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Artigo: Racismo – verdadeira ojeriza popular ou resposta a agenda política monotemática?

A identificação física e psicológica com pessoas que sofrem dá autoridade para falar em nome das vítimas. Porém, a meu ver, o prejuízo democrático ocorre quando esses protagonistas reúnem-se unicamente sob certas bandeiras ideológicas e pensam que são os únicos porta-vozes de quem sofre. 

Quando uma pessoa diz que entende outra, muitas vezes é porque apreendeu o significado que veio encapsulado nos intensos adjetivos usados na fala alheia. Se o outro disse que sofreu preconceito por ser negro, por exemplo, imediatamente procuramos na lembrança situação cujo sentimento foi análogo. Daí, expomos nossa solidariedade com quem está sofrendo o racismo.

Há uma certa dignidade nesse tipo de identificação. Significa que, a despeito de não ter passado por experiência similar na própria vida, um indivíduo respeita o sofrimento de outro. Não é fácil consegui-lo, mas é nobre atingi-lo.

Na política, nas artes e em inúmeras outras esferas da atividade humana sempre existiu gente que lutou contra o preconceito de cor, de gênero e de tantas outras ordens.

Mães, pais, irmãos, professores, amigos, além de artistas e até mesmo alguns políticos assim já o fizeram. As esferas de suas ações, mesmo limitadas pelos mais diversos fatores, não deveriam tirar o valor da luta deles.

Alguém atingido por certas dores não deveria zombar ou descredenciar quem se importa, mas não andou pelos mesmos caminhos. Se existir verdade e responsabilidade nas tomadas de decisão do outro para com o problema, há real valor nisso

No entanto, existe um conceito moderno bem diluído, e também amalgamado em um sem numero de saberes sociais, de que, determinantemente, quem nunca “sofreu igual” não sabe nem pode falar sobre “o que é sofrer”.

Na verdade trata-se de uma estratégia que busca empoderar a vítima. Mas com que fim? Para dar-lhe protagonismo político. E isso é ruim para a vida democrática? Pelo contrário: a identificação física e psicológica com pessoas que sofrem dá autoridade para falar em nome das vítimas.

Porém, a meu ver o prejuízo democrático ocorre quando esses protagonistas reúnem-se unicamente sob certas bandeiras ideológicas e pensam que são os únicos porta-vozes de quem sofre.

Partindo desse jeito de refletir eles mergulham numa visão romântica de que “somos nós contra o mundo” . E esse lirismo todo pode, muito bem orquestrado, levar a uma cisão que, numa escala majorada, pode trazer confusão social importante. E não porque derrubaria um status quo, mas por fomentar a destruição de instituições democráticas, como já vimos em algumas oportunidades.

Aqueles que acreditam numa tirania das vítimas ensinam que elas devem rejeitar a responsável solidariedade alheia como se fosse irrelevante. Melhor: absolutamente inútil. Mas o que o mundo real tem a dizer sobre essa teorização pretensamente verdadeira?

Sempre haverá pessoas com histórias diferentes no mundo. Nunca deixará de existir negro, branco, oriental, ateu, cristão, homossexuais, heterossexuais, artistas, políticos, etc. E a beleza do mundo está no fato de que o compartilhamos, e podemos enriquecê-lo com nossos dons e talentos.

Não são os rótulos sociais ou religiosos que nos definem (ou deveriam nos definir) em essência. Somos seres humanos maravilhosos, e nossa união pode trazer maior desenvolvimento em todos os aspectos da vida neste planeta.

Nossa dissolução em guetos sociais nos rouba a noção de fraternidade. A Ciência, a Cultura, a Política, a Justiça, a Educação não irão evoluir a partir do trabalho de grupos só de negros ou de brancos, de ateus ou de cristãos, de homossexuais ou de heterossexuais.

A democracia é um conceito abstrato cuja objetividade é a vida experimentada numa paz respeitosa. E esse respeito não se encontra na prática de quem desqualifica ou zomba da empatia do outro para com os próprios sofrimento.

Sérias questões sociais farão parte da humanidade como já fizeram de gerações que nos antecederam. O racismo existe, mas a baixíssima qualidade da educação a que estamos submetidos também está aí, latente. Só que a dor à qual nos lança não vem de uma vez: é dividida em pequenas prestações contínuas.

O racismo mata, mas um assassino de maior assiduidade é o que tira a vida de quem aguarda atendimento nas emergências públicas de saúde no Brasil.

Não quero tirar a legitimidade da luta contra o preconceito que tem em vista a mera cor da pele. Não é isso. Mas creio o foco de tanta gente apenas nesse ponto é ruim. Além disso, pode muito bem fazer parte de uma agenda política que nos faz cegos para outras injustiças sociais que matam com rapidez infinitamente maior.

A má Educação prejudica nossa compreensão do mundo e nos rouba de um futuro profissional mais promissor. A falta de Segurança tira nossos bens e nossa liberdade de ir e vir. O descaso com a Saúde nos toma a própria Vida e o direito a um tratamento digno. A Corrupção Política rouba os recursos que poderiam dar a nós e ao meio ambiente um futuro com mais esperança.

É por isso que eu, quando olho para o mundo ao meu redor, tenho questionado alguns preconceitos sob outra perspectiva. Sabe, o racismo existe. E talvez ele não seja tão pequeno quando afirma quem o nega. Todavia, também não seja tão exclusivo quanto afirmam aqueles que o utilizam como bandeira social última.

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