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Artigo: Conservadorismo & Ideologia

"O termo ideologia é normalmente assimilado, pelo senso comum, como sendo um sinônimo da palavra cosmovisão", afirma Jason.

Por: Jason Medeiros

O termo ideologia é normalmente assimilado, pelo senso comum, como sendo um sinônimo da palavra cosmovisão, que, por sua vez, significa a forma subjetiva como um indivíduo vê e entende o mundo que o cerca. Mas esse seria o real significado de ideologia? E o conservadorismo seria uma variante das várias ideologias políticas correntes na sociedade contemporânea?

O escritor pernambucano Isaac Silva, no seu livro sobre ideologia de gênero, explica que o termo ideologia foi inicialmente utilizado pelo filósofo francês Destutt de Tracy (1754-1836) e significava “uma ciência e ideias”, mas também, ligava essas ideias “a algo subversivo associado a algum grupo ou movimento inclinado a pôr em ação algum plano político ou cultural perigoso” (Dicionário do Pensamento Social do Século XX).

Já para Karl Marx (1818-1883), ideologias seriam as formas binárias e totalizantes de consciência social, ou seja, haveria dois grandes sistemas de ideias, um que legitimaria o poder da classe dominante (ideologia burguesa), e outro que expressaria os interesses revolucionários da classe dominada (ideologia proletária ou socialista).

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O historiador brasileiro João Camilo de Oliveira Torres (1915-1973) defendeu que as ideologias são ideias absolutizadas, diz ele: “O mal do mundo são as ideologias, isto é, a transformação de uma ideia em absoluto e a sua utilização em mito, no sentido de Sorel, isto é, de uma constelação emocional movimentando as ações humanas”. O antropólogo Cesar Ranquetat Jr., seguindo a mesma linha de raciocínio de Oliveira Torres, afirma: “A linguagem da ideologia visa engendrar padrões de comportamento e conduta, mobilizando as massas, confrontado-as e criando nelas um sentido de identidade grupal por meio dos encantos ilusórios de um mito político. As ideologias políticas modernas configuram-se, até certo ponto, como sucedâneas das religiões tradicionais”.

E os conservadores, como se posicionam frente às suas ideias?

O filósofo americano Russell Kirk (1918-1994) defendeu que o conservadorismo seria um estado mental do indivíduo, uma forma de olhar a ordem social. Uma pessoa conservadora seria aquela que considera as coisas permanentes mais satisfatórias do que o caos; aquela que preferiria a certeza à dúvida.

Apesar desse forte sentimento de conservação, isso não significa retrocesso ou mesmo falta de avanço, muito ao contrário, como bem ensinou o filósofo conservador irlandês Edmund Burke (1729-1797): “a mudança é o meio de nossa preservação”. Por isso, quando necessário, os conservadores defendem que reformas gradativas e pontuais podem ser benéficas, enquanto os revolucionários desejam a completa destruição da ordem estabelecida, para a construção de um novo mundo e de um novo homem.

Os conservadores acreditam que a continuidade da experiência de um povo oferece uma direção muito melhor para a política do que os planos abstratos dos ideólogos.

Apesar do que já fora dito, mas também sem contradizê-lo, é necessário salientar que o filósofo inglês Roger Scruton (1944-2020), no seu livro O que é Conservadorismo, apresenta o paradoxo (um tanto razoável) de que a mentalidade conservadora por não seguir um conjunto formatado de conceitos, estaria fadada ao suicídio político, uma vez que sem uma organização de ideias as quais defender, não seria possível compor um partido, apresentar essa plataforma à sociedade, e, portanto, ser competitivo politicamente. E é exatamente o que Scruton faz na sua obra, apresenta um conjunto dogmático de valores para municiar os conservadores no debate de ideias.

O século XX foi denominado como “o século das ideologias” pelo filósofo francês Jean-Pierre Faye, na sua obra de mesmo nome (O Século das Ideologias). O historiador canadense também afirmou que o século passado foi marcado como a Era da Catástrofe Social, bem como e historiador britânico Eric Hobsbawm (1917-2012) o chamou de a Era dos Extremos. O cientista político romeno Vladimir Tismaneanu não deixou de comentar que o “século XX talvez seja a primeira vez em que o mal é institucionalizado politicamente e passa a ser ideologia que inspira experimentos de engenharia social em massa”. Insisto em pontuar isso para que fique claro que num passado extremamente recente, ou não tão distante (sob o ponto de vista histórico), o mundo viveu sob o peso sufocante de ideologias totalitárias, nazismo e comunismo, irmãos gêmeos da mesma serpente ideológica, responsáveis por guerras e genocídios, e um controle social nunca antes visto na história da humanidade. Que essas palavras sejam uma valiosa lição e sirvam como norte para a razoabilidade política que o conservadorismo representa.

“O conservadorismo advém de um sentimento que toda pessoa madura compartilha com facilidade: a consciência de que as coisas admiráveis são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas. Isso é verdade, sobretudo, em relação às boas coisas que nos chegam como bens coletivos: paz, liberdade, lei, civilidade, espírito público, a segurança da propriedade e da vida familiar, tudo o que depende da cooperação com os demais, visto não termos meios de obtê-las isoladamente. Em relação a tais coisas, o trabalho de destruição é rápido, fácil e recreativo; o labor da criação é lento árduo e maçante. Esta é uma das lições do século XX. Também é a razão pela qual os conservadores sofrem desvantagem quando se trata da opinião pública. Sua posição é verdadeira, mas enfadonha; a de seus oponentes é excitante, mas falsa.” – Roger Scruton

Jason de Almeida Barroso Medeiros, 26 anos, bacharelando em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco; Oficial da Reserva pelo CPOR/R; Entusiasta da filosofia política e editor do perfil @ocontribuinteoriginal no Instagram.

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