: ‘Soldado do Exército Vermelho: Você agora está em solo alemão; a hora da vingança chegou!’ Uma ordem de Jukov, de janeiro, tinha o seguinte enunciado: ‘Desgraça para a terra dos assassinos. Nós teremos nossa terrível vingança por tudo.’ Uma diretiva ao Exército Vermelho, na véspera da entrada no leste da Prússia, afirmou que ‘no solo alemão há somente um senhor – o soldado soviético, ele é tanto o juiz como o punidor pelos tormentos sofridos por seus pais e mães, pelas cidades e vilas destruídas… lembrem-se de que seus amigos não estão ali, só os parentes dos assassinos e opressores’. Diretrizes e ordens eram transmitidas de muitas maneiras. Oficiais de baixo escalão diziam que tinham de incentivar o soldado a ‘sair da trincheira de defrontar-se com as metralhadoras mais uma vez. Mas, agora, com esta ordem, tudo está claro: ele vai chegar à Alemanha e lá tudo é seu – bens, mulheres, faça o que quiser! Vá com tudo! Assim os netos e bisnetos deles se lembrarão e terão medo’”.

Garota alemã encontrada morta em Messendorf, 1944. Documentário Hellstorm.
Garota alemã encontrada morta em Messendorf, 1944. Documentário Hellstorm.

Para os que a essa altura ainda possam estar imaginando que Stálin nada sabia sobre esses estupros em massa, vos digo em alto e bom som que estão totalmente enganados. Vejam a resposta, segundo Milovan Djilas no seu livro Conversações com Stálin, que Stálin deu a uma delegação visitante de comunistas iugoslavos que reclamaram dos estupros do Exército Vermelho em seu país: Será que eles não podiam ter um pouco de compreensão, perguntou, “se um soldado, que cruzou milhares de quilômetros através de sangue, fogo e morte, se diverte com uma mulher ou pega alguma ninharia?”. Antony Beevor também relata que: “Beria e Stálin, lá em Moscou, sabiam perfeitamente o que estava acontecendo. […] A atitude do Exército Vermelho para com as mulheres se tornara abertamente possessiva, em especial depois que o próprio Stalin interveio para permitir aos oficiais manter uma ‘esposa de campanha’. […] Essas moças, escolhidas como amantes pelos oficiais superiores, costumavam ser sinaleiras do quartel-general, secretária ou enfermeiras – jovens militares”.

Beevor ao final do seu livro nos apresenta o número estimado de vítimas bem como as reações dessas mulheres: “Os berlinenses recordam que, como todas as janelas tinham sido explodidas, era possível ouvir os gritos toda noite. As estimativas dos dois principais hospitais de Berlim variavam entre 95 mil e 130 mil vítimas de estupro. Um médico deduziu que, das cerca de 100 mil mulheres estupradas em Berlim, umas 10 mil morreram em decorrência, a maioria de suicídio. A taxa de mortalidade foi considerada muito mais alta entre o 1,4 milhão de mulheres que sofreram na Prússia Oriental, na Pomerânia e na Silésia. No total, acredita-se que pelo menos 2 milhões de alemães foram estupradas e uma minoria substancial, ou até uma maioria, parece ter sofrido estupros múltiplos. Uma amiga de Ursula von Kardorff e da espiã soviética Schulze-Boysen foi estuprada por ’23 soldados, um depois do outro.’ Teve de levar pontos no hospital depois disso. As reações das mulheres alemães à experiência do estupro variaram muito. Para muitas vítimas, em especial mocinhas bem guardadas que tinham pouca ideia do que estava lhes acontecendo, os efeitos psicológicos podiam ser devastadores. O relacionamento com homens tornava-se extremamente difícil, muitas vezes pelo resto da vida. Em geral as mães estavam muito mais preocupadas com os filhos, e esta prioridade as fazia superar o que tinham sofrido. Outras mulheres, tanto jovens quanto adultas, simplesmente tentavam apagar a experiência.”

Mãe e filha ajoelhadas e surradas. A filha acabara de ser estuprada. Berlim ocupada pelos soviéticos (1945).
(FRAU, KOMM) Mãe e filha ajoelhadas e surradas. A filha acabara de ser estuprada. Berlim ocupada pelos soviéticos (1945).

 

E Gellately conclui: “Quando o estupro não era encorajado, era tolerado, e pelo menos no início da invasão não foi punido. O Exército Vermelho não apenas conduziu uma campanha de estupro jamais vista ante na história moderna europeia, como os soldados ainda humilharam as vítimas de modos desprezíveis. Tampouco pouparam as mulheres de seus próprios aliados.”.

Pois bem, esse foi o maior estupro coletivo de que se tem registro na história humana. Com fontes inesgotáveis essa é uma história que tem repercussões até os dias de hoje, e que não pode ser esquecida ou apagada, em memória de todas essas pobres mulheres.

Por: Jason Medeiros

Jason de Almeida Barroso Medeiros, 26 anos, bacharelando em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco; Oficial da Reserva pelo CPOR/R; Entusiasta da filosofia política e editor do perfil @ocontribuinteoriginal no Instagram.

 

 

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